Entrevista com o cientista político Fabio Luís Bar­bosa dos Santos

“Quando as condições da pacificação social mudaram, as classes dominantes estavam fortes e o campo popular desmoralizado”

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A vi­tória de Jair Bol­so­naro re­pre­senta a afir­mação de onda con­ser­va­dora que, para muitos, co­loca uma pá de cal na cha­mada era pro­gres­sista que a pre­cedeu re­gi­o­nal­mente. No en­tanto, tal ponto de vista pa­rece não só li­mi­tado, mas con­des­cen­dente. “Dizer que o PT (assim como de­mais go­vernos) não mudou o país por causa do ‘pre­si­den­ci­a­lismo de co­a­lizão’ é ca­mu­flar a den­si­dade dos laços con­ser­va­dores que sus­ten­taram seus go­vernos”, disse o ci­en­tista po­lí­tico Fabio Luis Bar­bosa dos Santos, que acaba de lançar “A his­tória da onda pro­gres­sista na Amé­rica do Sul”, em en­tre­vista ao Cor­reio.

Na con­versa, carro-chefe da Edição Re­tros­pec­tiva que apre­sen­tamos, Fabio ex­plica as bases que o le­varam a pro­duzir o livro, uma con­ti­nui­dade mais densa de “Além do PT – a crise da es­querda bra­si­leira em pers­pec­tiva la­tino-ame­ri­cana”, re­sul­tado de anos de es­tudo, pes­quisas e en­tre­vistas.

Em li­nhas ge­rais, afirma que os go­vernos tidos como pro­gres­sistas só pu­deram manter suas po­lí­ticas de con­ten­ta­mento so­cial en­quanto pu­deram formar mai­o­rias par­la­men­tares, pois os pri­vi­lé­gios e con­ces­sões às elites po­lí­ticas e econô­micas sempre se man­ti­veram.

“Os go­vernos pro­gres­sistas acre­di­taram que era pos­sível re­solver ou ame­nizar os pro­blemas de seus países, sem atacar suas causas es­tru­tu­rais. A es­tra­tégia foi con­ci­liar os in­te­resses dos de cima, que ga­nharam como sempre, com pe­quenas con­ces­sões para os de baixo, o que re­sultou em re­la­tiva pa­ci­fi­cação so­cial”.

Fabio Luis re­co­nhece o mo­mento de fe­cha­mento de­mo­crá­tico, pra­ti­ca­mente uma con­dição sine qua non do mo­delo de ca­pi­ta­lismo da re­gião, mas lembra que em di­versos países opo­si­ções à es­querda res­surgem com força. No en­tanto, a com­ple­xi­dade do mo­mento his­tó­rico não é de sim­ples res­posta, como mostra o caso me­xi­cano, onde, em sua visão, a vi­tória de López Obrador não po­derá re­solver os grandes pro­blemas so­ciais da nação.

Res­tará o acir­ra­mento das lutas de classes e de se­tores dis­tintos da so­ci­e­dade, nas quais o Brasil será um ce­nário “pri­vi­le­giado”. “Há uma dis­tância entre o que o go­verno Bol­so­naro quer e o que con­se­guirá fazer. O fator mais im­por­tante não será o tem­pe­ra­mento do pre­si­dente, sua base in­fiel, nem fic­tí­cios li­be­rais de­mo­crá­ticos, mas a re­ação po­pular. A pre­tensão de en­frentar os pro­blemas do ne­o­li­be­ra­lismo com mais ne­o­li­be­ra­lismo cer­ta­mente os agra­vará, assim como com­bater a vi­o­lência com mais vi­o­lência, a pi­o­rará”.

Tempos di­fí­ceis pela frente. Os di­lemas his­tó­ricos que em algum mo­mento pa­re­ciam em vias de su­pe­ração vol­taram com força avas­sa­la­dora. As in­cóg­nitas com que brin­da­remos o fim deste 2018 não serão menos pre­sentes no ano que entra; es­tarão por tempo di­fícil de de­ter­minar. Tendo o Brasil como re­fe­rência, o ci­en­tista po­lí­tico va­ti­cina: “será ne­ces­sário su­perar o lu­lismo, que não é um an­tí­doto ao fas­cismo, mas um en­tor­pe­cente que di­fi­culta a com­pre­ensão do que se passa”.

A en­tre­vista com­pleta com Fabio Luís Bar­bosa dos Santos pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Teu novo livro, Uma his­tória da onda pro­gres­sista sul-ame­ri­cana, pa­rece uma con­ti­nui­dade de Além do PT – A crise da es­querda bra­si­leira em pers­pec­tiva la­tino-ame­ri­cana. É isso mesmo, qual seria o avanço que se faz entre uma e outra obra?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: “Além do PT” nasceu de uma ur­gência po­lí­tica: en­tender o im­pe­a­ch­ment de Dilma. Porque a nar­ra­tiva pe­tista, di­zendo que o golpe veio porque o pro­jeto “da di­reita” perdeu nas urnas, tem como ho­ri­zonte a res­ti­tuição da ordem pe­tista. Quis con­tri­buir para dis­sipar a fu­maça da ide­o­logia, ana­li­sando os go­vernos pe­tistas para en­tender o im­pe­a­ch­ment. Em suma, é um en­saio de in­ter­venção po­lí­tica, cujo ob­je­tivo é li­bertar a es­querda da lâm­pada má­gica do lu­lismo.

“Uma his­tória da onda pro­gres­sista” é fiel ao tí­tulo: uma re­cons­ti­tuição da his­tória de cada país sul-ame­ri­cano com ên­fase no pe­ríodo re­cente. É fruto de seis anos de tra­balho, en­vol­vendo dez vi­a­gens e cen­tenas de en­tre­vistas. É re­sul­tado, por­tanto, de uma densa pes­quisa. Minha in­tenção é ofe­recer uma obra de re­fe­rência para quem quer en­tender a his­tória da re­gião e de cada país sul-ame­ri­cano – in­clu­sive Colômbia, Peru e Chile – em uma pers­pec­tiva de es­querda. Por isso in­clui um ca­pí­tulo sobre Cuba. É um livro para o mi­li­tante e para o aca­dê­mico.

Cor­reio da Ci­da­dania: O novo livro co­meça a abor­dagem pela Ve­ne­zuela. O que co­mentar do atual es­tágio so­cial, po­lí­tico e econô­mico do país? Por que a crise e re­cessão che­garam a pa­ta­mares tão dra­má­ticos, con­si­de­rando a abun­dância de di­visas que a renda pe­tro­lí­fera lhe ga­ran­tira?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: A crise ve­ne­zu­e­lana tem uma origem econô­mica: a com­bi­nação entre in­flação, de­sa­juste cam­bial (enorme di­fe­rença entre o câmbio ofi­cial e o pa­ra­lelo) e de­sa­bas­te­ci­mento cor­roeu a po­pu­la­ri­dade do bo­li­va­ri­a­nismo. Isso ficou claro nas elei­ções de de­zembro de 2015, quando o go­verno elegeu menos de 1/3 dos par­la­men­tares.

Desde então, o go­verno Ma­duro de­sen­canou da ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade que os pró­prios bo­li­va­ri­anos cons­truíram: só brincam de de­mo­cracia quando ga­nham, o que tem sido cada vez mais raro. O ar­gu­mento de seus apoi­a­dores é con­tro­verso, e di­vide a es­querda: dizem que as al­ter­na­tivas co­lo­cadas são todas pi­ores e com isso, jus­ti­ficam a per­pe­tu­ação no poder em con­di­ções cada vez mais crí­ticas.

Duas per­guntas de fundo se co­locam: por que estes pro­blemas econô­micos ex­plo­diram? Por que não des­pon­taram al­ter­na­tivas à es­querda? São ques­tões que exigem ana­lisar a di­nâ­mica e as con­tra­di­ções do bo­li­va­ri­a­nismo, um pro­cesso que evo­luiu ao longo de seus vinte anos.

Dois pontos são fun­da­men­tais, que de­talho no livro: os obs­tá­culos para su­perar a de­pen­dência pe­tro­leira (na raiz dos pro­blemas econô­micos) e as con­tra­di­ções da mu­dança a partir do Es­tado – ou “de cima para baixo” – o que está na raiz das li­mi­ta­ções po­lí­ticas.

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Di­vul­gação: Edi­tora Ele­fante

Cor­reio da Ci­da­dania: Ten­tando co­locar numa certa ordem de re­le­vância, quais foram os ou­tros pro­cessos po­lí­ticos na­ci­o­nais que mais se apro­xi­maram de uma rup­tura com o ne­o­li­be­ra­lismo e a cons­trução de novos mo­delos de po­lí­tica e so­ci­e­dade?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: En­tendo que o único país em que houve a in­tenção de su­perar o ne­o­li­be­ra­lismo foi na Ve­ne­zuela, que re­to­marei adi­ante. Mas talvez as mai­ores ex­pec­ta­tivas fossem em torno de Ar­gen­tina, Bo­lívia e Equador, que en­traram na onda pro­gres­sista em meio a su­ble­va­ções po­pu­lares, onde vá­rios pre­si­dentes foram der­ru­bados. Dentre estes, des­taca-se o caso bo­li­viano: Mo­rales venceu as elei­ções em 2005 e con­vocou uma cons­ti­tuinte, em que não con­se­guiu mai­oria ab­so­luta.

Os “cambas” de Santa Cruz cons­pi­ravam para di­vidir o país, os Es­tados Unidos man­daram para lá seu ex-em­bai­xador no Ko­sovo, recém-se­pa­rado da Sérvia, en­quanto os in­dí­genas do al­ti­plano ame­a­çavam baixar do al­ti­plano e re­solver na marra o que o vice García Li­nera chamou como “em­pate ca­tas­tró­fico”.

Afinal, che­garam-se a acordos, a nova cons­ti­tuição foi pro­mul­gada e nas elei­ções se­guintes Mo­rales ga­nhou de la­vada e fez mai­oria. A ex­pec­ta­tiva era que o pro­cesso se ra­di­ca­li­zasse, mas ocorreu o seu con­trário. Desde 2011, trata-se de um go­verno an­ti­po­pular, que con­verteu o poder em um fim em si.

Como ex­plicar? Para dizer em uma linha, os com­pro­missos para pa­ci­ficar o país as­su­midos na cons­ti­tuinte de­ter­mi­naram o norte con­ser­vador ado­tado pelo go­verno, que per­sis­tiram quando teve mai­oria par­la­mentar. Mai­oria que também os Kir­chner ti­veram em algum mo­mento, e que López Obrador tem agora no Mé­xico.

Assim, dizer que o PT não mudou o país por causa do “pre­si­den­ci­a­lismo de co­a­lizão” é ca­mu­flar a den­si­dade dos laços con­ser­va­dores que sus­ten­taram seus go­vernos – re­duzir um câncer a uma ver­ruga, porque é o que se vê.

Cor­reio da Ci­da­dania: Um país de grande im­por­tância e sempre ne­gli­gen­ciado na mídia bra­si­leira é a Colômbia, que agora passa por um in­trin­cado pro­cesso de pa­ci­fi­cação na­ci­onal. Como ana­lisa o de­sen­vol­vi­mento dos acordos de paz e o peso deste país no equi­lí­brio re­gi­onal?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: Após a eleição de Bol­so­naro, os bra­si­leiros têm me­lhores con­di­ções de en­tender a Colômbia: como um país há meio sé­culo em guerra civil conduz longas ne­go­ci­a­ções que de­sa­guam em um acordo de paz – e este acordo é re­jei­tado em con­sulta po­pular? E o prin­cipal ar­gu­mento do “não” era que a paz abriria o ca­minho para o “cas­tro­cha­vismo” e para que as FARC as­su­missem o co­mando do país… Desde os anos 1990, o uri­bismo en­ve­nenou a cul­tura po­lí­tica co­lom­biana ao mesmo tempo em que mi­li­ta­rizou o país, em um pro­cesso que tem muita se­me­lhança com o modo de fazer po­lí­tica de Bol­so­naro.

O atual pre­si­dente Duque é um uri­bista que tem des­cum­prido cada as­pecto do acordo de paz – o que aliás, já era a tô­nica do go­verno an­te­rior. Em termos re­gi­o­nais, de­ter­minou a saída de seu país da UNASUL, e tra­ba­lhou ati­va­mente para que ou­tros países o acom­pa­nhassem. No en­tanto ficou só, pois os de­mais en­ten­deram que era pre­ciso es­perar as elei­ções no Brasil para se po­si­ci­o­narem. Agora, a or­ga­ni­zação fe­ne­cerá – ex­ceto se os Es­tados Unidos ti­verem planos para a UNASUL sob Bol­so­naro.

Cor­reio da Ci­da­dania: Qual o peso do Brasil e mais es­pe­ci­al­mente do lu­lismo em meio a todo esse ce­nário, para bem e para mal?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: A onda pro­gres­sista foi mais do que a soma de go­vernos na­ci­o­nais: as si­ner­gias e ações con­juntas cons­ti­tuíram um as­pecto de­ci­sivo, e talvez o maior po­ten­cial do pro­cesso. Neste sen­tido pode-se dizer que, se a Ve­ne­zuela foi a van­guarda da onda pro­gres­sista, o Brasil foi o seu motor. Re­cu­pe­remos as ori­gens: em 2002, Chávez res­pondeu às ten­ta­tivas frus­tradas de der­rubá-lo ra­di­ca­li­zando suas po­si­ções, caso único no sub­con­ti­nente. Neste mesmo ano Lula foi eleito e em se­guida, as­sumiu Kir­chner. A Ve­ne­zuela se en­tu­si­asmou com a pers­pec­tiva de ter par­ceiros além de Cuba.

No en­tanto, logo ficou claro que o Brasil não mi­li­taria por um pro­jeto contra-he­gemô­nico, mas queria ser “global player”. Em ou­tras pa­la­vras, seu in­te­resse não era fazer um time, mas ser o líder re­gi­onal; seu jogo não era a Alba, mas a Unasul. E esta é uma ter­ceira di­mensão im­por­tante para en­tender o que acon­teceu na Ve­ne­zuela: o papel re­gi­onal do Brasil que, na prá­tica, atuou como um freio e não como um ace­le­rador da onda pro­gres­sista.

Em li­nhas ge­rais, as ges­tões pe­tistas pro­je­taram sua ló­gica in­terna para a po­lí­tica re­gi­onal: em casa, pre­ten­deram me­lhorar a si­tu­ação dos de baixo, sem com­prar briga com os de cima. No plano in­ter­na­ci­onal, am­bi­ci­o­naram am­pliar a so­be­rania re­gi­onal, sem en­frentar os Es­tados Unidos. Assim, as ges­tões pe­tistas foram sim­pá­ticas a Chávez ou a Fidel – desde que seus países acei­tassem a ordem pro­posta.

Cor­reio da Ci­da­dania: Saindo da Amé­rica do Sul, como en­xerga Cuba em meio a tudo isso?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: Desde o fim da União So­vié­tica, Cuba se tornou uma es­pécie de qui­lombo, lu­tando com dig­ni­dade para sus­tentar seu so­ci­a­lismo pri­mi­tivo em um mundo hostil. A prin­cipal di­fi­cul­dade é econô­mica: Cuba é um país pobre e que não tem como sus­tentar de forma iso­lada o pa­drão so­cial que cons­truiu com apoio so­vié­tico. Desde os anos 1990, sua so­bre­vi­vência ficou ainda mais di­fícil: o ho­ri­zonte ci­vi­li­za­tório deixou de ser o co­mu­nismo, re­du­zindo-se à ma­nu­tenção das con­quistas so­ciais e da so­be­rania fun­dadas na re­vo­lução.

Neste quadro, a onda pro­gres­sista pro­por­ci­onou algum alento: a Ve­ne­zuela propôs par­ceria e pe­tróleo, en­quanto o Brasil ofe­receu ne­gó­cios. Vinte anos de­pois, os li­mites do pro­gres­sismo também afetam a ilha, que re­es­creve sua cons­ti­tuição eli­mi­nando a re­fe­rência ao co­mu­nismo.

O saldo do pro­cesso não po­deria ser mais claro: a onda pro­gres­sista, que co­meçou re­es­cre­vendo cons­ti­tui­ções com a pro­posta de re­fundar na­ções (Ve­ne­zuela, Bo­lívia, Equador), ter­mina re­es­cre­vendo o que havia de nação e de es­querda na re­gião.

Cor­reio da Ci­da­dania: Afinal, por que a onda dos go­vernos pro­gres­sistas en­con­trou um li­mite e pa­rece agora viver um quase ir­re­sis­tível pro­cesso de re­versão pela di­reita e até ex­trema-di­reita?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: Os go­vernos pro­gres­sistas acre­di­taram que era pos­sível re­solver ou ame­nizar os pro­blemas de seus países, sem atacar suas causas es­tru­tu­rais. A es­tra­tégia foi con­ci­liar os in­te­resses dos de cima, que ga­nharam como sempre, com pe­quenas con­ces­sões para os de baixo, o que re­sultou em re­la­tiva pa­ci­fi­cação so­cial. En­tre­tanto, esta pa­ci­fi­cação im­plicou em formas de neu­tra­lizar e apas­sivar o campo po­pular. Quando as con­di­ções po­lí­ticas, so­ciais e econô­micas que fa­vo­re­ceram esta pa­ci­fi­cação se mo­di­fi­caram – e então é pre­ciso ana­lisar cada país -, vemos que as classes do­mi­nantes en­con­tram-se fortes como sempre, en­quanto o campo po­pular está des­mo­bi­li­zado, e em al­guns casos, des­mo­ra­li­zado.

Neste sen­tido, en­tendo a atual con­jun­tura antes como um des­do­bra­mento do que como uma re­versão. Ve­jamos o caso bra­si­leiro: o go­verno Temer foi sem dú­vida mais tru­cu­lento do que as ges­tões pe­tistas, mas o sen­tido das suas po­lí­ticas foi o mesmo.

Por exemplo: o con­ge­la­mento dos gastos pú­blicos por vinte anos ra­di­ca­lizou a ló­gica do ajuste es­tru­tural, pra­ti­cada re­gi­a­mente pelas ges­tões pe­tistas, en­quanto a per­se­guição po­pular se es­cora na lei an­ti­ter­ro­rista san­ci­o­nada por Rous­seff às vés­peras do seu afas­ta­mento. As con­ti­nui­dades são sin­te­ti­zadas por Hen­rique Mei­relles, que co­mandou o Banco Cen­tral sob Lula.

Por­tanto, o go­verno Temer deve ser visto como uma me­tás­tase das ad­mi­nis­tra­ções pe­tistas, uma vez que os in­te­resses an­ti­po­pu­lares que aquelas ja­mais en­fren­taram logo se es­pa­lharam de­sim­pe­didos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Acre­dita que essa di­rei­ti­zação só pode se dar em termos mais ra­di­ca­li­zados e até fas­cis­ti­zados na atual con­jun­tura do ca­pi­ta­lismo da re­gião?Au­to­ri­ta­rismo e fór­mulas dis­far­çadas de es­tados de ex­ceção se­riam a única via para a re­pro­dução do ne­o­li­be­ra­lismo neste mo­mento?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: Sem dú­vida, esta é a ten­dência, mas não é a regra. Veja as elei­ções no Mé­xico: López Obrador é visto como uma no­vi­dade po­lí­tica em um con­texto de crise, fez uma cam­panha cen­trada na questão da cor­rupção, em que as redes so­ciais ti­veram um papel de­ter­mi­nante. As si­mi­la­ri­dades su­per­fi­ciais com Bol­so­naro são sur­pre­en­dentes. Como ex­plicar? Esta con­tra­dança entre Mé­xico e Brasil su­gere que há uma va­ri­e­dade de formas para lidar com a crise na atu­a­li­dade, dentre as quais se in­clui o pro­gres­sismo.

Veja o pa­ra­doxo: en­quanto os países que atra­ves­saram a onda pro­gres­sista avançam para es­tados de cri­mi­na­li­zação da po­lí­tica e in­su­la­mento da eco­nomia, à moda co­lom­biana, os países que não foram go­ver­nados pelo pro­gres­sismo evo­luem na di­reção con­trária: frentes de es­querda se des­ta­caram nas elei­ções no Chile, Peru e Colômbia entre 2016 e 2017, en­quanto López Obrador al­cançou a pre­si­dência em 2018.

Esta as­censão pode ser in­ter­pre­tada não como um in­dício de mu­dança, mas como o seu con­trário: vinte anos de­pois, cons­ta­tada ao mesmo tempo a ino­fen­si­vi­dade do pro­gres­sismo para ame­açar a ordem e sua re­la­tiva efi­cácia em geri-la, en­tre­abre-se nos países em que as forças da mu­dança es­ti­veram mais as­fi­xi­adas uma brecha, que se­gu­ra­mente ca­ti­vará a ilusão de muitos e cer­ta­mente não le­vará a mu­dança al­guma. López Obrador será o pri­meiro ati­rado aos leões, en­ca­rando a mo­nu­mental crise me­xi­cana.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que es­perar do go­verno de Jair Bol­so­naro, cuja equipe já está in­tei­ra­mente no­meada e ofe­rece pistas do que te­remos? Que con­sequên­cias suas po­lí­ticas devem gerar no chão so­cial?

Fabio Luís Bar­bosa dos Santos: De Bol­so­naro, o povo só pode es­perar o pior. A am­bição geral da sua po­lí­tica é uma es­pécie de re­for­ma­tação da so­ci­e­dade bra­si­leira, aná­loga à pro­du­zida pela di­ta­dura de Pi­no­chet no Chile – outra ex­pe­ri­ência que ana­liso no livro e que os bra­si­leiros devem en­tender, para além da co­nhe­cida re­pressão. Ao final da di­ta­dura, até a es­querda chi­lena es­tava des­fi­gu­rada, e o Par­tido So­ci­a­lista de Sal­vador Al­lende trans­formou-se em um gestor da ordem le­gada.

Porém, há uma dis­tância entre o que o go­verno Bol­so­naro quer e o que con­se­guirá fazer. O fator mais im­por­tante não será o tem­pe­ra­mento do pre­si­dente, sua base in­fiel, nem fic­tí­cios li­be­rais de­mo­crá­ticos – mas a re­ação po­pular. A pre­tensão de en­frentar os pro­blemas do ne­o­li­be­ra­lismo com mais ne­o­li­be­ra­lismo cer­ta­mente os agra­vará, assim como com­bater a vi­o­lência com mais vi­o­lência, a pi­o­rará. Em um pri­meiro mo­mento, é pro­vável que Bol­so­naro ofe­reça sangue pe­tista para aplacar a turba ilu­dida que o elegeu.

Mas em se­guida, a re­a­li­dade co­brará a fa­tura e o campo po­pular res­pon­derá. Por­tanto, será ne­ces­sário su­perar o lu­lismo, que não é um an­tí­doto ao fas­cismo, mas um en­tor­pe­cente que di­fi­culta a com­pre­ensão do que se passa. Só com luta os bra­si­leiros es­ca­parão da bar­bárie, não com mor­fina.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

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