“Brasil escolheu a cultura de morte, não da paz”, por Ro­berto Mal­vezzi  

Roberto Malvezzi (Gogó)

A ne­cro­filia faz parte de nossa his­tória: o mas­sacre de 10 mi­lhões de in­dí­genas, mi­lhões de ne­gros, de po­bres em Ca­nudos, Cal­deirão, Con­tes­tado, Pau-de-Co­lher, os co­ro­néis do sertão, chegam hoje às gan­gues e mi­lí­cias das pe­ri­fe­rias ur­banas bra­si­leiras. Matar é cons­ti­tu­tivo de nossa his­tória.

Porém, há no­vi­dade. A li­be­ração de armas iria ine­vi­ta­vel­mente in­cre­mentar a vi­o­lência na classe média, à se­me­lhança do que acon­tece nos Es­tados Unidos. É li­te­ral­mente uma cul­tura de morte. Eu mesmo fiz um texto sobre esse tema.

Não é car­to­mancia, é a ló­gica. Os únicos com poder de com­prar armas são a classe média e os ricos. Por­tanto, a ten­dência é que cha­cinas au­mentem em shop­pings, es­colas, ci­nemas, te­a­tros, praças pú­blicas, enfim, nos es­paços ocu­pados por esses se­tores da so­ci­e­dade. Acon­teceu na Ca­te­dral de Cam­pinas, agora numa es­cola de Su­zano.

Os países mais pa­cí­ficos do mundo são os que detêm os me­lhores ín­dices de edu­cação, saúde e dis­tri­buição de renda, enfim, os mais ci­vi­li­zados.

Onde im­pera a in­jus­tiça, reina a vi­o­lência. Os fuzis estão muito mais nos con­do­mí­nios que nas fa­velas. Ter armas po­de­rosas e deter o poder de matar é pri­vi­légio de al­guns.

A cul­tura de morte se es­pa­lhou na po­lí­tica, nas igrejas, em vá­rios se­tores da so­ci­e­dade, em nome da se­gu­rança e até de Deus.

Em con­tra­po­sição, há se­tores da so­ci­e­dade que de­fendem a cons­trução de uma cul­tura da paz. Se há uma cul­tura de morte, é pos­sível cons­truir uma cul­tura da paz.

O me­lhor tra­balho de cul­tura da paz que co­nheci nesses longos anos de vi­a­jante acon­teceu na di­o­cese de Flo­resta, Per­nam­buco. Ali, uma das re­giões mais vi­o­lentas do Brasil, em poucos anos, um tra­balho com cerca de oito mu­ni­cí­pios, atin­gindo mais de 6000 pro­fes­sores e mais de 100 mil alunos, re­duziu os ín­dices de vi­o­lência em toda a re­gião.

O tra­balho or­ga­ni­zado pela Di­o­cese de Flo­resta e Se­cre­ta­rias de Edu­cação Mu­ni­ci­pais, es­tu­dava as te­má­ticas com os pro­fes­sores, que de­pois ela­bo­ravam ma­te­riais di­dá­ticos que eram re­es­tu­dados trans­ver­sal­mente com os alunos du­rante o ano le­tivo. Hoje esse tra­balho está sendo re­pli­cado na Pre­lazia de São Félix do Ara­guaia e re­to­mado na di­o­cese de Flo­resta.

Cons­truir a paz é di­fícil, exige que cada um de nós seja a mu­dança que propõe aos ou­tros, exige jus­tiça so­cial e res­peito pela vida hu­mana e todas as ou­tras formas de vida. Uma so­ci­e­dade ar­mada será re­pres­siva, po­li­ci­a­lesca, mi­li­ta­ri­zada, mas não pa­cí­fica.

Há ca­mi­nhos pos­si­bi­li­dades reais para uma cul­tura de paz, mas o Brasil, a partir de seu pre­si­dente, pre­feriu a cul­tura de morte. É ine­vi­tável, quem se­meia vento, colhe tem­pes­tade.

Ro­berto Mal­vezzi é agente pas­toral na re­gião do Se­miá­rido.

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