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De Olho no Mundo, por Ana Prestes

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A cientista política Ana Prestes analisa os principais fatos da conjuntura internacional com destaque para os Estados Unidos onde a pandemia do coronavírus segue em expansão e os protestos antirracistas continuam, agora de outras formas, enquanto Trump retomou sua campanha eleitoral. O Brasil é destaque também em função da Covi-19. Um artigo do Vladimir Putin sobre a Segunda Guerra Mundial também está entre os destaques.

Comício de Trump teve público muito aquém do esperado

Modelos matemáticos apontam que até o dia 29 de julho o Brasil pode passar os EUA em número de mortes por Covid-19. Desde o primeiro óbito, em 17 de março, o Brasil já superou as 50 mil mortes e mais de 1 milhão de casos. Nos EUA o número de mortes está em quase 120 mil, sendo que os estados mais críticos são Florida, Texas e Arizona. A Califórnia que estava controlada voltou a ter aumento crítico no número de infectados no final de semana. Especialistas já descartam que os EUA terão várias ondas de contágio, mas sim uma grande onda que perdurará por meses com focos mais críticos de tempos em tempos. Um deles é Michael Osterholm, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (Meio).

Enquanto isso, Trump fala em parar com os testes, pois quanto mais se testa, mais casos são encontrados (sic). Ele disse isso em um comício da sua pré-campanha presidencial em Tulsa, estado de Oklahoma. Antes do comício, a direção de sua campanha havia comemorado o fato de mais de um milhão de pessoas terem se inscrito para assistir sua apresentação ao vivo e uma enorme estrutura com telões foi montada do lado de fora do ginásio. Mas qual não foi a surpresa quando o espaço fechado para 19 mil pessoas não alcançou nem um terço da ocupação. Deixando enormes bolsões de cadeiras vazias à vista de todos. Adolescentes e jovens oposicionistas a Trump organizaram um movimento pela rede TikTok de inscrição para o evento. Obviamente não compareceram presencialmente, o que deu o efeito de “bombar nas inscrições” e “esvaziar o evento”. Pelas imagens do evento, nem Trump e nem as pessoas que compareceram usavam máscaras ou perseveram distância de segurança para evitar o contágio pelo coronavírus.

Trump citou o Brasil durante seu discurso em Tulsa. Em um discurso contraditório, o presidente dos EUA disse: “o que há de errado em ter de fechar (a economia)? Nós salvamos milhões de vidas. Sabe, muitas pessoas dizem que nós deveríamos ter adotado a imunidade de rebanho: ‘vamos adotar a imunidade de rebanho’. Perguntem como estão no Brasil. Ele (Bolsonaro) é um grande amigo meu. Não está bom. Perguntem como estão na Suécia. Nós salvamos milhões de vidas e agora é hora de abrir a economia, voltar a trabalhar, ok? Vamos voltar a trabalhar.”

Também nos EUA, seguem os protestos antirracistas e o movimento de derrubada de estátuas. Uma delas não precisou ser derrubada, a estátua de Theodore Roosevelt que está na porta do Museu Americano de História Natural em Nova Iorque será retirada pela direção do museu. O anúncio foi feito ontem (21). Trata-se de uma estátua em bronze em que Roosevelt, que foi o 26º. presidente dos EUA, no começo do século passado, entre 1901 e 1909, aparece ladeado por um indígena e um escravo negro que estão seminus e carregam seus rifles. A decisão obteve reações contrárias. O prefeito de Nova Iorque Bill de Blasio disse que a estátua “expressa explicitamente como negros e indígenas foram subjugados como se pertencessem a raças inferiores”. Já Trump tuitou: “Ridículo, não façam isso!”.

Na Rússia, começaram neste final de semana os festejos pelos 75 anos da vitória na Grande Guerra Patriótica contra os nazistas. Um artigo assinado por Putin circulou e teve bastante repercussão no mundo ocidental. Entre outras coisas, ele diz no texto que “é essencial transmitir às gerações futuras a lembrança de que a vitória sobre os nazistas foi alcançada em primeiro lugar pelo povo soviético, de que foram os representantes de todas as repúblicas da União Soviética que lutaram juntos neste combate heroico, tanto na linha de frente quanto na retaguarda”. No texto ele também argumenta sobre os efeitos do Tratado de Versalhes para criar um clima de revanchismo na Alemanha no pós-primeira guerra mundial, além de outros pontos sensíveis na narrativa sobre a Segunda Guerra Mundial. O auge das festividades deve ser o desfile militar a ser realizado em 24 de junho. A data também é simbólica pois em 24 de junho de 1945 foi realizada a primeira parada militar em comemoração à vitória. Leia aqui o texto completo de Putin.

Um estudo anunciado pelo Banco Mundial, aponta que apesar de a pandemia do novo coronavírus provocar a maior crise econômica global desde 1870, alguns países conseguirão crescer este ano de 2020. Um desses países está aqui na América do Sul e é a Guiana. Devido à recente descoberta de petróleo, antes da pandemia, estava previsto um crescimento da economia da Guiana para mais de 80% esse ano. Desde 2015 a empresa Exxon vem fazendo descobertas de petróleo na Guiana e o volume total está estimado em mais de 5 bilhões de barris em reservas petrolíferas. Outros países que devem crescer este ano são China, Laos, Mianmar, Vietnã, Uzbequistão, Bangladesh, Butão e Nepal na Ásia. Djibuti e Egito, no norte da África. Benin, Burkina Faso, Burundi, Rep. Centro-Africana, Costa do Marfim, Etiópia, Gâmbia, Gana, Guiné, Quênia, Malauí, Mali, Moçambique, Níger, Ruanda, Senegal, Tanzânia, Togo e Uganda na África Subsaariana. São em sua maioria países menos dependentes do turismo, com centro econômico voltado para a agricultura, setor de serviços menor, baixa dependência de cadeias econômicas globais e até agora menos atingidos pela pandemia.

E o Brasil votou a favor de Israel e contra a Palestina na ONU. A votação foi na última sexta (19) e tratava-se de uma resolução que reconhece o direito internacional em territórios ocupados da Palestina e repudia o uso de força letal e outras forças excessivas contra civis nas áreas ocupadas por Israel. O texto da resolução reconhece o papel do Tribunal Penal Internacional (TPI) e defende que os responsáveis por crimes contra o território e o povo da Palestina devem ser levados à Justiça. Todos os países da América do Sul com assento no CDH (Conselho de Direitos Humanos da ONU), inclusive o Chile, votaram pela aprovação. O Brasil ficou entre 8 países que votaram contra, mas os 22 votos a favor garantiram a aprovação.

Já falei aqui em outra ocasião sobre o ouro venezuelano que se encontra em poder do Banco da Inglaterra e que vem gerando uma disputa legal com o Banco Central da Venezuela. São trinta e uma toneladas de ouro. O governo venezuelano solicita soberania sobre os valores, mas vem recebendo negativas do banco inglês. O Reino Unido reconhece Juan Guaidó e não Nicolás Maduro como presidente legítimo da Venezuela. O caso foi parar na justiça britânica e um Tribunal em Londres vai julgar a partir de hoje (22) quem é a autoridade venezuelana legítima para movimentar o ouro. Segundo a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, “esse ouro é todo do povo venezuelano, é do país, e o BCV exige que esses recursos sejam utilizados através do PNUD da ONU para atender à pandemia na Venezuela” (G1). Bancos centrais de mais de 30 países armazenam ouro na Inglaterra. A mesma situação se dá com relação a valores venezuelanos que se encontram no Banco Alemão, Deutsche Bank.

O Paraguai possui a menor taxa de mortes por coronavírus por milhão de habitantes da América do Sul. Enquanto no Brasil morrem 210 pessoas por milhão, no Paraguai morrem 2 pessoas por milhão de habitantes. A resposta do Paraguai à pandemia foi uma as mais rápidas no continente, ainda no começo de fevereiro, quando poucos países tratavam do tema. Mesmo antes da OMS declarar o surto como pandemia, o país vizinho do Brasil já havia suspendido aulas, impossibilitado eventos com aglomeração e circulação pelas ruas no período noturno. Além de ter banido chegada de qualquer pessoa da China ou que tivesse estado na China antes da viagem para o Paraguai. Na sequência, foi decretada quarentena total. Uma das mais rígidas do continente. A posição geográfica e a baixa conexão aérea com grandes metrópoles também ajudaram o Paraguai, assim como o espraiamento de sua população de 7 milhões de habitantes em um grande território, majoritariamente em casas e com poucos edifícios altos. No total, o Paraguai teve 1379 casos de infectados pelo coronavírus e 13 mortes por Covid-19.

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