Josué de Castro, precursor da Reforma Agrária Popular, por Miguel Stédile

Josué de Castro foi fundador e primeiro presidente da FAO. (Foto: Fundação Joaquim Nabuco)

Miguel Stédile (*)

Nos mangues de Recife, conheceu o ciclo da fome que ligava os homens aos caranguejos. Nos latifúndios de Pernambuco, viu a miséria causada pela concentração e as cercas que dividiam não apenas a terra, mas o mundo: entre aqueles que comiam e os que não se alimentavam. Investigou, denunciou e combateu a fome nos cinco continentes.

Há 110 anos, nascia Josué de Castro. Difícil descrevê-lo em poucas palavras ou mesmo em uma única profissão. Josué foi médico, geógrafo, cientista, deputado, romancista, defensor da Reforma Agrária e apoiador das Ligas Camponesas, fundador e primeiro presidente do órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO.

O tema da fome e das condições alimentares já atraía a sua atenção desde que retornara a Recife, recém-formado em medicina no Rio de Janeiro. Ainda em 1935, escrevera “As condições de vida das classes operárias no Recife (estudo econômico de sua alimentação)”. Preocupado em entender as origens da fome, Josué de Castro apoiou-se na geografia, mas também nos estudos de sociologia e economia política, para construir uma visão com totalidade do problema. Sua contribuição, a partir da publicação de Geografia da Fome em 1946, foi demonstrar que a fome não tinha origens climáticas ou étnicas. A fome era produto do subdesenvolvimento ao que o Brasil fora submetido, era resultado de uma economia e agricultura baseada no latifúndio, na monocultura e na exportação. Sua pesquisa rigorosa, combinada com a argumentação contundente, tornaram seu trabalho uma referência internacional no combate à fome até hoje.

Portanto, há mais de meio século, Josué de Castro já demonstrava que o combate à fome e a miséria dependia da realização de uma efetiva reforma agrária, que desconcentrasse a terra e a riqueza. Ao mesmo tempo, enfatizava a necessidade da produção e do consumo de alimentos saudáveis.

Muitos anos antes da propaganda da chamada “Revolução verde” – o incentivo ao uso intensivo de venenos – Josué já havia provado que o problema da alimentação não estava na quantidade produzida, mas no acesso aos alimentos. Estivesse entre nós, certamente estaria horrorizado com as quantidades de agrotóxicos despejados pelas grandes propriedades do agronegócio, que ao mesmo tempo não são destinadas a produção de alimentos, enquanto o país retorna para os índices de pobreza e miséria absoluta de dez anos atrás. O latifúndio monocultor, a âncora que prende o país no subdesenvolvimento, permanece o mesmo dos tempos de Josué de Castro, só disfarçado com a alcunha de tech ou pop.

Por outro lado, o Movimento Sem Terra é devedor de Josué de Castro para elaborar seu programa agrário, a Reforma Agrária Popular. Os ensinamentos de Josué nos permitiram compreender que não basta a distribuição de terras para que a Reforma Agrária seja efetiva, ela deve estar destinada à produção de alimentos. E nãos quaisquer alimentos, mas alimentos saudáveis e para o povo brasileiro.

Reconhecido internacionalmente, Josué foi obrigado a deixar o país pela ditadura militar – assim como a ditadura da austeridade que queima museus e suspende pesquisas expulsa muitos dosa nossos cientistas. Faleceu em 1973, no exílio, com saudades de sua terra e de seu povo. Deixou uma obra cujo vulto e importância permanece até hoje e inspira a luta dos camponeses brasileiros contra a fome e a miséria, estas filhas prediletas do agronegócio.

(*) Publicado originalmente na página do MST.

Comente

Seu email não será publicado. Campos marcados são obrigatórios *

*