Haddad: pandemia

A postura de Bolsonaro tem sido objeto de análise crítica. Os equívocos do Ministério da Saúde, esses têm recebido pouca atenção

Em visita a Nicolas Sarkozy, Lula ouviu do ex-presidente francês que o mundo estava sendo governado ou por loucos ou por técnicos, não havendo espaço para a grande política. Mencionou três dos loucos, cujos nomes, por discrição, não revelo, confiando à imaginação do leitor a fácil tarefa de desvendá-los.

Essa circunstância agrava as condições de enfrentamento da pandemia de coronavírus, que, em si, já não são nada simples. Se quem deveria liderar a nação, além de incapaz, for mentalmente perturbado, os danos sociais, que já são grandes, podem se tornar irrecuperáveis. É claro que até os negacionistas torcem por uma pronta resposta da ciência, vacina ou remédio. E, se ela vier, tanto melhor para dízimos e dividendos. Mas estadistas não podem contar com o melhor dos cenários. Ao Estado cabe preparar-se para o pior.

A postura tresloucada de líderes tem valorizado em demasia, por contraste, a conduta dos que têm assumido um discurso responsável. Mas também tem permitido que a avaliação crítica das ações governamentais fique em segundo plano. O governo brasileiro padece dos dois problemas: quem conduz o país não tem juízo; e as decisões técnicas são tardias, insuficientes ou simplesmente equivocadas.

A postura de Bolsonaro tem sido objeto de análise crítica. Os equívocos do Ministério da Saúde, esses têm recebido pouca atenção. Há pelo menos quatro providências que ainda não foram tomadas ou foram tomadas tardiamente:

1) Testes em massa e distanciamento social reduzem drasticamente a proliferação da doença, medida fundamental para que o sistema de saúde não colapse. Apesar dos alertas da OMS, recomendando a prática, o governo nada fez e, diante da falta de comando, as autoridades subnacionais adotaram medidas descoordenadas;

2) Ampliação de leitos de UTI: se a proliferação não for contida, os leitos de UTI disponíveis não serão suficientes. Ainda que tenha havido um enorme incremento no período 2003-16 –cerca de 12 mil–, teríamos que contratar a abertura de pelo menos 5 mil novos leitos, contando com o “achatamento” da curva de contágio;

3) Recomposição do Mais Médicos: sem ele, será afetada a vida dos mais pobres quando a epidemia chegar aos rincões e periferias do país. Outra providência é retomar o Revalida (validação de diploma de médicos formados no exterior);

4) Regulação da comercialização dos insumos necessários ao enfrentamento da pandemia, inclusive quanto ao comércio exterior: enquanto ela durar, o provisionamento de insumos precisa ser garantido por ação governamental. Se a ciência não nos trouxer uma solução imediata, a política terá que nos entregar mais do que temos tido.

Fernando Haddad é professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

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