Coronavírus: como a ultradireita na Itália se rendeu à China comunista

Apesar da União Europeia, nem mesmo os vizinhos de continente ofereceram ajuda à Itália comparável à da China

Médicos chineses desembarcam na Itália: “Somos onda do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim”

Uma equipe de especialistas com médicos chineses e italianos está no norte da Itália, região particularmente afetada pela epidemia de coronavírus. Eles estão avaliando a situação no local e dando aconselhamento específico. Embora a extrema-direita governe a Itália, o apoio de um país liderado pelo Partido Comunista foi aceito de primeira hora.

“Os especialistas chineses conseguiram angariar muita experiência e isso é o que a Itália precisa urgentemente”, diz Marcello de Angelis, porta-voz da Cruz Vermelha Italiana. “A China alcançou um sucesso considerável no combate à epidemia até agora. Portanto, queremos cooperar com os especialistas chineses em nível internacional.”

Não é de hoje que existe uma estreita cooperação entre as seções da Cruz Vermelha na Itália e na China, acrescentou Angelis. Numa crise tão grande, o parceiro é solicitado a aconselhar e ajudar. A primeira equipe de nove pessoas da China desembarcou em Roma na quinta-feira da semana passada (13/3). Também a bordo estavam 31 toneladas de equipamentos urgentemente necessários, incluindo respiradores, roupas e máscaras de proteção e medicamentos.

Os produtos foram doados em parte pelo governo chinês e em parte por empresas privadas. Uma segunda aeronave com pessoal e equipamento desembarcou em Milão na quarta-feira (18). A Itália não está sozinha. “Ainda há pessoas que gostariam de ajudar a Itália”, disse o ministro italiano das Relações Exteriores, Luigi Di Maio.

Novas remessas de ajuda com equipamentos médicos da China já chegaram à Espanha. Outras também são esperadas na França. No auge da epidemia na China, vários países da União Europeia (UE) forneceram 56 toneladas de equipamentos de primeira necessidade para o Império do Meio.

Thorsten Benner, diretor do Instituto de Política Pública Global (GPPI) em Berlim, enfatiza o aspecto positivo de a China estar fornecendo ajuda humanitária à Itália numa situação de emergência. “A China superou o pior. Agora, há muita capacidade livre disponível para o resto do mundo.”

Conforme o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, o chefe de Estado da China, Xi Jinping, disse em conversa telefônica com o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, que os dois países são os “pilares de uma Nova Rota da Seda para a saúde.” Benner, do GPPI, afirmou considerar normal que a China também busque seus objetivos geopolíticos quando se trata de fornecer ajuda. Ele disse estar antes preocupado com o fato de os europeus não terem demonstrado solidariedade na atual crise.

O ministro italiano do Exterior, Di Maio, também se queixou disso na semana passada, afirmando que os vizinhos europeus não teriam oferecido ajuda comparável à da China. Roma “clamou por ajuda no caso de respiradores e máscaras”, mas sem sucesso, criticou o ministro.

Jornais italianos relatam até que o fornecimento de suprimentos médicos foi impedido na Alemanha. Uma entrega de 830 mil máscaras cirúrgicas – que uma empresa italiana havia encomendado à China – teria sido bloqueada na Alemanha na semana passada, embora a proibição de exportação de dispositivos médicos para combater a epidemia, imposta por Berlim em 4 de março, não se aplique a mercadorias em trânsito.

Após negociações em nível diplomático, o fornecimento foi liberado, mas não pôde ser mais encontrado ‒ na Alemanha, conforme informou o jornal regional Il Giorno. De acordo com o Corriere della Sera, mais de 190 milhões de máscaras de proteção foram bloqueadas por países vizinhos da Itália nas últimas semanas.

O cientista político berlinense Thorsten Benner disse ver prejudicada a credibilidade e a reputação da UE e da Alemanha: “A UE não conseguiu ajudar efetivamente a Itália, que hoje é o país mais afetado. Em parte porque mesmos estamos mal preparados, mas a impressão que ficou entre os italianos é fatal. Muitos na Alemanha falam de uma comunidade europeia com um destino comum. Mas, quando o destino bate à porta, parece que não estamos ajudando nossos parceiros da UE.”

Enquanto isso, a proibição alemã de exportação de produtos medicinais para o combate à pandemia de Covid-19 foi relaxada para vizinhos da UE, como a Itália, e ajudas emergenciais também estão sendo enviadas de Berlim para Roma. “Essa decisão chegou tarde demais. A impressão na Itália agora é extremamente negativa”, avaliou Benner.

Em conversa com a DW, Benner mencionou o acesso de raiva do presidente sérvio, Aleksandar Vučić, que nesta semana condenou a solidariedade europeia como um “conto de fadas somente no papel”. Segundo Vučić, a Sérvia não recebeu nenhum material médico da UE para combater a epidemia e, assim, pediu ajuda chinesa.

A China entrega e também faz propaganda. A agência de notícias estatal Xinhua escreveu: “Se os apertos de mão não são mais válidos na Europa, a mão amiga da China pode fazer a diferença”.

Benner lembrou o pedido feito pelo ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha Sigmar Gabriel, em 2017, de que a China respeitasse a “política de uma Europa única”. Na época, Gabriel alertou Pequim para não prejudicar a solidariedade europeia. Segundo o cientista político Benner, o problema não está na tentativa de divisão pela China: “Países como a Alemanha devem finalmente investir mais em ‘One Europe’.”

Com informações da Deutsche Welle

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