DEFENSORA DA CULTURA: Leci Brandão sobre sua obra: ‘Instrumento de defesa dos menos favorecidos’

A sambista e deputada estadual paulista pelo PCdoB esteve no programa Entre Vistas, da TVT, em 19/6, apresentado por Juca Kfouri. Ela falou sobre sua carreira e seu engajamento em causas sociais

por Redação RBA

REPRODUÇÃO/TVT

‘Sou filha de servente de escola pública. Não podíamos pagar aluguel, então morei dentro de escolas’

São Paulo – “Leci Brandão, de 73 anos. Sambista, cantora, deputada estadual e defensora da cultura brasileira.” Assim o jornalista Juca Kfouri, do programa Entre Vistas, da TVT, apresentou sua convidada na edição de ontem (19). Ao lado da jornalista Simone Freire, do Brasil de Fato, e da multi-instrumentista Andressa Brandão, Leci falou sobre música, carreira e sua luta na defesa de movimentos culturais de matrizes africanas no Brasil.

Nascida no Rio de Janeiro, ela foi a primeira mulher a integrar a ala dos compositores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Mas foi em São Paulo que a fincou raízes. “Estou em São Paulo por determinação de Deus. O estado me abriu as portas nos anos de 1980 e o povo daqui começou a entender o meu trabalho”, disse a deputada pelo PCdoB.

No início da conversa, Juca deu liberdade para Leci escolher o tema inicial. “Pedi para falar de música porque sou neta, filha e afilhada de três mulheres mangueirenses. Fui para a Mangueira em 1971, quando fiz um estágio de um ano, compondo sambas de terreiro. Em 1972, desfilei pela primeira vez na ala dos compositores”, disse.

Leci contou que a marca do seu trabalho sempre teve relação com a crítica social. Justamente tal “dureza” de suas composições fez com que sua primeira gravadora, no Rio de Janeiro, pedisse para que reavaliasse sua obra. Mesmo assim ela seguiu na mesma linha. “Tínhamos como marca fazer da arte um instrumento de defesa dos menos favorecidos, de colocar a minha realidade, meu comportamento social”, disse.

“Sou filha de servente de escola pública. Não podíamos pagar aluguel, então morei dentro de duas escolas. Tive muitos problemas para conseguir o primeiro emprego. Não sabia que aquele aviso nas entrevistas, ‘precisa-se de moça de boa aparência’, significava que você não podia ser negra. Sempre passava nas provas mas recebia telegramas dizendo que não podia ser admitida. Achei que estava maluca, mas era o enfrentamento do preconceito. Daí o perfil do meu trabalho”, contou.

Essa ligação com as questões sociais brasileiras está explícita, por exemplo, no fato de que foi Leci quem popularizou a substituição do termo “favela” por “comunidade”. “Fazia um comentário no Rio de Janeiro e um amigo meu, conversando, disse que o pessoal falava muito ‘favela’, mas o pessoal da favela dizia que aquilo era uma comunidade. As pessoas se gostam, fazem trabalhos sociais, têm uma série de responsabilidades. Durante um desfile, comecei a usar o termo ‘comunidade’. Comentei de 1984 a 1993. Houve uma campanha de algumas pessoas que já estavam invadindo as escolas de samba para aparecer e eu não falava o nome dessas pessoas. Eu não as conhecia e naquele momento, sempre falava dos sambistas, das baianas.”

E a ação de Leci não passou em branco pelos conservadores. Houve reação. “Começou a rolar muita carta dizendo que eu só falava de comunidade”, lembrou.

“Coincidentemente, com isso, não me convidaram mais para comentar. Fiquei de 1994 até 1999 sem comentar. Olha a ironia. As mesmas pessoas que me excluíram, depois fizeram um programa chamado ‘Comunidade’. Recentemente ouvi um apresentador falando ‘esses intelectuais falam que não pode falar favela, mas é favela’. Eu queria avisar que não é novo o termo ‘comunidade’, isso vem de tempos. É boa a transformação que o próprio povo faz. Existem marcas que ficam”, disse.

Assista à entrevista completa de Leci Brandão no Entre Vistas:

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