ARTIGO: “A PRENSA, A IMPRENSA E AS REDES SOCIAIS”, POR MARCILIO FELIPPE

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De tempos em tempos o mundo é surpreendido por transformações e métodos revolucionários que mudam o curso da História. Uma dessas grandes revoluções do mundo foi a invenção da prensa tipográfica pelo alemão Johannes Gutenberg, que nasceu em 1395 e morreu em 1468.  Mas a imprensa já era um método conhecido há séculos no Oriente, antes de Gutenberg. Na Antiguidade, textos eram escritos em pedra, argila, couro, papiro e outros meios. Diários manuscritos existiram no Império Romano, publicados pelo Senado.

O papel já era fabricado na China no século II da Era Cristã. Superfícies, com textos em alto relevo, existiam no Oriente, há muito tempo. Assim, alguém teria tido a brilhante ideia de pintar uma dessas superfícies e pressionar uma folha de papel para obter uma cópia do texto. A obra impressa mais antiga conhecida é um rolo de papel com o Sutra do Diamante, um texto budista, em chinês, impresso no ano 868, encontrado em 1900, por um monge na Rota da Seda, em Dunhuang, na China.

Assim, nos anos 1430 ou antes, o uso de tipos móveis metálicos apareceu na Europa e foi aperfeiçoado por Gutenberg. Ele introduziu uma liga metálica com chumbo, para os tipos, muito mais durável, e melhorou os métodos de impressão. Em 1455 ou antes, Gutenberg publicou uma Bíblia, em latim vulgar, de impressionante qualidade gráfica, iniciando uma revolução na imprensa.

Isso trouxe enormes mudanças de comportamento. A princípio, essas Bíblias eram livros exclusivos dos altos clérigos e dos sacerdotes. Mas depois que os fiéis tiveram acesso aos escritos, podiam acompanhar a pregação da Palavra, inclusive questionando aquilo que ouviam daquilo que estava escrito. Questionavam a Palavra de Deus? Não! Apenas descobriram que agora poderiam ver as diferenças entre a fala e a escrita.

A imprensa proporcionou grande acesso à informação e foi uma das alavancas do Renascimento. Proliferaram-se universidades e jornais. Seguiram-se revoluções culturais. A primeira grande instituição vitimada foi a Igreja Católica, com a Reforma Protestante. Nos séculos seguintes, os mecanismos de impressão foram aperfeiçoados, ganhando velocidade, automação e cores.

No início do século XX, os jornais impressos eram os principais meios de comunicação em massa no mundo. A concorrência era grande e existiam jornais matutinos e vespertinos. Esse século foi tecnologicamente desafiador para a imprensa (censura e perseguição sempre existiram). Os paradigmas da comunicação de massa mudaram algumas vezes. Os telejornais dominaram por décadas o monopólio da informação, cujas notícias aos telespectadores já eram apresentadas prontas, mastigadas e formatadas. Bastava engolir.

Como escreveu o geógrafo e pensador Milton Santos em seu livro de 2000, “Por Uma Outra Globalização”: “Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que aconteceu na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada pelos humores, visões, preconceitos e interesses das agências. O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos. ”

A INTERNET E A INFORMAÇÃO DIGITAL

Há vinte anos, Milton Santos não poderia saber exatamente o que estava por vir. Com o advento da internet e toda a tecnologia avançando desenfreadamente, nós ficamos sabendo o que ocorre tanto na nossa vizinhança, como do outro lado mundo, online e instantaneamente. Praticamente nós não buscamos as informações. Elas vêm ao nosso encontro. Basta ligar o PC, o smartphone, o notebook ou o tablete e se conectar. Essa é a outra grande transformação na comunicação depois de Gutenberg – nessas novas mídias digitais, somos tragados por um turbilhão de informações, popups, propagandas, sites de compras, ofertas, notícias, entretenimento, jogos e outros atrativos. Todas as grandes empresas jornalísticas, rádios, canais de TV, revistas, colunistas, jornalistas, blogueiros e comunicadores migraram para as plataformas digitais.

Essa nova forma de se comunicar exigiu adaptações, novas linguagens e novas técnicas. A distância desapareceu. Isso possibilitou uma grande participação das pessoas interagindo junto às mídias, debatendo e emitindo opiniões em tempo real, coisa impensada nos primórdios dos telejornais. Em contrapartida, trouxe algumas baixas: o mercado editorial e gráfico sofreu duro golpe: revistas tradicionais foram tiradas de circulação, livrarias estão sendo fechadas, o público desapareceu das bibliotecas e o jornal impresso passou a ter seus dias contados.

O crescimento da internet e das redes sociais está reconfigurando as relações entre produção, programação e distribuição dos conteúdos comunicacionais. As tecnologias digitais e a convergência das mídias estão potencializando formas alternativas, relativamente simples tecnicamente – razoavelmente baratas -, forçando grupos hegemônicos a criarem outras estratégias de apropriação das audiências. Desde 1990, a TV por assinatura brasileira responde à maior demanda de segmentação do mercado, mas somente nos últimos dez anos se consolidou como o seu modelo de negócios.  A Netflix e outras TV´s por assinatura desbancaram de vez as locadoras de filmes.

Em meio a tantas mudanças cada vez mais rápidas, há uma multidão de pessoas produzindo conteúdos, escrevendo textos noticiosos mesmo sem serem jornalistas. O fato é que nunca foi tão rápido e fácil ter notícias sobre qualquer assunto ou fato, vindas dos quatro cantos do mundo. A novidade fica velha em instantes e lá vem outra informação para substituí-la. Usuários ficam cada vez mais exigentes e querem se manter atualizados sobre o que está acontecendo no mundo.

E o que ocorre hoje é uma batalha travada entre a qualidade e a velocidade das notícias veiculadas, além do aprimoramento da qualidade técnica da mídia. Na busca frenética de divulgar rapidamente um novo acontecimento, alguns acabam por cometer sérios deslizes, como deixar de checar devidamente a fonte, além de escrever textos com erros grosseiros de ortografia e gramática. O mais grave é a disseminação de notícias falsas, as tais “fakenews” que são veiculadas propositadamente, ou por não serem devidamente checadas.

A LEI DA MORDAÇA – PL 2630/2020

E as tais “fake news” foram as principais justificativas para que os nossos parlamentares elaborassem um Projeto de Lei, que limita a liberdade do cidadão se expressar nas redes sociais.  Mas o Senado não encontrou apoio popular para aprovar o Projeto de Lei 2630/2020, chamado de “Lei das Fake News”. No entanto, a toque de caixa e sem uma análise mais aprofundada do tema, o projeto entrou na pauta das votações e foi aprovado pela maioria dos senadores.  Pelo Twitter, o público mostrou sua indignação e mandou o recado aos parlamentares: a proposta é vista como ato de “censura”, “mordaça” e de “perdas de direitos”.

Vejamos: a quem as opiniões em massa atingem diretamente? Aos próprios parlamentares, às figuras públicas e às celebridades. A estes primeiros, principalmente, em épocas de eleições. A movimentação contra a possibilidade de aprovação do projeto não ficou restrita a usuários comuns da internet. Parlamentares chegaram a se pronunciar a respeito do tema. De acordo com análises de alguns integrantes do Congresso, o PL não resultará em benefícios à população. Pelo contrário, aliás. Eles acreditam que a proposta culminará em minar a liberdade de expressão no país.

“Se o PL da Censura é tão bom quanto vocês dizem, por que a votação está sendo conduzida a toque de caixa atropelando regimento, pauta e comissões do Senado? Se é bom, não precisa ter medo de ouvir opinião pública nem pressa para acelerar votação”, escreveu Leandro Lyra, vereador pelo RJ em seu twitter.

O twitter, contudo, não foi a única plataforma em que o público se manifestou contra o PL das fake news. Na aba de “consulta pública” disponibilizada no site da Agência Senado, o projeto também encontrou rejeição. Isso porque a maioria votou “não”. Foram mais de 420 mil votos na opção. Por outro lado, o “sim” apresentou 353 mil votos.

“Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação. Conforme já vimos, as novas condições técnicas deveriam permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia, nas condições atuais, as técnicas de informações são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos particulares ”, escreveu Milton Santos.

Nenhuma sociedade democrática sobrevive ao controle de informações ou à forma de sua utilização. O uso da internet é, hoje, meio de interação, mobilização e conscientização de seu povo. A informação está intimamente ligada ao desenvolvimento de um país. Negar a informação e a possibilidade do debate é negar o exercício pleno da cidadania aos indivíduos.

A verdade é que as redes sociais, estão com sua gigantesca massa de usuários, absorvendo e trocando informações em tempo real, desmistificando falsos ídolos e quebrando paradigmas, tornaram-se um grande empecilho para quem tem pretensões a cargos eletivos ou falsos heróis. Por óbvio, como em toda as atividades humanas e por falta de uma cultura apropriada, elas podem ser mal utilizadas e direcionadas para outros fins nada dignos.

Entretanto já existem leis e punições para quem denegrir ou prejudicar por ofensas, ou praticar injúrias e difamações contra outrem. Censurar não é o caminho, mas educar para o bom uso. Essa blindagem na verdade, é para uso exclusivo de congressistas, governantes, altos escalões do serviço público e afins. Quem do povão, qual trabalhador que paga impostos, do pobre, do brasileiro comum, é atingido ou tem motivos para ser alvo dessas “fake news”? Definitivamente ela não serve aos eleitores e nem ao povo em geral.

Lá atrás, quando Gutenberg aperfeiçoou a prensa e imprimiu a primeira Bíblia, talvez os integrantes do clero tenham ficado com receio de que muitas coisas ditas, não pudessem corresponder as Escrituras.  Me ocorreu o mesmo raciocínio na relação dos políticos com as redes sociais hoje: O medo de que a liberdade possa desnudar ainda mais uma classe que sempre viveu no obscurantismo e nas sombras da mentira.

CONSULTAS: “Por Uma Outra Globalização” – Milton Santos – 2000

Fundação IBGE. “O Brasil em Números”-  Rio de Janeiro: IBGE, 2015.

LEE, T. B. Fundador do World Wide Web (WWW). Jornalismo de dados.

https://revistaoeste.com/censura-e-mordaca-internautas-protestam-contra-o-pl-das-fake-news/


 

 

MARCILIO PASCOAL FELIPPE-*

NATURAL DE SÃO PAULO – RESIDE EM TUPÃ SP-

IDADE 65 ANOS.

Bacharel em Jornalismo, pela Faculdade FACCAT de Tupã.

Jornalista Profissional devidamente registrado no Ministério do Trabalho sob número 0085309/SP

É Técnico de Planejamento e Gestão de Informações, na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, tendo ingressado na instituição em 1980.

Desenvolveu trabalhos na área de coleta de dados, tendo participado ativamente em nove campanhas censitárias, como supervisor e Coordenador de Área.

Trabalhou na Base Territorial do IBGE de São Paulo, na atualização de mapas e acertos de limites territoriais municipais e distritais, em convênio com o IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).

Participa ativamente de execução de projetos de pesquisas sociais, demográficas e econômicas, ministrando treinamentos e acompanhando os trabalhos de coleta de campo como supervisor.

Palestrante em escolas públicas estaduais, para estudantes de ensino médio, abordando temas como a cartografia, geografia, pesquisas e mapas.


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