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Artigo: “As mulheres e a cidade”, por Nayara Mazini

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Homens e mulheres vivem e experimentam a cidade de formas diferentes de acordo com seus interesses, desejos e necessidades.

O espaço urbano não é confortável para as mulheres e os desafios vão desde as dificuldades para o caminhar, acessibilidade, questões de segurança e assédio. Circular pela cidade é um desafio extra para mulher.

As conquistas femininas vêm transformando a realidade das mulheres ao longo dos anos e embora sejam inegáveis, não foram suficientes para reparar séculos de desequilíbrio e exclusão social.

Entretanto, ainda que a mulher tenha passado a constituir figura ativa no desenvolvimento social e econômico, na luta por salários igualitários, seu papel ainda está associado ao ambiente privado, segregado e distinto, caracterizado pela responsabilidade em cuidados como ordem da casa, educação dos filhos, provisão das necessidades do marido, etc. Isso é perceptível no mercado de trabalho, na esfera política e pública e se reflete também em sua relação com os espaços e no direito à cidade.

O número dos domicílios chefiados por mulheres tem aumentado progressivamente, mas a ausência de autonomia na mobilidade as impede de adquirir condições para de fato serem “sujeitos de direitos”, de terem contempladas suas subjetividades, fazendo com que não se sintam parte integrante da vida pública. Neste sentido, à medida que não participam da vida pública, as mulheres não contribuem na proposição das políticas públicas.

Os ambientes produzidos e reproduzidos na cidade refletem os estereótipos dos lugares femininos e masculinos. Desta forma, o planejamento urbano funcionalista e racionalista que compõe a paisagem urbana traz a dominância da perspectiva masculina sobre o espaço ao separar setores comerciais, industriais e residenciais, prevalecendo uma concepção de cidade que aprisiona as mulheres.

 A realidade que vivenciamos mostra que o poder público historicamente ignora as necessidades das mulheres, bem como não se atenta às mudanças na estrutura econômica onde passaram a ter significativa participação, sem as devidas melhorias no espaço urbano que possibilitem sua permanência e deslocamento pela cidade. As necessidades femininas não são prioritárias tampouco determinantes.

É necessária certa sensibilidade para perceber as notórias sutilezas e especificidades que permeiam o direito de ir e vir das mulheres. Sendo mais precisa, constatada nossa “invisibilidade”, temos nossas necessidades desprezadas e negligenciadas pelo poder público, tornando nossa circulação restrita e nossa presença fragilizada nos diversos espaços da cidade.

A organização territorial contextualizada pela desigualdade vem acompanhada do aumento do crime, da violência, da sensação de insegurança e da intolerância impregnada nos espaços urbanos, de maneira expressiva a violência sofrida pelas mulheres.

As estatísticas sobre a violência contra a mulher e a efetivação do seu direito à cidade vão de encontro às propostas de planejamento urbano existente, revelando o descompasso entre o discurso democrático de nossas leis e a realidade enfrentada pelas mulheres.

A integração da mulher à sociedade só é possível quando suas necessidades e dificuldades são contempladas no momento da elaboração e revisão do Plano Diretor e nos instrumentos que fazem parte do cotidiano de compreensão e melhoramento do espaço urbano.

As mulheres são atores centrais para o planejamento urbano, pois experimentam de forma orgânica os espaços e equipamentos públicos, fazem um número diferente de viagens cotidianas que extrapolam o eixo moradia-trabalho, usam mais o transporte coletivo e andam mais a pé.

Dados mostram que mulheres cuja situação familiar é de “cônjuge” se deslocam menos e não têm prioridade no uso do carro da família em relação aos homens. Mulheres mais instruídas se deslocam mais.

As principais motivações das mulheres para se deslocarem são trabalho e estudo. No entanto, têm razões diversificadas e muitas vezes específicas, incluindo idas e vindas a supermercados, lojas, farmácias, creches, escolas, postos de saúde e outros inúmeros destinos com “função lar”, que acabam desenhando um tipo específico de deslocamento no espaço, indicando que tais atividades recaem principalmente sobre as mulheres.

Mulheres nas faixas de renda familiar mais baixas fazem menos viagens com motivo final “trabalho”, o que sugere situações em que mulheres abandonam seus empregos para dar conta da casa e dos filhos e também o exercício do trabalho informal.

Diante deste cenário, é necessário a proposição de intervenções públicas, sociais e governamentais, com elaboração e execução de medidas e políticas que incentivem um planejamento orientado para as mulheres, que transformem os espaços da cidade em lugares mais humanos e igualitários.

São exemplos as medidas que beneficiam pedestres, como redução da velocidade máxima de vias, instalação e melhoramentos em calçadas e iluminação, aumento do número de motoristas mulheres nos transportes públicos, permitindo o desembarque noturno em locais seguros fora dos pontos regulares e redução das tarifas de transporte.

 Políticas indiretas também podem reduzir a desigualdade no padrão de deslocamento como a instalação adequada de creches em quantidade e localização, escolas públicas com educação integral e centros públicos de atividades para a população idosa e pessoas com deficiência. Estas medidas podem contribuir para a entrada e permanência das mulheres no emprego.

Projetos urbanísticos devem incluir os diversos serviços, como farmácia, creche, consultório médico e transporte público, melhorar a mobilidade dos pedestres com alargamento de calçadas e implantação de rampas que permitam a passagem de carrinhos de bebê, andadores e cadeiras de roda, ampliação do acesso ao transporte público, além de tornar a circulação à noite mais segura, facilitando a movimentação.

É necessário planejar espaços com rica vida urbana providos de movimentação constante de pessoas, através da implantação de usos diversos, tornando os espaços atrativos, seguros e convidativos para crianças, mulheres, homens, jovens ou idosos.

Ao atender os anseios e necessidades das mulheres, serão atendidas também, outras parcelas segregadas da população. Portanto, se uma cidade mostra-se segura e aberta à participação do público feminino, há também uma tendência de que ela seja segura e agradável para todas as outras parcelas da população.

Outras medidas ainda incluem uma mobilidade mais flexível, com bilhetes de ônibus que permitam mais de uma viagem, oferta de transporte público com qualidade e oferta de mais linhas e horários alternativos, valorização da mobilidade ativa com a implantação de ciclovias confortáveis e seguras.

Nos espaços públicos como ruas, calçadas, praças e parques, a instalação e a manutenção dos mobiliários urbanos como bancos, lixeiras e principalmente iluminação pública, criação de áreas públicas de lazer que considerem as necessidades de toda a população instigando a interação entre pessoas também são formas de promover a mobilidade da mulher.

A participação da gestão pública deve ser assídua na criação de políticas públicas que promovam o bem-estar e que mantenham a integridade da mulher preservada, campanhas educativas contra o assédio e contra a violência e a intolerância, em respeito não só às mulheres, mas a todos os distintos grupos sociais, buscando assim espaços urbanos mais justos e socialmente receptivos.

Os direitos e necessidades das mulheres devem ser contemplados no planejamento das cidades do futuro, e para isso a participação e presença das mulheres é imprescindível e indispensável, na política, nas lideranças locais, associações de moradores, ONGs e nos espaços de decisão, para que suas vozes sejam ouvidas e suas necessidades representadas.

A participação, simplicidade e sensibilidade feminina são capazes de criar intervenções em espaços arquitetônicos contribuindo para que a cidade seja mais bonita, inclusiva e para que verdadeiramente dialogue com seus cidadãos.

Não existe democracia sem a participação política das mulheres!

Observação: este texto foi elaborado a partir de um compilado de artigos, pesquisas, reportagens e noticiários disponíveis na internet, com a finalidade de conduzir à reflexões quanto a realidade vivenciada por nós mulheres em nossa cidade e sugestões possíveis que contribuam para o planejamento de políticas públicas voltadas ao exercício dos direitos das mulheres.

Nayara Mazini


Enfermeira de formação pela Universidade Estadual de Londrina, desenvolveu-se na arte do cuidar.
Servidora pública no Departamento Regional de Saúde IX de Marília.
Atua em Políticas Públicas de Saúde no SUS, pelo Centro de Planejamento e Avaliação em Saúde. Pesquisadora, mestranda em Ensino e Saúde pela Famema.
Na docência e assistência desenvolveu trabalhos na Saúde Materno-infantil, Saúde Mental e Saúde Pública.
Mãe atípica, luta pelos direitos da pessoa com deficiência, direitos das mulheres, é ativista e cultivadora autorizada de Cannabis para fins medicinais.
Escolheu Marília para viver e estabelecer sua família.
Acredita que é possível mudar a realidade imposta a nós marilienses, transformando nossa cidade num lugar mais digno, justo e humano para todos!
Para além da competência na gestão pública, alicerces na sustentabilidade ambiental e responsabilidade social, hoje é necessário inovar.
Marília merece alguém que traga a vontade, o comprometimento e seriedade, a missão assumida em deixar um mundo melhor para nossas próximas gerações.


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