Reservou-se a data de 20 de novembro para se comemorar o dia da “consciência” negra. Já escrevemos em outro local que, em verdade, o que se almeja é o alcance da “consciência” branca de que o negro precisa ser visto como um “igual”.

Para tanto, é obvio, que as oportunidades precisam, de fato, serem iguais e medidas estruturantes necessi­tam ser implementadas. Não devia ser difícil perceber que a abolição da escravidão exigia, já àquela época, condições de sobrevivência do negro num mundo in­teiramente preparado e pensado somente para brancos. Como ser livre sem condições de sobrevivência?

Naquele cenário, a liberdade concedida em 13 de maio de 1888, foi mais uma alforria aos brancos proprietários do que propriamente aos negros escravos. Tente imaginar o negro “livre” sem casa para morar, sem trabalho e sem terras para cultivar! É claro que ele continuou subjugado, escravizado e com o sentimento de inferioridade posto a toda prova, pois, apesar da “liberdade”, tinha que mendi­gar pela sobrevivência e se submeter às regras e vontade definida e impostas pela sociedade branca.

Essa luta diária, que persiste até os dias atuais, não é tão longínqua assim, pois são apenas 130 anos desde o célebre 13 de maio a 20 de novembro de 2018. Esse interstício de tempo para a história não significa quase nada. Assim, sem ser percebido pelos (ím)pares, os ne­gros até hoje sofrem todo tipo de preconceito e desres­peito enquanto sujeitos de direito.

A invisibilidade do negro só é quebrada ao se de­parar com a famigerada atitude ou sujeito suspeito. De 19 de novembro de 2009 a 25 de setembro de 2018, fiz parte da percentagem de “2,2 por cento dos professores da USP que se autodeclararam pretos ou pardos”. Aliás, no quadro de professores do Curso de Direito da USP, Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, eu era o único professor negro.

Como resido em Brasília desde janeiro de 2008, viajava todo final de semana da Capital Federal para Ribeirão Preto e vice e versa. No aeroporto Leite Lopes, principalmente, inúmeras vezes eu era parado para a tal revista pormenorizada. A justificativa era de que a cada 20 (vinte) passageiros, o vigésimo é escolhido para se submeter à referida revista. Acontece que eu sempre, coincidentemente, era o vigésimo. Já percebia pela mo­vimentação dos funcionários responsável pelo “raio-x” que seria o vigésimo. Aliás, quem é negro, percebe um preconceito no olhar, no toque e, principalmente, na insensibilidade alheia. A dor é “qualificada” ao perce­bermos essas (não) atitudes nas pessoas mais próximas.

Quando ousava questionar o porquê de novamente ser revistado, ouvia de pronto: “se o senhor preferir chamaremos a polícia federal”. A situação chegou a tal ponto que ao me aproximar já dizia aos funcionários: – boa tarde, muito prazer, eu sou o vigésimo.

Convivi com essa situação por 9 anos e tudo passou despercebido por todos, menos por mim. Observei, inclusive, que a LOGO da FDRP/USP, contém como marca um ramo de café e outro de cana, dois símbolos representativos do Poder e da existência da escravidão.

Faço esse relato para demonstrar o quanto é difícil ser negro no Brasil. “Vida de nego é difícil”, já dizia o cantor. Escrevo não no dia 20, mas, no dia 21 de novembro para homenagear o dia da “consciência branca”, cuja data é comemorada na cidade de Sertãozinho, distante 22 km de Ribeirão Preto.

A Câmara de Vereadores daquela cidade entendeu que por questão de igualdade deveria existir, também, uma homenagem à consciência branca. A justificativa do Presidente da Câmara Municipal foi de que “se tem o dia dos negros também deveria existir dos brancos, porque existe preconceito contra branco também” e, assim, não teve dúvida:

Fica a torcida para que a “consciência branca” tenha consciência, todos os dias e instantes, de que a “cons­ciência negra” só quer dignidade, cidadania, apesar do Chefe do Executivo Federal ter afirmado que os bran­cos não devem nada aos negros. Por fim, repito o alerta: “só ter piedade de nós não vale a pena”.

Referências:
1) PEREIRA FILHO, Benedito Cerezzo. Há consciência branca? Publicado no Jornal do Brasil. Acesso: https://www.jb.com.br/ index.php?id=/acervo/materia.php&cd_matia=54568&dinami­co=1&preview=1Texto
2) htpps://jornal.usp.br/universidade de São Paulo
3) http://g1.globo.com/sp/ribeiraopreto-franca/notícia/2014/ camara-decreta-ponto-facultativo-pela-consciencia-branca-em sertaozinho.html