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Artigo: Basta! É preciso respirar!, por Professor Juvenal

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Basta! É preciso respirar!

Professor Juvenal

 

Há momentos na vida de uma nação ou na vida de cada um de nós em que as situações se tornam insustentáveis. Todo o tecido social ou nosso corpo individual rejeitam a opressão que nos sufoca e gritamos: Tirem o joelho de nosso pescoço! Tirem a espinha de nossa garganta! Não conseguimos mais respirar! Queremos viver!

George Floyd, apaixonado por esportes e hip hop, norte-americano, negro, tinha três filhos e se mostrava avesso à qualquer tipo de violência. De cidadão comum, transformou-se, repentinamente, em ícone de luta e hoje não há quem não tenha ouvido seu nome. Pelo mundo todo, ele preenche placas, muros e intervenções, sempre ao lado da frase “Vidas Negras importam”. Segundo Gianna, sua filha de 6 anos, ele é o homem que mudou o mundo. Sua morte violenta aconteceu no dia 25 de maio de 2020, em Minneapolis, Minnesota, EUA, provocada por um policial branco que primeiramente o imobilizou, para em seguida, ajoelhar-se sobre seu pescoço, por pelo menos sete minutos, sufocando-o. George implorava pela vida, repetindo várias vezes “Eu não consigo respirar”. Tudo foi filmado e colocado na mídia. Esse fato provocou uma onda de protestos e revoltas que se estendeu por vários estados americanos, realizada por brancos e negros, pedindo a prisão dos envolvidos e o fim do racismo estruturante na polícia militar.

Na noite de 31 de maio em que os protestos antirracistas aconteciam com intensidade nos EUA, tivemos reações estranhas no Brasil. Alvo do inquérito do Supremo Tribunal Federal que apura a máquina de fake news e ataques de bolsonaristas às instituições, a ex-funcionária do Ministério da Família, Mulher e Direitos humanos, Sara Winter, liderou na madrugada de domingo um protesto em frente ao prédio da Corte em Brasília. Sara estava com os seus “300 do Brasil”, grupo acampado na Praça dos Três Poderes, que, segundo Sara, teria membros armados. Mascarados e segurando tochas, o grupo, comparado à Ku Klux Klan,- supremacistas estadunidenses que perseguiam negros-, com passos marcados, como soldados, gritavam “ahu”, expressão que vem se tornando comum entre grupos de extrema-direita ao redor do mundo. Este grupo apoia o presidente Bolsonaro e deste recebe apoio. Segue ideários eugenistas, racistas, nazifascistas.

Enquanto ao redor do mundo, todos estavam com as atenções voltadas para as manifestações antirracistas nos EUA, aqui no Brasil, terra de maioria afrodescendente, um grupo decide fazer marchas de cunho eugenista às portas do palácio presidencial. O ridículo é tanto que nos provoca aversão, asco e vergonha. Todo este grupo deveria assistir a “Bacurau”, um filme brasileiro de 2019, que retrata um pequeno povoado do sertão nordestino em que mistérios e horrores começam a acontecer, desde que o povoado desaparece dos mapas oficiais e drones começam a sobrevoar a cidade. Um grupo de americanos, que organizou toda esta trama, vai para lá se “divertir” matando pessoas. Com eles vai, também, um casal do sudeste brasileiro que se julga superior aos nordestinos e amigos dos gringos. Aos poucos os brasileiros percebem que os gringos também os desprezam, pois para eles não basta ser branco para entrar no seu grupo da supremacia branca americana, também não pode ser latino. Quem sabe, após o filme, os supremacistas brasileiros comandados pela tal Winter percebam quem eles são neste mundo de racismo, preconceito, fascismo, nazismo e comecem a dar valor para suas origens e sua história.

Mas não foi só esta ação, comandada por Sara Winter, que mostrou o Brasil na contramão dos protestos do mundo. Há outras iconografias do governo que flertam com o nazi-fascismo: no mesmo dia 31 de maio, Bolsonaro compartilhou um bordão popularizado na Itália por Mussolini “Melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro”. Houve também a ridícula cena em que Bolsonaro aparece tomando um do copo de leite, supostamente em apoio aos ruralistas brasileiros, mas, na verdade, expondo a construção de uma retórica nazista. “Só para os entendidos”, como ele diz. Há uma teoria anticientífica que diz que só os descendentes da raça ariana não têm intolerância ao leite, quando adultos. Assim os supremacistas tomam leite com orgulho.

Tudo isso em meio a uma pandemia que mata mais de mil brasileiros por dia sem que seja apresentado, por parte do governo, um projeto para modificar esta realidade. Durante o tempo todo Bolsonaro esteve colaborando com o vírus e jamais o enfrentou. Menosprezou os efeitos da Covid, estimulou a quebra do isolamento, não auxiliou os governadores, não comprou material de proteção a médicos e enfermeiros, não comprou respiradores, não facilitou a entrega da renda emergencial, e ainda de quebra não ajudou os micros, pequenos e médios empresários. Não se importa com a dor dos familiares que perdem seus entes queridos infectados pela Covid. O que ele faz muito bem é instituir o caos, ameaçar as instituições, esticar a corda da democracia, ameaçando um autogolpe.

O povo brasileiro não suporta mais esta situação. Basta! Precisamos respirar! Há uma grita geral: Fora Bolsonaro! Surgem manifestos, abaixo-assinados, revolta nas redes sociais e um movimento novo que está tomando corpo: a ocupação das ruas! Mas e a pandemia? E as ameaças de Bolsonaro que quer transformar antifascistas em terroristas? E os infiltrados que podem provocar queba-quebra para que culpabilizem os manifestantes?

Os brasileiros estão com milhões de George Floyds sufocados na garganta: João Pedro, adolescente de 14 anos, baleado dentro de casa durante operação policial no Salgueiro, São Gonçalo/ RJ; Ágatha Félix, de 8 anos, baleada quando voltava para casa com a mãe; Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, morreu, quando militares dispararam 80 tiros no carro em que ele se encontrava com sua família, indo para um chá de bebê. E muitos outros, além do desemprego, da perda de direitos, da fome, das mortes pela pandemia, pela violência, pelo racismo, pela misoginia.

Domingo muitos vão às ruas! São torcidas organizadas, movimentos sociais, partidos políticos, cidadãos e cidadãs comuns! Que fiquem de olho nos infiltrados! Usem máscaras, carreguem álcool-gel, mantenham distanciamento, não caiam em provocações, usem roupas de impactos, organizem a mochila! Que tenham advogados, médicos e enfermeiros ajudando-os. Força e coragem. A solução virá do povo nas ruas!

Prof. Juvenal de Aguiar – Diretor Estadual da APEOESP e Maria Elvira Nóbrega Zelante – professora aposentada, militantes do Partido dos Trabalhadores e Membros da Executiva Municipal de Marília.


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