Manifestações pela paz marcam posse de Iván Duque na Colômbia

   “As estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”*. Mas isso não impede que travem uma batalha quixotesca em defesa de paz estável e duradoura. Assim, milhares de colombianos saíram às ruas de dezenas de cidades do mundo para exigir do presidente Iván Duque, empossado nesta terça-feira (7), respeito ao Acordo de Paz e garantia de segurança e liberdade política nesta nova Colômbia que deu fim aos 50 anos de guerra.

Mariana Serafini

Grupo de dança folclórica colombiana durante apresentação na capital paulistaGrupo de dança folclórica colombiana durante apresentação na capital paulista

A posse do presidente de extrema-direita foi marcada por imensas manifestações nas principais cidades da Colômbia. Os movimentos sociais pedem o fim da violência seletiva contra líderes políticos de esquerda que já causou mais de 140 mortes nos últimos meses no país.

Mas além da Colômbia, em dezenas de cidades mundo a fora, colombianos também foram às ruas para exigir paz e garantias de liberdade política e respeito à vida. É como se onde pulsassem dois corações em defesa de justiça, estes se unissem para fazer ecoar mais longe o pedido de socorro, de uma segunda chance.

As manifestações aconteceram em na Argentina, Uruguai, México, Alemanha, França, Canadá, Estados Unidos, Espanha, Lisboa, Bélgica, entre outros países. No Brasil, a comunidade colombiana se reuniu em São Paulo, na Avenida Paulista, e aproveitou a ocasião para conversar com as pessoas que paravam para ler os cartazes e observar a música e a dança dos grupos folclóricos.

O palco da manifestação foi o vão livre do Masp, no coração do centro financeiro do país, que durante algumas horas serviu de ponto de apoio para denunciar a violência que assola a Colômbia. Estiveram presentes intelectuais e ativistas em defesa dos direitos humanos.

Desde de que o Acordo de Paz foi assinado, as Farc (ex-guerrilha convertida em partido politico) se desmobilizaram e cumpriram todas as etapas exigidas para seus membros se integrarem à vida civil. Porém, o Estado não vem cumprindo sua parte do tratado e o crime organizado se fortalece principalmente nas regiões antes dominadas pela guerrilha.

Este cenário amplia a vulnerabilidade de líderes sociais que são verdadeiros alvos móveis dos paramilitares. Só nos últimos meses, mais de 140 líderes foram assassinados, muitos deles foram torturados e tiveram seus corpos exibidos nas comunidades locais, a fim de instalar o pânico.


A manifestação em SP foi marcada por atividades culturais

Duque chegou ao Palácio de Nariño com um discurso de ódio que coloca em risco o acordo de paz e as negociações com o ELN (Exército de Libertação Nacional – última guerrilha ativa da Colômbia). No entanto, na cerimônia de posse ontem, citou os ciclos de diálogo e afirmou que nos próximos dias vai avaliar “de forma responsável, prudente e completa o processo de conversações” com o grupo armado.

Garantiu também que seu governo vai se reunir com a ONU, a Igreja Católica e os países que apoiaram os diálogos de paz com as Farc para fazer um balanço do processo até aqui.

Ainda que o tom do discurso tenha sido mais ameno contra as organizações sociais e os esforços de estabelecer a paz, tudo que foi conquistado até agora está em risco. Duque é o pupilo de Álvaro Uribe, ex-presidente cujo mandato foi marcado pela maior onda de violência e perseguição contra a esquerda, e esta ameaça paira novamente sobre o país.

Vale destacar, no entanto que o Acordo de Paz teve um impacto muito positivo nas últimas eleições presidenciais da Colômbia porque com o fim da guerra as pessoas se sentiram confiantes para apostar numa mudança real do quadro político. Pela primeira vez um candidato de esquerda, neste caso Gustavo Petro, obteve tantos votos. Foram mais de 8 milhões de colombianos que ousaram dar um basta ao sistema “café com leite” de liberais e conversadores que dominam o país há décadas.

Este crescimento da esquerda se refletiu também no parlamento, onde aumentou o número de deputados e senadores progressistas e estes vão usar as mobilizações de massa como principal arma para pressionar Duque. As estirpes condenadas estão em pé para exigir esta segunda chance sobre a terra.

*Trecho de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

Do Portal Vermelho

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