A esquerda não deve pedir desculpas, mas sim enfrentar a direita, diz cientista político

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Fernando Haddad, candidato derrotado à presidência da República, pelo PT.

No dia 24 de agosto, o jornal francês Le Monde diplomatique Brasil publicou um artigo intitulado “Esquerda reconciliada”, assinado por Leonardo Barbosa e Silva, docente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia . No texto, Barbosa e Silva defende que a esquerda deveria se “reconciliar” com o povo – isto é, mudar sua política para aquilo que considera estrategicamente mais eficaz. Essa reconciliação, no entanto, significaria, na prática, uma total adaptação da esquerda ao regime político.

O artigo começa com o diagnóstico de que as esquerdas brasileiras estariam paralisadas.:

Estupefatas, assim se encontram as esquerdas brasileiras. Sua relativa paralisia já ocupa a atenção de analistas e inaugura uma usina de reflexões que promete dissecar um defunto ainda quente. A dormência deve incomodar a quem traz em seu DNA o compromisso com a mudança. No entanto, o incômodo de fato precisa ser outro.

Ao tentar explicar o porquê da paralisia, Leonardo Barbosa e Silva aponta o “medo” e a “culpa” como justificativas. O “medo” seria advindo da “violência” e do “ódio ou o confronto de um discurso de combate à corrupção e à insegurança para o qual não se encontram preparadas”. A “culpa”, por sua vez, seria pela “ausência de empatia” e pelo “hegemonismo” do Partido dos Trabalhadores (PT):

O PT, muito embora tenha possibilitado inúmeras oportunidades às esquerdas a partir de seu próprio crescimento, deve desculpas aos demais partidos pela ausência de empatia e pelo hegemonismo. O PT tem uma trajetória pouco solidária em seu campo, pois reitera a prática de comprometer ou sabotar candidaturas próximas, com se deve recordar os casos de Marina Silva, Eduardo Campos e Ciro Gomes.

As teses do artigo do Le Monde diplomatique Brasil para explicar a suposta paralisia das esquerdas são exatamente as mesmas que são apresentadas pela imprensa burguesa. Afinal, na medida em que Barbosa e Silva afirma que o PT deve desculpas, ele está responsabilizando a própria esquerda pela situação em que o país se encontra – quando, na verdade, o grande culpado pela destruição do país é o imperialismo, que corrompeu juízes, deputados, promotores e militares para derrubar um governo de esquerda e prender o maior líder popular do país.

Se o PT deveria pedir desculpas por supostos erros, por que a burguesia, que afundou a cidade de Brumadinho em lamas, destruiu a indústria nacional e impulsionou o fascismo, não deveria pedir desculpas? A esquerda não deve pedir desculpas por seus erros, mas sim denunciar os ataques dos maiores inimigos da humanidade: os capitalistas, que estão promovendo uma ofensiva em todo o mundo para salvar seus cofres.

O suposto “medo” da violência, por sua vez, não pode servir de justificava para que não haja uma mobilização contra a direita. Em todo o País, a revolta contra o governo Bolsonaro é cada vez maior – a popularidade artificial criada pela imprensa burguesa foi rapidamente desmascarada. Se organizados, os trabalhadores e setores democráticos têm condições de derrotar a direita, que, nesse momento de profunda crise política, não está ainda preparada para uma ofensiva violenta contra a população.

A alegação de que as esquerdas não teriam condições de confrontar o discurso demagógico de combate à corrupção e à insegurança também é mais um argumento para pressionar o movimento popular a se adaptar aos interesses da burguesia. O combate à corrupção e à insegurança não devem ser pautas da esquerda – são mitos criados pela direita para justificar a perseguição política aos setores que se rebelam contra o imperialismo e para justificar a repressão ao povo pobre e trabalhador. Não há como combater a corrupção e a insegurança por meio do Estado burguês – é a burguesia que controla o Judiciário e as Polícias. Quanto mais fortes as instituições burguesas e seu aparato de repressão, maiores os ataques aos trabalhadores. É preciso, portanto, convocar os trabalhadores para lutar contra a direita: abaixo o imperialismo – maior corruptor e maior promotor de chacinas do mundo!

A acusação de “hegemonismo”, por sua vez, só serve para a burguesia golpista, que quer destruir o país. Com base em um argumento moral – o de que todas as organizações de esquerda deveriam ter o mesmo espaço no regime político -, o que o autor defende é que o PT, enquanto partido com a maior base operária da América do Sul, deveria estar a reboque de partidos dominados por uma cúpula de abutres. Segundo o artigo, seriam de esquerda e mereciam ter o mesmo protagonismo que o PT partidos como a Rede e o PSB, que apoiaram o golpe de 2016, e o PDT e o PCdoB, que aprovaram a entrega da base de Alcântara ao imperialismo norte-americano.

A tese de que a responsabilidade pela situação em que o país se encontra – desemprego crescente, ataques aos direitos democráticos, ascensão da extrema-direita etc. – é do PT é repetida intensamente no texto. Em outro momento, Barbosa e Silva comenta:

Quando o PT dirá oficialmente à sociedade que errou? Será que não compreende que sempre que sua voz se levantar nas tribunas ou nas ruas, será intimidado por quem resgatar os escândalos? A direção do partido parece ainda não reconhecer que parte da militância se encontra paralisada porque sobre ela é colada uma pecha resistente e mobilizada para todas as situações de confronto. A pecha deslegitima de forma atroz e desarma a ação. Devolvam à militância a segurança de agir. Tirem de suas costas a montanha que carregam. Aliviem para dar liberdade.

Leonardo Barbosa e Sá deixa claro que a “reconciliação” da esquerda seria o PT aceitar todas as imposições da burguesia e se tornar um partido mais palatável para o regime político. Isto é, se a burguesia faz propaganda de que Lula, favorito para ganhar as eleições de 2018, deve ser preso mesmo sem prova alguma, a esquerda deveria ficar calada e entregar sua principal liderança. Trata-se de uma política suicida, uma política que fortalece a direita, uma política de total subserviência aos interesses dos maiores vigaristas que a já pisaram no planeta.

Em oposição a essa posição capituladora em relação à ofensiva da direita, é necessário que a esquerda assuma uma política de enfrentamento contra a direita. Mobilizar toda a população pela já pela liberdade de Lula, pelo “fora Bolsonaro” e por eleições gerais já!

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