Artigo : Cinco mentiras que a direita conta sobre Marx, por Bertone Sousa

BERTONE SOUSA

Historiador, professor do curso de História da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

marx-engelsMarx se tornou um alvo tão prioritário dos ataques dos gurus de direita na internet, que conhecer seu pensamento e sua história se tornou ainda mais importante pra quem quer fugir dessa incultura. E isso independe de se ser ou não marxista. Como Marx é um clássico, sua obra é essencial para se compreender a modernidade, como são Adam Smith, John Locke, Stuart Mill e tantos outros.

Dizem que Marx deturpou os Livros Azuis da biblioteca de Londres que usou como fontes para O Capital; que ele antecipou genocídios do século XX ao falar em “holocausto revolucionário” para “raças inferiores”; que seu pensamento casa perfeitamente com o totalitarismo stalinista que embasou todos os regimes do socialismo real do século passado; afirma-se até mesmo que ele era satanista e, a mais conhecida, que Marx era um “vagabundo” que não gostava de trabalhar. Nesse texto vou desconstruir essas asserções e mostrar seus equívocos.

  1. Marx era um vagabundo sustentado por Engels.

Esse é um dos chavões e inverdades mais repetidas por conservadores contra Marx. É de conhecimento geral que Marx foi auxiliado financeiramente por Engels durante um tempo, mas disso podemos dizer que: (1) se havia uma amizade e boa vontade de Engels de ajudá-lo, então  não existe problema algum nisso; (2) Mas acontece que Marx não viveu apenas da ajuda de Engels. Marx recebeu uma herança de sua mãe com a qual pôde custear suas despesas por um tempo; ele também trabalhou como jornalista e autor independente para alguns veículos de imprensa, como o Rhineland News, de Colônia, onde se tornou editor e também onde teve contato pela primeira vez com questões sociais referentes às condições de vida e trabalho do operariado, e a partir de então aderiu às ideias comunistas.

Contudo, sofreu com a censura à imprensa na Alemanha e com perseguições políticas em outros lugares, até finalmente se exilar em Londres em 1849, onde permaneceu até o fim da vida. Essa relação com Engels também nunca foi apenas de mão única: em 1848, Marx também enviou dinheiro para ajudar o amigo e, mesmo com poucos recursos, ajudava até mesmo outros amigos que passavam necessidade.

Mas o exílio em Londres trouxe grandes dificuldades para ele e outros ativistas alemães que viviam na capital britânica. O elevado custo de vida e o desemprego levou muitos a dormirem nas ruas[1]. Antes do exílio, Marx era editor chefe de um jornal, onde ganhava bem, mas os primeiros seis anos em Londres foram marcados por agudas dificuldades financeiras e crises familiares. A situação melhorou quando Engels mudou para Manchester para cuidar dos negócios do pai e iniciou os envios de dinheiro para Marx.

  1. Marx pregou o genocídio de alguns povos na revolução.

Essa falsa informação tem origem no documentário de extrema direita The Soviet Story e numa suposta citação de Marx feita ali falando em “holocausto revolucionário” de “povos inferiores”. Porém, Marx rejeitou as teorias do século 19 que falavam em inferioridade racial e não há em sua obra nada que aponte para isso.

Há comentários até mesmo sobre um possível antissemitismo em Marx, resultado de uma interpretação descontextualizada de seu ensaio “sobre a questão judaica”, da década de 1840. Marx na verdade faz nesse ensaio comentários às posições de Bruno Bauer, um intelectual que se opunha à emancipação dos judeus. Nesse ensaio, Marx fala sobre a relação entre os judeus e o Estado, Estado e religião, Estado e sociedade civil[2].Embora Marx tenha tecido críticas ao judaísmo como religião, ele condenou a posição de Bauer e defendeu a emancipação dos judeus como parte da realização dos direitos humanos universais. Ao contrário de alguns antissemitas de sua época, como o próprio Bruno Bauer, que depois vieram a aceitar os conceitos de raça, Marx não associou os aspectos negativos do capitalismo aos judeus.

Além disso, tinha uma visão abertamente negativa das teorias referentes à superioridade racial. Numa carta a seu genro Paul Lafargue, cujos antepassados tinham origens africanas, Marx escreveu que “para tais pessoas é sempre uma fonte de satisfação ter alguém a quem se imaginam com o direito de desprezar[3]”.

  1. Marx deturpou os documentos que usou para escrever “O Capital”.

Essa tese é desenvolvida por Paul Johnson no livro Os Intelectuais. Johnson é um historiador britânico ultraconservador e essa obra, publicada originalmente em 1988, foi escrita com um tom estritamente pessoal. O capítulo dedicado a Marx está eivado de ataques pessoais e afirmações descontextualizadas de sua obra e de sua vida. Obviamente o fato de Johnson ser um conservador não é um problema em si, mas sua escolha política interferiu claramente em sua obra, que falha por falta de rigor metodológico  e por não haver o distanciamento necessário de seu objeto de abordagem.

Johnson afirma que Marx era seletivo e falsificava suas fontes de informação[4], mas em nenhum momento ele especifica quais foram essas falsificações, como e quando foram feitas. Ele se reporta aos Livros Azuis do British Museum de Londres, analisados por Marx. Mas é preciso ter em mente que é a partir do desenvolvimento da teoria do valor-trabalho de Adam Smith, David Ricard e Stuart Mill que Marx elabora seus conceitos básicos sobre os tipos de capital. Os Livros Azuis eram “relatórios das comissões parlamentares de inquérito britânicas[5]” e foi neles que Marx encontrou descrições sobre a miséria dos trabalhadores, como o caso da lavadeira Mary Anne Walkley, de Londres, “que, esfalfando-se na limpeza dos vestidos das madames que se preparavam para o baile da Princesa de Gales, em 1863, literalmente morreu de trabalhar[6]”.

Sperber comenta que “Marx compreendia que a extensão da jornada de trabalho, mesmo não havendo oposição da classe trabalhadora, acabaria esbarrando em limitações físicas, a menos que todos os trabalhadores fossem se juntar a Mary Anne Walkley na cova[7]”. Johnson não menciona nada disso em seu texto.

Foi após a derrota e violenta repressão aos trabalhadores na Comuna de Paris que os editores de um jornal suíço, ligado a Marx, propuseram uma reforma do capitalismo em vez de uma revolução violenta que conduzisse ao socialismo. Era um projeto reformista e de cooperação de classes com o objetivo de atrair a atenção e o apoio da sociedade para as necessidades dos trabalhadores. Eduard Bernstein e Ferdinand Lassalle foram os principais defensores dessa linha na década de 1870[8].

Marx encarou essa tese com estranheza, embora a considerasse inovadora. Na verdade, desde 1857 ele já não nutria esperança de uma revolução socialista de curto prazo e chegou até mesmo a pensar em caminhos alternativos para a derrubada do capitalismo na década de 1860.

Paul Johnson também afirma que Marx não podia compreender que “desde os primórdios da Revolução Industrial, de 1760 a 1790, os industriais mais eficientes, que tinham amplo acesso ao capital, geralmente propiciavam melhores condições para seus empregados[9]”. E ainda:  “Desse modo, as condições  melhoravam e, por conta disso, os trabalhadores paravam de se revoltar, contrariando o que Marx tinha previsto[10]”.

Essas afirmações não são verdadeiras. No período mencionado por Johnson, a Revolução Industrial apenas dava seus primeiros passos e seu impacto social apenas começou a ser verdadeiramente sentido a partir de 1780. Ele não menciona que a Revolução Industrial foi responsável pelos levantes de trabalhadores da indústria e de populações pobres nas cidades, culminando nas revoluções de 1848 em todo o continente e nos movimentos cartistas e luditas na Grã-Bretanha[11]. E não eram apenas operários, mas também setores da pequena burguesia, como pequenos comerciantes.

Ele também não menciona o crescimento das cidades industriais sem planejamento, sem saneamento básico, com condições habitacionais precárias, que levaram ao reaparecimento de doenças contagiosas como a cólera e o tifo, além do aumento do alcoolismo, infanticídio, prostituição, suicídio, criminalidade e demência decorrentes do depauperamento social e jornadas de trabalho extenuantes.

Johnson também não menciona a rígida disciplina imposta nas fábricas por patrões e seus supervisores que incluíam multas abusivas e até castigos físicos, ou obrigatoriedade de os trabalhadores comprarem mercadorias em lojas de patrões. Johnson não menciona que o movimento operário nasceu das condições desumanas de vida nos distritos e cidades industriais como mecanismo de autodefesa e de protesto[12]. As melhoras nas condições de vida dos trabalhadores não era algo palpável até pelo menos a década de 1850, quando havia forte tendência de deterioração da situação material do proletariado fabril. Foi isso que ocasionou em parte as revoluções sociais de 1848, a partir das quais Marx e Engels publicaram o Manifesto Comunista, um panfleto político que se tornou um clássico.

Johnson também fala que “Marx não tinha qualquer interesse pela democracia[13]”.

O pensamento de Marx não foi linear da juventude à maturidade. No início da década de 1840, por exemplo, apenas cinco anos antes de redigir o Manifesto Comunista, Marx considerava as ideias comunistas perigosas, capazes de derrotar a inteligência humana, impraticáveis e que deveriam ser combatidas com canhões[14]. Ele também era defensor da liberdade de imprensa. Posteriormente, Marx realmente não via a democracia liberal com bons olhos, mas o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD), foi fundado em 1875 por marxistas lassallianos (Ferdinand Lassalle era seguidor de Marx e um radical-democrata defensor do sufrágio universal)[15]. Se Marx preteriu a democracia em favor da ação revolucionária e da ditadura do proletariado, a socialdemocracia, por outro lado, nasceu como uma ramificação do marxismo.

Paul Johnson, definitivamente, não é uma boa referência para se compreender Marx.

  1. Marx era satanista.

Sem comentários.

  1. A teoria de Marx legitimou as crueldades praticadas pelos regimes comunistas do século passado.

É difícil imaginar qual dessas cinco afirmações é a mais estapafúrdia, mas essa certamente é uma forte candidata. Jonathan Sperber chama a atenção para o fato de que o viés genocida seguido pelos regimes totalitários de Stálin e Mao contrariava de forma flagrante o que Marx pensava sobre o socialismo. Em sua obra, Sperber mostra como Marx era crítico da violência cometida pelos ingleses durante a ocupação colonial da Índia, algo muito semelhante à violência praticada pelo Estado soviético na modernização da Rússia e de partes do leste europeu. Sperber comenta ainda sobre o desprezo que Marx nutria pelos despotismos burocráticos nos reinos da Prússia e da Rússia czarista. Como é de conhecimento geral, essa forma de despotismo se tornou ainda mais acentuada nos regimes do socialismo real do século passado[16].

Conclusão

Como foi dito no início, Marx permanece um autor fundamental para entendermos a modernidade, o capitalismo, o industrialismo do século XIX. Recortar seu pensamento do contexto em que foi produzido, dos diálogos estabelecidos e das influências que marcaram sua vida intelectual é um gesto de desonestidade intelectual que precisa ser denunciado e combatido.

Compreender Marx como um clássico independe de você ser ou não marxista. Qualquer conservadorismo pretensamente denuncista que não entenda isso não passa de um embuste.

Leia também:

Cinco mentiras que a direita quer que você acredite

Marx ontem e hoje

Notas

[1] Cf. SPERBER, Jonathan. Karl Marx: uma vida do século XIX. Barueri, SP: Amarilys, 2014, capítulo 7.

[2] MARX, Karl. A questão Judaica. In:______. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2002.

[3] Idem, p. 398.

[4] JHONSON, Paul. Os Intelectuais. Rio de Janeiro: Imago, s/d, p. 81.

[5] SPERBER, op. cit., p. 417.

[6] Id., p. 417.

[7] Ibidem, p. 417.

[8] Ibid., p. 507.

[9] JOHNSON, op. cit, p. 81

[10] Id., p. 82.

[11] Cf. HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: 1789-1848. 18 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004-65, p. 64.

[12] Idem, capítulo 11.

[13] JOHNSON, op. cit., p. 85.

[14] SPERBER, op. cit., p. 111.

[15] Cf. HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital: 1848-1875. 10 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004, p. 164-165.

[16] SPERBER, op. cit, p. 536.

Comente

Seu email não será publicado. Campos marcados são obrigatórios *

*