Crônica de domingo : Vale a Pena ler de novo, por Paloma Amado


Centenário de Caymmi, crônica I

Foi no ano 76, eu ainda morava no Rio. Fizemos uma viagem em família muito linda pelo Norte do País, acrescentando aí o Piauí e o Maranhão. Meus pais nos convidou e fomos eu, meu marido e Mariana (Cecília era bebezinha, ficou com a outra avó), João, sua mulher, Bruno e Maria João.
Foi quando conhecemos, no Pará, a família Steiner, fazendeiros em Marajó e criadores de cães da raça Pug. Papai, em 1970, importou da Inglaterra um casal desta raça: Mister Picwick, conhecido por Picuco, e Capitu. Como, ao contrário de agora, a raça era quase desconhecida no Brasil, Ruth Steiner nos ligou de Belém e levou Princesa, a Popota, à Bahia para cruzar com Picuco. Amizade de cachorreiros (e gateiros também!) dura para sempre, assim que fomos seus hóspedes em Belém e na Ilha de Marajó, onde vi a rara imagem de papai a cavalo no meio de uma manada de búfalos. Em Belém fomos, nós mulheres, com Ilka e Sandra, num antiquário que vendia pecinhas de coral baratíssimas. Ficamos encantadas, mas, naquela época, meu dinheiro era bem curto e eu saí de lá apenas com uma conta que ganhei do antiquário, que guardei em minha carteira para dar sorte.

E Caymmi nessa história toda? Não, ele não foi conosco na aventura amazônica, que incluiu navegação de cinco dias no navio gaiola Lobo da Almada rio acima em direcção a. Manaus, com direito a revoadas de araras, o povo dormindo em redes e dança de carimbó no tombadilho. Linda viagem que um dia ganhará crônica só para ela. Hoje entra como coadjuvante de um momento muito especial que tive com meu amigo e tio Dorival. Tio de direito, pois não há dúvidas da irmandade entre ele e meu pai.
1977, um ano se passara da viagem. Papai e mamãe estavam no Rio, onde eram meus vizinhos na rua Rodolfo Dantas. Cheguei para vê-los de manhã e lá estava Caymmi tomando café com cuscuz de milho, feito por mamãe. Maior alegria, muitos abraços e beijinhos, e o pedido de sempre:
— Trouxe uma prenda para o seu tio, Papá?
Caymmi era divertidíssimo. Andava sempre com uma malinha 007, onde guardava as mais diversas coisas. Adorava ganhar presentes, e os pedia com gosto.
— Comadre Zélia, não tem nenhum mimo para mim hoje?
Naquele dia, ao ouvir o pedido, lembrei da conta de coral de Belém do Pará. Há um ano vivia na minha carteira, estava na hora de mudar de endereço.
— Tenho sim, Dodô. Vou em casa rapidinho buscar.
Quando voltei, entreguei a conta com um breve discurso, entre risos.
— Senhor Dorival Caymmi, fiz longa viagem à Amazônia em busca de um regalito para meu tio querido. É pequenino, mas de grande valor, pois traz uma sorte danada…
Entreguei a conta e vi Caymmi ficar lívido, espantado, o riso se virou em seriedade. Mamãe se preocupou.
— O que foi, compadre?
Ele não disse nada, foi buscar sua maletinha, abriu e tirou uma pulseira de contas de coral. Pegou a conta e a colocou no lugar onde faltava uma (apenas uma!), exatamente daquele tamanho.
— Ganhei ontem de … (não lembro quem foi o presenteador). Faltava essa conta que você me trouxe. Como soube? Agora está completo. Dá cá um beijo.
Emoção total, olhos cheios d’água, um espanto, uma magia que tomou conta da sala. Pituco, nosso pássaro sofrê que vivia solto, cantou e veio pousar na cabeça de seu colega cantor. Deus benza, Oxalá proteja.

Bom domingo a todos

 25/02/18

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