Mais da metade da bancada federal paulista foi reeleita

Por Fernanda Cruz, Camila Maciel e Bruno Bocchini – Repórteres da Agência Brasil  São Paulo

A bancada paulista na Câmara dos Deputados teve 38 candidatos reeleitos de um total de 70, configurando renovação de 47%. No estado de São Paulo, o número de mulheres eleitas aumentou de seis para onze.

O PSL foi o partido que ficou com mais cadeiras (10), seguido do PT (8), que perdeu duas cadeiras em relação aos eleitos em 2014. O PR permaneceu na terceira posição com sete deputados eleitos, contra seis na eleição passada. Empatados em quarto lugar estão PSDB e PRB, que elegeram seis deputados cada. Os tucanos perderam oito cadeiras em relação a disputa de 2014 e o PRB duas vagas.

Outros partidos que elegeram deputados por São Paulo foram o DEM (5) e PSB (4). Com três eleitos, estão PSOL, PODE e NOVO. Os partidos MDB, PPS e PSD elegeram dois parlamentares; PV, PDT e PSC e Solidariedade elegeram um deputado cada.

Eduardo Bolsonaro (PSL) foi o deputado mais votado do estado e também do país, com 1,84 milhão de votos. São Paulo também elegeu a parlamentar mais idosa, Luiza Erundina (PSOL), que tem 84 anos e segue para o sexto mandato consecutivo. Entre os mais jovens, está Kim Kataguiri (DEM), coordenador do Movimento Brasil Livre, com 22 anos.

Mulheres

O estado de São Paulo elegeu 83% mais mulheres para a Câmara dos Deputados na eleição de ontem do que no pleito de 2014. Os paulistas elegeram no domingo 11 deputadas federais, ante 6, em 2014.

Considerando a quantidade de votos destinados às mulheres, o aumento foi ainda mais expressivo, de 221%: as candidatas eleitas deputadas federais por São Paulo receberam 2.640.477 votos. Quatro anos atrás foram 822.319 votos.

Na bancada paulista, Joice Hasselmann (PSL) foi a segunda mais votada, recebeu 1.078.666 votos, superada apenas por Eduardo Bolsonaro (PSL), com 1.843.735 votos. Eleita pela primeira vez, Hasselmann é jornalista, e tem passagem pela rádio CBN, BandNews FM, revista Veja e rádio Jovem Pan. Como ativista política, participou das manifestações contrárias ao governo Dilma Rousseff, em 2015 e 2016.

A segunda mulher mais votada na bancada paulista foi Tabata Amaral (PDT), de 24 anos, que obteve 264.450 votos. Tabata, também eleita pela primeira vez, é cientista política e atua na área da educação. Estudou nos Estados Unidos e é uma das fundadoras da organização social Mapa Educação, e do movimento político Acredito.

Paulistanos votam no colégio São Luís, em São Paulo.
Paulistanos votam no colégio São Luís, em São Paulo. – Marcelo Camargo/Agência Brasil

A policial militar Katia Sastre (PR) foi a terceira mulher a receber mais votos. Ela ficou conhecida por ter atirado e matado um ladrão em frente a uma escola em Suzano (SP) na presença de alunos, em maio. Sastre recebeu 264.013 votos e também foi eleita pela primeira vez.

Sâmia Bomfim (PSOL), a quarta mais votada, recebeu 249.887 votos, e foi eleita para um cargo legislativo pela segunda vez. Aos 29 anos, Sâmia foi vereadora da capital paulista e participa da Bancada Feminista do partido, onde também atuou Marielle Franco. Nas eleições de 2018, Sâmia participou da construção das manifestações “Mulheres unidas contra Bolsonaro”.

A quinta mulher mais votada em São Paulo foi Luiza Erundina (PSOL). A deputada federal, de 84 anos, foi reeleita com 176.883 votos. Erundina foi a primeira prefeita mulher (1989 –1992) da cidade de São Paulo, a maior cidade da América Latina. Ela irá ingressar em seu sexto mandato como deputada federal.

Bancada estadual

Alavancada pelos 2 milhões de votos da advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a bancada do PSL (partido do presidenciável Jair Bolsonaro) vai liderar a composição partidária na Assembleia Legislativa de São Paulo com 15 deputados eleitos, sendo que não teve nenhum representante eleito na última disputa de 2014.

Sem nunca ter ocupado um cargo legislativo, Janaína ganhou visibilidade durante o processo de impeachment. Ela é professora de Direito Penal da Universidade de São Paulo e chegou a ser cogitada para assumir como vice na chapa de Jair Bolsonaro no PSL, mas alegou questões pessoais para recusar o convite.

O PT, partido do presidenciável Fernando Haddad, mesmo perdendo quatro cadeiras da eleição de 2014 ficará com a segunda maior bancada com 10 deputados eleitos. Teonílio Monteiro da Costa, o Barba, foi o mais votado do partido com 91.394. Ele é sindicalista com atuação entre os metalúrgicos do ABC. A também sindicalista Maria Izabel Noronha, conhecida como Bebel, foi a segunda colocada da legenda com 87.169 votos. Ela presidiu o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

O cientista político Oswaldo de Amaral, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que a ascensão de partidos nanicos se deve ao fato de eles terem se apresentado como alternativa. “Partidos tradicionais como o MDB, antigo PMDB, o PSDB, o PT, em alguma medida o antigo PFL, atual DEM, e alguns outros como o PP formaram o centro do sistema partidário brasileiro nos últimos anos e todos eles tiveram envolvimento em graves denúncias de corrupção e isso gerou essa situação de rejeição”, apontou.

Amaral destaca, no entanto, que ainda não é possível defini-los como uma novidade no contexto político brasileiro. “Eu não sei se há novidade nesses partidos porque a gente não sabe muito o que eles pensam ou propõem. Como eles nunca governaram nada, é difícil porque não tem experiência passada para avaliar”, disse à Agência Brasil. Ele acrescentou que deve ocorrer um rearranjo nas forças políticas no país, mas que relações e negociações entre Executivo e Legislativo devem continuar ocorrendo, pois são próprio do modelo político brasileiro.

“Um candidato que se diga de fora da política, que quer romper com o mecanismo, ele vai ter que negociar, que construir uma base de apoio e essas bases de apoio são construídas a partir de uma série de fatores: ideológicos, programáticos, mas também a partir da distribuição de poder do próprio Executivo, por meio de cargos, de emendas. Eu acho pouco provável que você tenha uma prática política radicalmente diferente. Não acho que isso vá se alterar porque o sistema partidário brasileiro é muito fragmentado”, explicou.

Paulistanos votam no colégio São Luís, em São Paulo.
Colégio São Luís, em São Paulo – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Outros partidos no estado

O PSDB foi o partido que mais perdeu espaço na composição partidária, reduzindo sua bancada de 19 deputados eleitos em 2014 para 8. O partido, que é vitorioso nas eleições para governador desde 1995, perde espaço no estado. No segundo turno na eleição para o Executivo, disputam João Doria, do PSDB, e Márcio França, do PSB. O PSB também perdeu três representantes, ficando com uma bancada de oito parlamentares eleitos.

DEM passou de seis para sete deputados estaduais e elegeu o segundo mais bem votado no estado: o youtuber Arthur Mamãe Falei que recebeu 478.280 votos. Ele faz parte do Movimento Brasil Livre (MBL) e defende projetos como o Escola Sem Partido.

O PRB aumentou a bancada de cinco para seis deputados, o PSOL de três para quatro, o PR pulou de três para seis, PP de três para quatro e Podemos de um para quatro. O PSOL trouxe novidades para a Assembleia Legislativa de São Paulo, como a eleição de uma bancada coletiva. Nove ativistas se reuniram em uma mesma candidatura, representada nas urnas pela jornalista Mônica Seixas. Eles receberam 149.844 votos. O partido também elegeu a primeira mulher trans na assembleia paulista, Erica Malunguinho.

O PV passou de seis para um, o PTB caiu de três para dois, o MDB de quatro para três, o PSD reduzindo de quatro para dois, o PCdoB de dois para um e o PPS de quatro para dois perderam representantes, mas mantiveram representação política.

O Novo elegeu quatro representantes, assim como PHS, SD, REDE e PDT que passarão a ter representação partidária com um deputado eleito. PRP, DC PSL perderam seus únicos deputados eleitos em 2014. Patri, Pros e Avante mantiveram cada um seu único representante eleito nas eleições de 2014 e 2018.

Nove candidatos eleitos têm trajetória ligada ao tema da segurança pública, como Márcio Nakashima, do PDT, que é irmão da advogada Mércia Nakashima que foi, assassinada em 2010. O caso teve repercussão nacional por ter sido cometido pelo ex-namorado Mizael Bispo de Souza. O corpo dela foi encontrado em uma represa no interior de São Paulo. Márcio teve 38.081 votos. Os demais candidatos que abordam o tema da criminalidade levaram a patente – major, coronel, sargento, tenente – para as urnas.

O cientista político Oswaldo de Amaral destaca que a questão da segurança é um dos pontos programáticos trazidos por candidatos conservadores. “Muitos têm uma abordagem mais punitivista com relação ao controle da criminalidade. Há uma vinculação de algumas propostas e projetos, mas, sem dúvida, o motor central dessas votações foi a repulsa aos partidos tradicionais, a defesa de valores tradicionais e de combate à corrupção”.

Matária atualizada às 23h26 para ajuste de informações

Edição: Denise Griesinger

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