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De Olho no Mundo, por Ana Prestes

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A expansão da Covid-19 no Brasil, os protestos antirracistas no EUA e seus impactos na popularidade de Trump, os esforços internacionais para desenvolver a vacina contra o coronavírus e a reação da China à interferência de outros países em Hong Kong estão entre os temas analisados pela cientista política Ana Prestes.

Representantes de 50 países participaram da Cúpula Global de Vacinas (Global Vaccine Summit ) para instituir um fundo de para aplicar em vacinas.

Brasil já é o terceiro país do mundo em mortes por Covid19. A “gripezinha”, assim denominada pelo presidente Bolsonaro, já mata uma pessoa por minuto no Brasil. Mais de 34 mil pessoas perderam sua vida para o vírus. Pode passar o Reino Unido que possui perto de 40 mil mortes e se nada for feito para mudar o curso da doença no Brasil, podemos passar os EUA que teve 107 mil vidas perdidas até agora na pandemia.

A noite de ontem (4) foi a 10ª. de protestos antirracistas nos EUA. Ao longo desse período, mais de 9 mil pessoas já foram presas. Nos últimos dias houve um relativo arrefecimento das medidas repressivas policiais. Apesar de uma maior militarização de Washington e vários episódios com registros em imagens e vídeo de policiais agredindo violentamente manifestantes e mesmo transeuntes, como a agressão divulgada ontem de um senhor de idade em Nova Iorque. Parte da calmaria pode ser explicada por uma pesquisa da Reuters/Ipsos que aferiu que 64% dos norte-americanos têm simpatia pelos protestos, contra 27% que diz não concordar e 9% que não opinam. A mesma pesquisa mostra que 55% dos norte-americanos reprova a condução de Trump ao lidar com os protestos, sendo que 40% reprovam “fortemente” e um terço apoia as medidas do presidente. Cenas de policiais abraçando manifestantes ou tentando resolver “na conversa” circulam pelas redes. Não raro, no entanto, há outras tantas imagens de abuso da força contra as e os ativistas. Pela primeira vez o ex-presidente Obama se pronunciou sobre a onda de manifestações. Em suas palavras, “para aqueles que falam sobre protestos, apenas lembrem que este país foi fundado por um protesto – nós o chamamos Revolução Americana”. Prosseguiu dizendo que todas as conquistas dos americanos são provenientes do esforço de tornar “desconfortável o status quo”. A liderança de Obama é controversa e divide opiniões no movimento negro organizado dos EUA, mas o fato de ter sido o único presidente negro dos EUA faz com que suas palavras tenham muito eco neste momento. E a promotoria de Minnesota ampliou a acusação contra o ex-policial Derek Chauvin que asfixiou George Floyd. Foi acrescida a acusação de homicídio doloso. O agente policial pode pegar até 40 anos de prisão. Os três policiais que o acompanhavam também foram formalmente acusados de incentivarem e serem cúmplices da violência de Derek.

E começou ontem (4) o funeral de George Floyd, o homem negro assassinado por um policial (agora ex-policial) na cidade de Minneapolis, nos EUA no passado mês de maio e que desencadeou uma onda de protestos que entra hoje em 11º. dia. Centenas de pessoas estiveram ontem em uma capela em Minneapolis onde o reverendo Al Sharpton iniciou as homenagens que devem durar dias. Em um dos trechos da pregação de Sharpton ele diz: “porque há 401 anos nós não podemos ser quem desejamos e sonhamos é que vocês mantém seu joelho em nosso pescoço”.

E aconteceu ontem (4) a Global Vaccine Summit (Cúpula Global de Vacinas). Foi organizada pelo governo do Reino Unido e reuniu representantes de 50 países. Chefes de Estado de pelo menos 35 destes países participaram pessoalmente da videoconferência e o evento arrecadou 7,4 bilhões de dólares que serão destinados a um fundo para aplicação de vacinas em todo o mundo. Não se trata apenas de uma eventual vacina descoberta para o coronavírus, mas de vacinas básicas contra poliomielite, difteria e sarampo, por exemplo, que estão prejudicadas devido à pandemia. Um dos participantes da reunião, o primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, aproveitou o evento para dizer que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Japão em 2021 serão a prova de que o mundo venceu a Covid-19. A primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern disse que “este é o momento de encontrarmos uma solução global para a Covid-19”. O evento mostra que um esforço de cooperação mundial é capaz de encontrar soluções para vários problemas da humanidade. Por que será que esse esforço não é feito para combater a fome, a miséria, a situação dos refugiados de guerra ou das mudanças climáticas? Em um mercado tão competitivo e de altos interesses comerciais como o farmacêutico, há sempre muitas dúvidas sobre o real destino de tantos recursos arrecadados.

Em meio a toda esta mobilização em torno de vacinas para a Covid-19 e a garantia da aplicação de vacinas já existentes em tempos de pandemia, emergiu o protagonismo de Gavi – The Vaccine Alliance – fundada em 2000 pelo instituto de Bill Gates e sua esposa Melinda Gates, a Bill & Melinda Gates Foundation. A organização, que possui sede física em Genebra, na Suíça e é uma PPP – parceria pública privada. Circulam notícias nos últimos dias de que a Gavi está em uma forte ofensiva para ganhar espaço em territórios nacionais neste setor tão sensível e carente que é o da proteção à saúde, como se vê nesta pandemia. Nas palavras de Bill Gates, em recente entrevista, “existe uma plano para ter várias fábricas na Ásia, várias fábricas nas Américas, várias fábricas na Europa, e se pudermos fazer de 1 a 2 bilhões de doses por ano (vacina contra a Covid), o problema de alocação não será super agudo”. O criador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo não ia “investir em fábricas de vacina na África” simplesmente por altruísmo. A ver.

E está na coluna do Jamil Chade de ontem (4) e em vários veículos a notícia de que o Parlamento da Holanda aprovou na quarta (3) uma moção contra o acordo comercial negociado entre Mercosul e União Europeia. Um dos argumentos mais utilizados pelos parlamentares que rechaçaram o acordo foi a condução da política ambiental brasileira. Argumentos em geral contra o governo Bolsonaro estão ficando cada vez mais comuns na Europa. A deputada alemã Yasmin Fahimi, por exemplo, que preside o grupo parlamentar Alemanha – Brasil disse recentemente que “Bolsonaro representa um perigo para a democracia, para o Estado de Direito e para a existência permanente da floresta amazônica. Atualmente não vejo como é possível conciliar as políticas de Bolsonaro com as nossas exigências para o acordo UE-Mercosul nas áreas de desenvolvimento sustentável e direitos humanos”. Setores nacionais europeus que já eram contra o acordo por fatores protecionistas estão aproveitando o “ensejo” para barrar o acordo. São grupos que no fundo não estão preocupados com o desmatamento da Amazônia, mas se aproveitam dos absurdos do governo Bolsonaro para assegurarem o protecionismo. Na Bélgica também há muita resistência à ratificação do acordo e na Áustria o parlamento também aprovou moção de censura. Para que o acordo entre em vigor todos os parlamentos dos países signatários precisam ratificá-lo.

E não são só os países europeus que colocam o Brasil como um destino “inadequado” para negócios. Saiu esta semana, nos EUA, uma recomendação do Comitê de Assuntos Tributários da Câmara dos Deputados, para que o governo Trump não expanda seus laços econômicos com o Brasil por seu histórico recente de desrespeito aos direitos humanos e ao meio ambiente. Em carta ao representante comercial dos EUA, Robert Lightihizer, os parlamentares dizem que o governo Bolsonaro demonstra “total desconsideração pelos direitos humanos básicos”.

E os chineses reagiram a mais uma “interferência grosseira” como vem chamando a ofensiva dos EUA e do Reino Unido em relação à sua política para Hong Kong. Desta vez a ingerência veio por parte de Boris Johnson ao propor à população de Hong Kong que vá morar no Reino Unido. A proposta de Johnson é tão estapafúrdia que até mesmo os ativistas de Hong Kong a rejeitaram. Nas redes sociais, mesmo os críticos à nova legislação da China para a segurança nacional da ilha dizem que a proposta de Johnson é para que muitas pessoas saiam e Hong Kong quebre economicamente deixando vulnerável a população que restar.

Um anúncio do Secretário Geral da ONU, Antonio Guterres,  desta semana aponta que neste momento os refugiados enfrentam três crises de uma vez. A crise de saúde, com a exposição ao vírus em contextos de grandes aglomerações e seu acesso a cuidados básicos de saneamento e nutrição. A crise socioeconômica, especialmente para os que trabalham no setor informal. E a crise de proteção, com fortes restrições nas fronteiras e aumento da xenofobia, do racismo e da estigmatização. Some-se a isso uma quarta crise específica para mulheres e meninas, vítimas da violência de gênero, do abuso e da exploração.

E um relatório da Organização Mundial do Turismo do sistema ONU aponta que 100% de todos os destinos em todo o mundo seguem com algum tipo de restrição de viagem devido ao coronavírus. Desses, 75% ainda estão completamente fechados ao turismo internacional. Com isso, entre 100 e 120 milhões de empregos estão em risco.


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