“EM TEMPOS DE PANDEMIA, VOCÊ CONSEGUE TER EMPATIA?”, por Camila Hoeppner Toledo

EM TEMPOS DE PANDEMIA, VOCÊ CONSEGUE TER EMPATIA?

Atualmente estamos vivendo dias desesperadores e conturbados devido à pandemia da doença chamada de COVID-19, provocada pelo novo agente do coronavírus, denominado de SARS-Cov-2, que foi descoberto em dezembro de 2019 através de casos ocorridos na China. Sabe-se que os sintomas manifestados são: febre, tosse, espirro, coriza, dificuldade para respirar e dor de garganta. O período de incubação, que é o intervalo de tempo entre a data de contato com o vírus até o início dos sintomas, consiste em até 14 dias.

O cenário é alarmante e a preocupação é real porque o vírus é transmitido facilmente através do ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como: gotículas de saliva, espirro, tosse e catarro. Além disso, a cultura brasileira de cumprimentos e demonstrações de afeto acalorados (toque, aperto de mão, abraço e beijo) deve ser evitada, porque essa aproximação com uma pessoa infectada também é uma forma de contágio. Outro tipo de contaminação é através do contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de toque na boca, nariz ou olhos.

A propensão de que essa doença se propague amplamente significa que a ansiedade global que estamos vivenciando confirma a possibilidade legítima e fundamentada de que a COVID-19 atinja um grande número de pessoas em tempo acelerado. Fato que poderá acarretar um colapso no Sistema Único de Saúde – SUS, caso o aumento dos enfermos ocorra abruptamente. Pois, seria difícil para a saúde pública absorver uma demanda alta e crescente de pessoas adoecidas. Esse contingente de pessoas correria o risco de não ter acesso eficaz e adequado ao tratamento, intensificando a transmissão que poderia sair do controle e elevaria a taxa de mortalidade. Portanto, para que a situação não se agrave, o ideal é que medidas preventivas e protetivas sejam tomadas o mais rápido possível para que a transmissão seja gradual em todo o território nacional, assim, o SUS terá tempo hábil para se organizar e dar conta da demanda emergente.

Contudo, ainda não estamos vivendo um período caótico, mas sim preocupante, por isso, colocar-se no lugar do outro, sensibilizar-se, ser capaz de compreender a visão de realidade do outro e perceber seus equívocos, pode auxiliar no esclarecimento de Fake News sobre o tema da COVID-19, o ceticismo evidente e para que orientações psicoeducativas sejam largamente disseminadas.

E O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO?

O vírus já circula naturalmente pela população, isso significa que a transmissão é comunitária, ou seja, não é possível rastrear a fonte originária da infecção, revelando que o vírus se faz presente entre pessoas que não viajaram ou tiveram proximidade com quem esteve no exterior.

Segundo levantamento do G1 junto às secretarias estaduais de saúde, havia 647 casos confirmados até 19/03/2020. A maioria dos casos está em dois estados: São Paulo tem 286 e o Rio de Janeiro, 65.

Frente a este cenário, tenho observado atitudes e comportamentos egoístas da população diante da pandemia, sendo que estamos todos juntos nisso e, portanto, deveríamos agir inspirados em uma perspectiva coletiva e unida. E é exatamente nessa realidade mundial que a empatia se faz tão importante e essencial ao momento em nome da saúde e proteção de todos.

Em situações de crise, as pessoas podem ficar em pânico e se sentirem muito ameaçadas. Dessa forma, ao invés do “espírito comunitário” ser fortalecido para o enfrentamento da realidade ansiogênica em comum, as pessoas podem mostrar a pior parte de si mesmas. Alguns passam a encarar outros na rua com olhares desconfiados e raivosos, se sentirem desconfortáveis na presença de outras pessoas, cismados de que estejam compartilhando o mesmo espaço com pessoas contaminadas, temem ficar sem mantimentos e podem apresentar defesas que funcionam como um ataque ao outro, com objetivo de se proteger a todo custo. É a raiva de outro ser humano que, na verdade, esconde os sentimentos de impotência, fragilidade, medo e o desemparo frente ao momento, que é marcado por incerteza e mudanças constantes. Essa característica dinâmica da pandemia, em que cada dia se tem uma notícia e um dado novo, cria uma atmosfera de isolamento e desconforto emocional, visto que não há um tratamento e vacina desenvolvidos. Ademais, a vida cotidiana foi interrompida e não se fala em outro assunto, a não ser: o tal coronavírus. Por um lado, isso é benéfico porque as pessoas passam a ter conhecimento científico e se apropriarem de estratégias para combater a transmissão da doença, à luz da conscientização de métodos de barreira eficazes. Mas, por outro lado, as pessoas perdem a organização comum e rotineira de suas vidas, ficam confinadas em casa, o tempo todo ligadas em notícias de TV e jornais, não conseguindo mais pensar e falar em outros assuntos. Podem apresentar quadros de insônia, ansiedade, depressão e pensamentos de morte inclusive.

Outra situação, são aquelas pessoas incrédulas neste cenário perigoso e instável e que, por esta descrença irresponsável, acabam colocando a saúde e a vida da população em risco, porque não seguem as orientações de precaução e prevenção, espalhando boatos e notícias inverídicas, contribuindo para que uma confusão generalizada a respeito do que é falso e do que é verdadeiro se instale. Tanto o desespero como a incredulidade podem atrapalhar muito nos dias de hoje.

 POR QUE UMA SOCIEDADE EMPÁTICA TEM MAIORES CHANCES DE SOBREVIVÊNCIA?

Geralmente, pessoas empáticas são menos preconceituosas e julgadoras, consideram as divergências de opiniões e experiências, conseguem pensar coletivamente e aceitar as diferenças.

Durante a vida, vamos acumulando experiências desprazerosas e desagradáveis, de dor e angústia; todas elas vão formando uma espécie de “casca”, um escudo protetor contra as feridas, contra o reconhecimento da própria dor e da dor do outro.

É comum pensarmos ao ver o noticiário da TV repleto de crimes, roubalheira e mortes, que: “Já vi de tudo nessa vida, nada mais me surpreende, nem mesmo uma pandemia!”. É então, quando começamos a nos acostumar com a miséria, a violência, a maldade, a discriminação, o egoísmo e a barbárie. Andamos pelas cidades e encontramos nas ruas, nas rodoviárias, nas praças, tantos mendigos, usuários de álcool e outras drogas perdidos, mulheres grávidas desamparadas e crianças trabalhando e pedindo dinheiro para seus pais, pessoas com deficiência sem acessibilidade necessária para viver em sociedade, velhinhos e velhinhas com dificuldades para descer uma escada ou atravessar a rua e ninguém fazendo nada, muito menos nós mesmos. A nossa “casca” já calejou a dor que poderíamos sentir ao nos depararmos com tais situações. Não fazemos nada, estamos apressados com nossos compromissos, não queremos dar dinheiro para “bêbado”, quem deveria cuidar das crianças pedintes são os respectivos responsáveis e azar das pessoas com deficiência, pois, eu nasci sem!!!

Claro que não dá para viver o tempo todo se abalando e se comovendo com os acontecimentos ao redor, temos de nos proteger para não enlouquecer. Mas não é disso que se trata a empatia, ela é uma afetação que não enlouquece, porque ela permite o distanciamento necessário para que se possa ajudar o outro. Pessoas de bem consigo mesmas, com suas próprias dores e sofrimentos possuem uma capacidade empática enorme. Você pode mudar a realidade de alguém mesmo que seja por segundos, apenas com um olhar e com um gesto de carinho, uma ajuda, um auxílio, uma orientação, fazer com que o outro seja percebido em sua existência.

Estocar alimentos, medicações, produtos de higiene além do que você precisa para viver neste momento crítico fará com que outros corram o risco de ficar sem mantimentos e passem necessidade. A escassez desses itens pode gerar um clima violento e competitivo entre as pessoas, tornando a situação ainda mais difícil. Não espere que o governo decrete medidas protetivas para começar a acreditar no assunto, pensar em conjunto a respeito e começar a se cuidar. Faça o que precisa ser feito hoje: cubra boca e nariz ao tossir ou espirrar com a parte interna do cotovelo; evite tocar mucosas de olhos, nariz e boca; não compartilhe objetos pessoais; limpe frequentemente o ambiente e mantenha-o sempre bem ventilado; lave as mãos com água e sabão ou use álcool em gel 70%; evite deslocamentos e viagens neste momento; evite aglomerações e fique em casa.

Enfim, a empatia é uma forma de viver e se deixar afetar nas relações. A empatia faz com que você se sinta um agente transformador da realidade em que vive, seja potente no coletivo do qual faz parte, armazene boas vivências e gestos de compaixão, solidariedade e humanidade. A empatia faz com que você se veja humano nos olhos de outro ser humano.

Camila Hoeppner Toledo,

Psicóloga graduada pela UNESP-Assis (CRP: 06/126981)

Psicoterapeuta especialista em Saúde Mental pela FAMEMA

Atua no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas

Facebook e Instagram: @psicologacamilahoeppner

E-mail: camilahoeppner@gmail.com

Fone: (14) 98178-6140

 

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