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ARTIGO: “MARES BRAVIOS E FLORES DE LÓTUS”, POR MARCILIO FELIPPE

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MARES BRAVIOS E FLORES DE LÓTUS

MARCILIO FELIPPE*

“O mar calmo nunca fez o bom marinheiro” – Li essa frase inscrita em uma tabuleta há muito tempo, numa dessas lojas que vendiam utensílios e enfeites feitos a mão e achei interessante. Eu era muito jovem, mas a frase ficou na minha mente. Me lembrei dela quando assisti aquele desenho da Mulan e que meus filhos assistiram dezenas de vezes: “A flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e mais bela de todas. ”

Estamos atravessando algumas tempestades e mares revoltos. Nestes últimos meses de incertezas do que está para vir, a instabilidade no mercado, as condições precárias do nosso sistema de saúde que se evidenciaram e, sobretudo essa polarização de ideias e discussões políticas, quase sempre de forma agressiva, fazem com que as memórias da infância e a metáfora do aprendizado no mar volte mais vivas do que nunca.

Esse isolamento social é perverso, embora necessário. Penaliza a maior parte da população que não tem segurança financeira e nem empregos públicos, que lhes possam lhe garantir uma subsistência sem sair de casa. Mas também é um momento de reflexão interna, de introspecção, de reavaliar conceitos e atitudes.  Em um mundo tão conturbado, com tanta concorrência, com todas as pessoas conectadas e recebendo milhões de informações, ficamos como um bote de borracha, perdido na imensidão do oceano.

Tanto no mar quanto na nossa vida pessoal, o planejamento da jornada é fundamental. Entretanto estar preparado para as adversidades e mudanças de rota é o que torna você diferente. Agir com velocidade, tomar as decisões corretas — sobretudo na pressão dos acontecimentos — os cuidados na escolha de decisões corretas das atividades são fundamentais em momentos de dólar descontrolado, inflação em alta, pandemia aterrorizante e muita incerteza e pessimismo e se assemelha a escolha da tripulação correta e a rota certa a ser seguida.

Infelizmente não somos bons marinhos para atravessar mares agitados. Estamos engatinhando como nação democrática. Prova disso é que perdemos o respeito por quase todas as instituições republicanas, e a razão disso na maioria delas, é por culpa de própria instituição. É sabido que o nosso congresso há décadas, deixou de ser o representante de quem o elegeu, para se tornar um balcão de negociatas e de enriquecimento fácil, em troca de apoio às ações do governo.

No momento, o que assistimos é uma certa balburdia institucional e uma bagunça no ordenamento jurídico do país, onde os poderes democráticos, que deveriam agir com independência, cada vez mais sofrem interferências, tal qual aquele mar revolto que interfere na rota do navio em alto mar.

Essa separação entre os poderes é um princípio básico das democracias modernas, já que impede que um órgão ou uma pessoa tenha muito poder e se sobreponha aos demais. Se o STF pudesse não só julgar a constitucionalidade e a interpretação das leis, mas também pudesse fazer as leis e executar tarefas, ele seria a instituição mais poderosa do Brasil e tornar-se-ia incontrolável pelo resto da sociedade.

Só para exemplificar, a decisão do ministro Marco Aurélio de Mello, de determinar a soltura de presos após condenação em segunda instância, contrariando uma decisão do plenário da própria corte em 2016, promoveu uma onda de declarações e posições contrárias e também favoráveis a medida.

Essa politização do poder judiciário tem dado margem a um entendimento por parte da população, de que o STF se apequena e que o congresso nada faz em prol daqueles que os colocaram lá e de certa forma, faz com que o poder Executivo fique refém de suas ações e decisões, com o presidente exacerbando falas e atritos desnecessários com a imprensa. Assim, os ventos começaram a soprar mais fortes e as ondas começam a colocar nossa embarcação a pique.

E como se não bastasse, o mundo enfrenta uma pandemia que chegou ao Brasil num momento de grandes turbulências, advindas de uma eleição tumultuada e marcada pela troca de poder na presidência. A propagação do vírus só evidenciou nosso despreparo e a falta total de uma estrutura de saúde pública, compatível com o tamanho do país.  Ao invés de unir forças para enfrentar a doença, há uma total desunião de governantes, muitos interessados em tirar proveito político e financeira da crise.

Por falar em crise, na vasta coleção de verbetes existentes que nos trazem os dicionários, ele define crise da seguinte maneira: ponto de transição entre uma época de prosperidade e outra de depressão; em sentido mais geral, crise é o que sabemos: fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos sentimentos, dos fatos; colapso. Mas nos traz um fator importante, que é o ponto de transição.

Voltando para a frase inscrita na tabuleta, não há melhor maneira de formar bons navegantes que enfrentar o mar revolto. É em tempos como este que pessoas, instituições e empreendedores se reinventam. Em meio as maiores tempestades é que conseguimos realizar coisas extraordinárias. Foi sempre assim.

É comum identificar colaboradores temerosos com a crise, mas sem iniciativa para superá-la. Infelizmente — ou felizmente — não há espaço para todos. Mas invariavelmente é nessas condições que encontramos os capitães do futuro, que vão nos ajudar e, possivelmente, navegar conosco nas próximas jornadas.

As velas foram içadas e o que nos resta é trabalhar e aguardar pela calmaria. Esses são momentos e oportunidade de um reencontro com nós mesmos.  De nos depararmos com o nosso espírito em nossas orações e refletir, tanto sobre a vida como também sobre a morte.  Tudo passa por nós como um flash, como um relâmpago no meio da noite chuvosa.  Parece que a certeza de que nossas vidas terão outro sentido e que aquela que levávamos há três ou quatro meses atrás, nunca mais será a mesma.

A mudança começa no exato momento em que decidimos agir sobre as adversidades, encontrando de maneira criativa novas rotas para o mar. Portanto, tome o leme da sua vida. Saiba que os ventos estão em constante mudança… sempre.

E deixe que as flores de lótus desabrochem livres e belas em qualquer situação.


MARCILIO PASCOAL FELIPPE-*

NATURAL DE SÃO PAULO – RESIDE EM TUPÃ SP-

IDADE 65 ANOS.

Bacharel em Jornalismo, pela Faculdade FACCAT de Tupã.

Jornalista Profissional devidamente registrado no Ministério do Trabalho  sob numero 0085309/SP

É Técnico de Planejamento e Gestão de Informações, na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, tendo ingressado na instituição em 1980.

Desenvolveu trabalhos na área de coleta de dados, tendo participado ativamente em nove campanhas censitárias, como supervisor e Coordenador de Área.

Trabalhou na Base Territorial do IBGE de São Paulo, na atualização de mapas e acertos de limites territoriais municipais e distritais, em convênio com o IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).

Participa ativamente de execução de projetos de pesquisas sociais, demográficas e econômicas, ministrando treinamentos e acompanhando os trabalhos de coleta de campo como supervisor.

Atualmente ocupa cargo de chefe da unidade em Tupã/SP e é Coordenador de Área do Censo Agropecuário da região de Bauru, Jau e Botucatu.

Formação do Ensino Médio: Técnico em Administração, tendo trabalhado na iniciativa privada no setor de contabilidade, de recursos humanos e de marketing, antes do ingresso no serviço público.

Escreve um artigo semanalmente no jornal Destaque de Osvaldo Cruz.

Palestrante em escolas públicas estaduais, para estudantes de ensino médio, abordando temas como a cartografia, geografia, pesquisas e mapas.


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