Auschwitz não pode ser esquecido: questões para pensar o Brasil hoje, por Alonso Bezerra de Carvalho

                       No último dia 27 de janeiro foi comemorado os 75 anos de libertação pelas tropas soviéticas dos últimos prisioneiros do campo de concentração nazista em Auschwitz, na Polônia. Não pela data em si, mas sobretudo pelas atrocidades ali cometidas é que se faz necessário sempre recordar daqueles fatos que até hoje enojam a humanidade.

            Quando os nazistas chegaram ao poder na Alemanha, em 1933, a perseguição aos judeus passou a ser prática mais cotidiana. A proposta era erradicar a população judaica na Europa, confiscando suas propriedades, direitos e liberdades. Mais de seis milhões de pessoas, entre eles os judeus, foram exterminadas no Holocausto e o campo de concentração de Auschwitz está no centro desse genocídio. As vítimas – homens, mulheres, jovens e crianças – eram levadas aos campos de concentração e ali eram mantidas em situação deplorável, trabalhando até a morte, sendo que muitas delas nas câmaras de gás.

            No entanto, o mais preocupante, macabro e sanguinário não é apenas o que aconteceu lá atrás, mas, sim, o que temos visto ainda atualmente. Sem se corarem e nem se ocultarem, há grupos neonazistas que estão se manifestando de maneira bastante crescente, inclusive no sentido de negar a história bem como em exaltar as ideias e as práticas cruéis e deploráveis de Adolf Hitler.

            É inadmissível que depois de muitas conquistas e avanços no campo dos valores humanitários, éticos e espirituais, ainda existam indivíduos e grupos que defendem e acreditam no que há de mais nojento e deplorável no mundo. Como em uma sociedade e em um mundo onde se prega e anuncia o bem, o que se vê são atitudes más? Por que o mal ainda vige apesar de nossos discursos a favor do bem?

Em um livro intitulado O mal-estar na civilização, escrito em 1929, Freud expõe como ideia principal a discussão sobre a repressão que se instaura na sociedade. Com o objetivo de inibir os desejos humanos, esse policiamento cumpre o papel de fazer com que a sociedade se mantenha, não se destrua e o caráter selvagem que nos constitui seja controlado e domesticado. Ou melhor, que saiamos da barbárie em direção à civilização. Em termos freudianos, do instinto de morte ao instinto de vida. E seria pela instauração do amor que podemos construir o caminho para uma suposta felicidade. No entanto, o que vemos é que essa busca do amor tem levado mais à dor e ao sofrimento. A civilização, privando o homem de seus desejos, os torna insatisfeitos, e a agressividade que se pretendia dominar, volta com toda força e eficácia e muito mais violenta. O custo é muito caro.

A presença do mal parece ser uma questão que não pode esquecida. A pensadora Hannah Arendt, olhando para os totalitarismos registrados na história humana, sobretudo o nazismo alemão, chega a dizer que o mal se banalizou. O mal se banaliza porque o desejo de dominação parece intrínseco ao homem, produzindo uma anestesia em todos nós que continuamos com nossas vidinhas como se as aberrações não nos atingissem em cheio.

Portanto, o caráter otimista que se vislumbra quando falamos de civilização precisa ser repensado. Ao caráter róseo-esperançoso de nossos discursos e práticas cabem algumas críticas e autocríticas. Pois, muitas vezes, a busca de se construir um mundo fraterno, mais amoroso, pode estar carregada de preconceitos e juízos que mais desejam excluir e eliminar. Os nazistas se amavam entre si, e odiavam aqueles que não eram do grupo.  O discurso permanente de ódio do atual governo brasileiro é bem representativo desse processo.

Veja a situação que nos encontramos. Quase todos os grandes crimes da história não foram cometidos pelo egoísmo, mas por amor: por amor pela própria família, pelos próprios filhos, a própria nação, a própria religião, por Deus, etc. Milhares de pessoas já foram assassinadas em virtudes de tais amores. A razão é apenas uma: quando amo uma certa pessoa, um grupo, a tendência é se formar uma união e com isso se cria a diferença ou a indiferença com o externo, com o estranho. Humanos que somos nos tornamos desumanos.

Diante disso, a reflexão que cabe fazer não é apenas ficar falando do bem, da vida eterna, de um mundo encantado, mas reconhecer que o mal está presente em nossas vidas e em nossas atitudes mais do que imaginamos. Reconhecer que a barbárie e a civilização são dois lados da mesma moeda, e que uma pode estar acoplada na outra, nos parece ser a melhor atitude. Cabe a nós não ser desiludidos, mas também não ser demasiadamente iludidos: o mal está ainda entre nós.

Alonso Bezerra de Carvalho é formado em Filosofia e Ciências Sociais. Doutor em Educação pela USP, Professor Livre-docente pela UNESP. Docente do Departamento de Educação da Unesp/Assis e do Programa de Pós-graduação da Unesp/Marília. E-mail: alonso.carvalho@unesp.br

 

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