Elika Takimoto: O novo ministro e a “educação doutrinadora”  

Que o mundo caiu já sabemos. Que nossas riquezas estão sendo entregues a preço de banana para o grande capital já temos provas. Que a nossa diversidade não será respeitada já percebemos. Que não foi pela corrupção isso está claro como a água. Que eles querem é que pobre morra não temos mais dúvidas. Mas o que ainda me surpreende é essa ignorância. Por mais que esteja lidando com ela diariamente, a imbecilidade ainda me pega de surpresa.

Por Elika Takimoto*

Montagem Portal Vermelho/Foto: Gilberto Abelha

Colombiano Ricardo Vélez Rodrígues foi indicado ministro da Educação do governo Bolsonaro.

Colombiano Ricardo Vélez Rodrígues foi indicado ministro da Educação do governo Bolsonaro.
O tal do “kit gay” mais a “mamadeira de piroca” foram cruciais para que tivéssemos um alucinado como presidente. O povo ter acreditado nessas notícias falsas e sem nenhum sentido diz muito sobre homofobia e sexualidade mal resolvida da galera em geral. Mas o pior, por incrível que pareça, para mim, é a tal da doutrinação marxista. Acreditar nisso só mostra o quanto essa gente está alheia ao que ocorre nas escolas dessa Brasil onde grande parte delas sequer tem Bibliotecas, condições de dar aula, professores de todas as disciplinas, profissionais motivados para ensinar, alunos e alunas com vontade de aprender e por aí vai.

Vivemos o caos dentro das escolas há muito tempo e isso também não é novidade para ninguém. Eu que sou professora há mais de vinte anos e vivo percorrendo escolas estaduais, municipais, federais para dar palestras e aulas nunca me deparei com essa tal doutrinação. Quisera eu ter visto estudantes de escolas públicas entendendo o motivo pelo qual são desprezados pela classe política dominante e pela elite dessa bagaça chamada Brasil.

No meio desse pesadelo sem fim, ontem foi anunciado Ricardo Vélez Rodrigues para comandar o Ministério da Educação. Silas Malafaia entrou em festa em todas as redes. Ora ora. Preciso dizer mais alguma coisa? O que Silas Malafaia e seus pares entendem de Educação?

Nosso novo ministro escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”. Pois é. Parabéns a todos os infelizes envolvidos. O novo ministro da Educação comparou, pasmem, a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como do “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa.

A forma como ele se refere à Comissão da Verdade é assustadora. Para quem não sabe, essa comissão buscou elucidar crimes cometidos pela repressão militar, como torturas e assassinatos de civis. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou relatório com os nomes de 434 pessoas que morreram ou desapareceram durante o regime. Após o golpe, vale lembrar, os militares permaneceram por 21 anos no poder.

Quem comandará a Educação do país sobre isso disse:

“Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64”. “A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”.

Debochar de Direitos Humanos virou modalidade olímpica nesse novo governo. O eleito chegou onde chegou sendo aplaudido elogiando torturador e dizendo que se matou pouco na ditadura. O ministro da Educação não deixa nada a desejar nessa esteira: ele ironiza sempre que pode o conceito de direitos humanos e faz saudações ao “patriótico papel” desempenhado pelos militares no período.

Mas a maior piada, insisto, é esse papo dessa suposta doutrinação marxista nas escolas que esse novo ministro da Educação insiste em seu discurso.

O que não me parece que seja levado em consideração é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários.

Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho e foi quem indicou o nome do novo ministro), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho.

Essa galera foi doutrinada a pensar que estudar é algo que se faz “para não virar pedreiro” (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar). Estudar pode ser uma forma de melhorar o mundo também para os pedreiros, não? Não. Eles não concordam com isso…

A história dessas pessoas é muito parecida. Quando crianças eram educadas por uma família conservadora. “Aprenderam” no ambiente doméstico e religioso valores preconceituosos, discriminatórios e excludentes porque seus responsáveis também foram assim criados e achavam que o mundo dessa forma fosse o natural. Um mundo onde os gays não podem amar livremente, as mulheres serem independente, os negros exercerem cargos de chefia… tudo isso era visto como algo bizarro e antinatural.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vença o mais forte, portanto, estude para ser alguém na vida (sinônimo de ganhar dinheiro) e saiba que o seu coleguinha (estudante secundarista) é seu inimigo porque vai disputar a mesma vaga em uma universidade que você.

E nem vamos falar da televisão que sempre fortaleceu essas ideias. A mídia tem um papel fundamental na doutrinação de um modelo correto de sociedade passado em novelas, revistas e jornais.

O que vimos acontecer por aí? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito foi visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”.

Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!). E quem estiver na defesa das minorias é considerado um inimigo da sociedade tais como ocorreu em outros contextos históricos de cunho fascista.

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que defendemos é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?

Não sem motivo, Marco Feliciano, Silas Malafaia, toda a bancada evangélica, Olavo de Carvalho e outros nomes que representam esse conservadorismo e que mostraram ao longo de suas vidas não entender patavinas sobre o que as escolas realmente precisam, essa gente que se diz “do bem” comemora o nome de Ricardo Vélez Rodrigues como novo ministro da Educação.

Eles vão fazer de tudo para acabar com essa profissão linda que em essência estimula o vôo do pensamento. As asas dos professores e das professoras desse país estão sendo cortadas e ouço aplausos de quem está fora das gaiolas.

Parabéns a todos os imbecis envolvidos nesse golpe.

*Elika Takimoto é doutora em Filosofia, mestre em História, vencedora do Prêmio Saraiva Literatura, professora e atual coordenadora de Física do CEFET/RJ.

http://www.vermelho.org.br/noticia/317136-1

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