Jornalicídio doloso – jornalista é processada por interpretar realidade, por Elaine Tavares

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Schirlei Alves

A pa­lavra jor­na­lismo vem do grego diur­nalis, que sig­ni­fica “do dia”. Quando passa a de­signar um fazer sig­ni­fica então “aná­lise do dia”. Isso é o que está na eti­mo­logia e é o que de­veria estar na ca­beça de cada um de nós, os que pra­ti­camos o jor­na­lismo todos os dias. Ob­servar a vida, os fatos e narrar, não como meros porta-vozes, mas como su­jeitos ca­pazes de ana­lisar e in­ter­pretar os fatos para além da apa­rência.

Pois foi exa­ta­mente isso que fez a jor­na­lista Schirlei Alves ao co­brir o ve­xa­mi­noso jul­ga­mento do caso André Aranha, acu­sado de es­tu­prar uma ga­rota numa casa no­turna da ca­pital ca­ta­ri­nense, Flo­ri­a­nó­polis, Brasil. Na au­di­ência, o ad­vo­gado do dito es­tu­prador co­loca foco na vida da jovem es­tu­prada, Ma­riana Ferrer, e a hu­milha em di­versos mo­mentos, tra­tando-a como se ela fosse cul­pada por ter sido es­tu­prada.

Até aí nada de novo, pois sempre foi essa a es­tra­tégia das de­fesas de es­tu­pra­dores: virar o jogo para a ví­tima. “Es­tava bê­bada, es­tava de ves­tido curto, es­tava com roupa trans­pa­rente, pro­vocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão co­mido. Como também foi pão co­mido o re­sul­tado do jul­ga­mento. De­pois de toda a pressão sobre a ví­tima, o re­sul­tado foi a ab­sol­vição de Aranha.

Com todo o re­bus­ca­mento da lin­guagem do ju­ri­diquês, o pro­cesso aponta que existem si­tu­a­ções em que “o erro ex­clui o dolo, mas per­mite a pu­nição por crime cul­poso… quando há a von­tade, mas não a plena cons­ci­ência”. E foi – li­nhas ge­rais – em cima disso que o homem foi ab­sol­vido. Che­garam à con­clusão de que não foi es­tupro, porque, mesmo que tenha ha­vido o dolo (perda da vir­gin­dade) não hou­vera a in­tenção.

Como uma boa jor­na­lista, Schirlei Alves, se de­bruçou sobre o pro­cesso, leu as le­tras pe­quenas e fez suas aná­lises e in­ter­pre­ta­ções. Uma delas lhe per­mitiu apontar a ge­nial ex­pressão “es­tupro cul­poso”, que acabou ga­nhando des­taque e le­vando o país in­teiro a dis­cutir o caso. Ou seja, Shirlei per­cebeu que a ló­gica usada na sen­tença per­mitia uma ana­logia com o que co­nhe­cemos como ho­mi­cídio cul­poso – quando uma pessoa mata outra sem in­tenção de matar (o caso de um aci­dente, por exemplo). Claro que o que a jor­na­lista fez foi uma ironia – porque nem isso seria. Mas foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está su­ben­ten­dida nos autos.

Como as pa­la­vras são po­lis­sê­micas, cada um que leu o texto atri­buiu um sen­tido e a ex­pressão foi usada para cri­ticar de ma­neira jo­cosa o ju­di­ciário e todos os ope­ra­dores que atu­aram no caso. Ob­vi­a­mente que a ex­po­sição na­ci­onal, e até in­ter­na­ci­onal do acon­te­cido, causou in­dig­nação aos en­vol­vidos. Então, tra­taram de ju­di­ci­a­lizar a jor­na­lista. E agora, ela res­ponde pro­cesso por ter ana­li­sado um fato e in­ter­pre­tado o mesmo com base nas in­for­ma­ções dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não ha­viam dito, mas que es­tava su­ben­ten­dido nas en­tre­li­nhas.

Seria até en­gra­çado um pro­cesso por isso, mas é claro que não é. Porque es­tamos no Brasil, porque a Jus­tiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jor­na­lismo tem de ser ca­lado. Na ver­dade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jor­na­lismo, aquele, de ver­dade, que in­ter­preta, que de­sa­loja, que de­se­qui­libra, que ana­lisa cri­ti­ca­mente. Mas, mo­mentos há em que ele tem mais es­paço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lem­brar outro co­lega jor­na­lista e pro­fessor, o Cris­tian Góes, que foi pro­ces­sado por ter es­crito um texto de ficção com o qual um desses “co­ro­néis” nor­des­tinos se iden­ti­ficou. Cris­tian foi con­de­nado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Lou­cura? Não! Re­a­li­dade bra­si­leira.

O pro­cesso agora contra Schirlei segue essa ló­gica da ten­ta­tiva do cala-boca. Diz para os jor­na­listas: não vejam para além das apa­rên­cias, não tentem in­ter­pretar nada, não re­a­lizem a aná­lise do dia, não façam me­di­a­ções in­te­li­gentes com seus lei­tores, li­mitem-se a car­regar vozes, fi­quem nos seus lu­gares de ca­pa­chos do sis­tema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jor­na­listas, dos que fazem jor­na­lismo, dos que têm apreço pelo jor­na­lismo. E é pre­ciso contar essa his­tória, para que a jor­na­lista não venha a ser con­de­nada por in­ter­pretar um fato, por criar uma man­chete fora do pa­drão. Por que se isso acon­tece é um tiro no peito do jor­na­lismo e aí, não é “jor­na­li­cídio cul­poso”, mas do­loso mesmo, porque a in­tenção é ob­vi­a­mente a de matar qual­quer pos­si­bi­li­dade de um tra­balho que fuja da nor­mose disso que al­guns chamam de jor­na­lismo, mas que é apenas um pas­tiche, li­mi­tando-se a dizer que: se­gundo fu­lano isso, se­gundo fu­lano aquilo.

O jor­na­lismo de ver­dade vai além do porta-voz. Ele mexe no ves­peiro. Ele expõe a fe­rida, san­grando. O que Schirlei fez foi isso: de ma­neira in­te­li­gente, expôs, numa ex­pressão tão cur­tinha, toda a pan­to­mina do jul­ga­mento e da ação do es­tu­prador.

Que se mexam o Sin­di­cato, a Fenaj, as ins­ti­tui­ções in­ter­na­ci­o­nais. A Schirlei não pode ficar so­zinha nessa ba­talha. Notas de re­púdio não são su­fi­ci­entes. Há que ter mo­vi­mento forte.

Tô con­tigo, Schirlei Alves.


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