Kary Motta: “O DIÁLOGO DAS LUZES”

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O DIÁLOGO DAS LUZES

Para entrar em acordo, às vezes precisamos transportar nosso ponto vista para outros lugares e abraçar sentidos completamente novos. Essa tarefa definitivamente não é das mais simples. Mas quando conseguimos, isso pode nos revelar um mundo surpreendente. Quero trazer uma experiência vivida porque experienciar talvez seja a melhor (ou única?) maneira de superar conflitos que a superposição de idéias e conceitos pode gerar. Querer resolver com a razão lógica e analítica aquilo que apenas a razão já não dá mais conta de resolver pode acabar em grande frustração, em briga, em ressentimento, porque, muitas vezes, tudo que o outro nos pede é ser olhado com as lentes da emoção e, nesse lugar, a razão está quase sempre fadada ao fracasso. Aquilo que, para os acostumados às interações pautadas pela razão, parece um argumento tão poderoso pode resultar em verdadeira calamidade para muitos relacionamentos. E isso pode ser expandido em muitos níveis, desde questões individuais até coletivas.

Vou tocar em um ponto que tem sido terreno de muitas polêmicas e confesso que me sinto pisando em ovos neste lugar, porque esse espaço é a arena de lutas que geraram feridas profundas em toda uma sociedade. Mas vou correr esse risco porque sem me permitir essa “aventura” eu cortaria o “rio-discurso” que me liga às vozes de outros tantos que desejam construir a “sentença-rio”, mesmo sem me sentir exatamente bem vinda para compor esse fio. Aí é um lado intruso meu que já vou me desculpando de antemão. 

Recebi de uma amiga uma “cartilha de palavras racistas” elaborada no Programa Sesc e Senac de diversidade, em Novembro de 2020. Vou ser honesta e contar exatamente como eu recebi o conteúdo. Recebi como recebo quase todos os textos que passam por mim, que seja de estabelecer um dialogo lógico, analítico e, portanto também critico, do material. E logo lhe reenviei um emoji com aquela carinha do pensador, ao que ela prontamente respondeu: “te mandei porque achei interessante do ponto de vista da língua portuguesa, mas não está aberto à discussão”. Aquilo foi mesmo horrível de ler! Foi como levar um tapa do nada. Como sou da área de Letras, pensou em mim, mandou, mas não queria que eu emitisse uma opinião. Ótimo! Estava eu diante de alguém que queria me impor a mesma dor que ela sentia na alma! Não sei se preciso explicar, mas para mim, não poder dar minha opinião, é como ser amputada. Que lógica é essa tão contrária ao valor que até hoje eu vivi como estando entre os mais elevados, como o direito à voz? E, se não conseguimos ter voz  em muitos espaço nos quais gostaríamos, queremos acreditar que, ao menos entre aqueles chamados amigos, esse direito está garantido! Como não me curvo fácil às ideias que não concordo, tive que pôr ali, ainda com mais vigor, o meu ponto de vista porque, isso já é sabido, toda ação gera uma reação contrária a si. E se a ação dela já era uma reação à toda a história que entendia como sua, a minha seria então a reação da reação. E aí uma arena de luta começou. Para mim estava logicamente colocada a idéia. Como poderiam reivindicar que toda uma sociedade retirasse do seu dicionário pessoal de fala uma coleção de palavras, totalmente descontextualizada por causa de uma genética de sentido da palavra, ou pior, em alguns casos, uma suposta genética do sentido da palavra? Aprendi que as palavras precisam estar em discurso para realizar seu sentido e que dar a elas um sentido fixo seria um erro de compreensão do fenômeno linguístico. E deste ponto de vista lógico eu não poderia abrir mão, certo? Sim e não. Já ouviram a expressão “você tem toda razão”? Acho que sim, não é? Mas talvez devemos criar outra para compor com esta: você tem toda emoção. Sim, porque era exatamente isso e me custou um par de horas e de arguição para eu finalmente compreender. Vou pegar um exemplo do meu primeiro ponto de vista e tentar explicar como passei, sem abandoná-lo, a incluir aí um outro ponto de vista que me possibilitou com-preender (apreender junto) o ponto de vista dela. Esta cartilha, contextualizada na suposta história das palavras começou me parecer contextualizada de fato na alma daqueles que carregam a ferida do racismo no coração, mas como verdade geral, eu definitivamente não me reconheci ali, como, por exemplo, na expressão “a coisa está preta”, uma das expressões que a cartilha pretende interditar com o argumento do termo associar preto a algo negativo. Mas quem autorizou alguém a cristalizar aí o sentido do termo, jogando este definitivamente numa lógica de oposição racista? Para mim, ele pode ter um outro sentido: preto se opõe a claro, no sentido de escuro, do que não tem luz incidindo e portanto de onde não se pode ver, distinguir as coisas. Aí eu seria questionada: e porque não se oporia então a branco e sim a claro já que preto é uma cor? Porque não é neste eixo semântico da cor que a ideia está se construindo. Preto pode sim estar em outros campos semânticos que não seja o da cor, o da pele ou da raça. Preto abriga muitos traços semânticos e entre eles está o traço escuro, sem luz. É fácil achar muitos exemplos na nossa língua para isso. Logicamente é isso. Mas acontece que não estamos no campo da lógica. Não é deste ponto de vista que minha amiga quer falar comigo. Ela quer me contar a sua dor. Ela quer me mostrar como essa dor é extensa e vai por toda parte. É como se na alma daquele que carrega a ferida do racismo houvesse um redemoinho, um centro de forças que atraísse para lá tudo que tocasse a questão da cor da pele, porque é nessa cor que ficou a dor. Então ela pode não ter “toda a razão”, mas tem “toda a emoção” para fazer essa interpretação. E mesmo que minha razão se agonize eu tenho que ver essa emoção, que me chega enfim quase como um pedido de amor. E eu já não a amava antes? Por que precisaria ela pedir? Tudo isto estava ali posto e eu estava falida, com minha razão por terra em sem nenhuma valia. Aí entendi melhor a frase  de  Antoine de Saint-Exupéry no livro O pequeno príncipe: “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”. Então, em nome de valores como a amizade e a com-paixão (sentir junto), eu com-preendi (apreender junto) que não devo ouvir mais o “meu sentido” na expressão “ a situação está preta”,  mesmo que para mim ele seja bem possível – ou na verdade posso até ouví-lo para não me impor a dor da amputação dos sentidos que me habitam – mas também preciso ouvir ali a sua dor, o seu sentido, sua reivindicação – que não raro vem na forma de uma reação que me atravessa e pode parecer desmedida para o meu olhar à distância, mas que, quando me ponho em acordo, revela a imensa dor que lhe habita.

Posso dizer que a vida nos fala de forma singular e por um triz pode nos escapar o sentido que devemos construir para que ela realmente valha a pena. Certamente todos os dias somos colocados em situações como esta em que temos que ouvir a sensibilidade se quisermos entrar em acordo e, claro, saber que há um bocado de amor envolvido nesse caminho. Abandonar por um momento nosso próprio ponto de vista para encontrar um outro e depois,  somente depois, (re)conciliar um com o outro. Quem sabe um dia, quando tudo isto passar, na utopia de uma solução para este dilema racista de todos os dias, o preto e o branco sejam apenas cor -uma que recebe toda a luz (e traduz calor) e outra que  a reflete, como se pudessem compor um diálogo das cores. 

21 de novembro de 2020

Kary Motta

 


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