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Artigo: “Primavera à Brasileira (com b grande)”, por Gustavo Perez Pereira Andrade

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Gustavo Perez Pereira Andrade

O Brasil já foi colônia, monarquia, república oligárquica, também uma ditadura por 21 anos. Após este inverno chegou-se a Nova República, e com ela vieram os ventos mais liberais, no sentido dos costumes, das liberdades individuais e democráticas.  Era a Primavera à brasileira celebrada pela Constituinte com o discurso de Ulisses Guimarães, e, no cenário cultural, uma explosão de bandas de rock dava voz a uma geração.

No crepúsculo de 1989, em que todos inebriados pela democracia e seu direito à livre opinião acreditavam que bastavam uma constituição e o direito de eleger o mandatário da nação que o futuro do país estaria resolvido. Miravam o sol da liberdade cujos raios pareciam enfim chegar pelas frestas da janela da jovem democracia, mas tudo seria eclipsado após a vitória de candidato, que apesar de jovem, representava o atraso e a continuação da velha ordem. O legítimo representante das oligarquias, o paladino da moralidade, o caçador de marajás não terminaria o mandato.

Alguns anos depois o país elegeria FHC inaugurando o instituto da reeleição, pela primeira vez em toda história republicana brasileira. O presidente teria direito a se reeleger para um mandato subsequente, era a perpetuação da classe política no país. Após oito anos de tucanato, seria a vez de a oposição governar e viria a era PT com Dilma e Lula até a ascensão do presidente figurativo Temer.

Após breve período de estabilidade finalizados na era Temer, chegava a vez de Bolsonaro ao poder, e a moda de agora é dizer que o país está polarizado, apontando este último chefe nacional como legitimo representante da extrema direita, o salvador dos valores conservadores, o defensor da família, porém o adepto da mais profunda agenda econômica liberal. Assim até os parques nacionais perderam a função social do lazer e ecologia precisando render algum dólar ao erário público, é o capitalismo puro na veia, é água a preço de mercado.

O país tornou-se palco das discussões sobre a covid-19, as queimadas, a Venezuela, o Trump. A sexualidade que na primavera dos anos 80 era algo do indivíduo, da sua própria identidade, passou a ser matéria do estado e do famigerado ministério da família, e o comunismo virou o inimigo nacional mesmo a União Soviética tendo acabado em 1991.

Nesta estiagem de ideias podemos dizer que a primavera e os bons ventos das liberdades individuais trazidas pela Nova República, assim como ela chegaram ao fim. O debate nacional conduzido pelas grandes corporações midiáticas pautou a corrupção como o mal da nação equiparando-a ao câncer que contaminou a principal agremiação de esquerda do país; tal debate superficial ignorou ou omitiu a nossa herança colonial, escravocrata e o legado da imensa desigualdade que sempre dividiu o país, polarizando-o entre ricos e pobres, Casa –grande e Senzala.

A nação está no seu inverno, nesta estação fria e seca até os problemas sociais do país se resumem a caso de polícia; se não há moradias e quem as ocupa por não poder pagar o aluguel, é despejado pelo Estado que garante o direito à propriedade privada que eventualmente pode ser de alguns sonegadores de impostos. A falta de emprego já não é mais uma dificuldade da economia, está resumida a uma questão moral; afinal é o indivíduo que é preguiçoso ou vagabundo. Nesta estação fria, tudo é reduzido a questões morais sem fundamento social ou econômico. O debate profícuo precisa florescer, e o país precisa chegar a uma nova estação, a uma Primavera à Brasileira com b grande.

Gustavo Perez Pereira Andrade, professor da Rede Estadual de Educação, Cientista Político graduado pela UNESP de Marília, ativista do Instituto UNCORA – (Unidos Contra o Racismo) e membro do PT.


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