MARCÍLIO FELIPPE: “RELIGIÃO, ESTADO E CULTURA”

Compartilhe


O fenômeno religioso é entendido como matriz da cultura; visão de mundo que propicia o primeiro esboço de modos de convívio, que é o autêntico rascunho de futuras sociedades. A piedade e a oração estão presentes no costume e precedem qualquer formulação de seu objeto. São moldadas pelas necessidades de um comunidade, que por sua vez, também a moldam.
A crença religiosa pode ser vaga e obscura, mas a cerimônia religiosa e a conduta piedosa são sempre meticulosas. Maomé abordou esse fato com uma percepção sagaz. Entendeu que sua nova religião precisaria ser vinculada a cerimônias precisas, gestos repetíveis, horas e lugares sagrados, se quisesse ganhar o coração de seus seguidores.
Essas palavras foram retirados do livro de Roger Scruton, “Uma Filosofia Política”, que dá destaque a união desses três elementos “Religião, Estado e Cultura” na formação das sociedades. Nunca na história da humanidade houve um número tão grande de imigrantes, se deslocando para Estados nacionais, carregando costumes, cultura e religião na esperança de encontrar uma cidadania que lhes dê paz, lei e estabilidade que prevalecem em outras terras, e inexistem em seus locais de origem.
Fronteiras abertas, conflitos a vista. Etnias, cores e religiosidades adversas. O Ocidente se esqueceu que o Oriente ainda existe. Uma civilização não se funda num mero acordo comum para a preservação de liberdades. Mas o próprio fato de que certas liberdades fundamentais sejam legitimadas e preservadas depende de valores ainda mais fundamentais, em conceitos de dignidade e de direitos invioláveis, mas também de deveres sagrados.
Isso não é o Estado que garante, de maneira alguma. É a base moral da sociedade, assentada primordialmente sobre os preceitos da religião. Como põe o historiador inglês Dawson: não é a civilização que forma a religião, mas justamente o oposto. Uma economia de livre mercado é um instrumento legítimo e valoroso para a geração de bem estar e progresso material.
Mas sem o sustento de uma cultura que preze pela caridade, pela prática da virtude, pelo cultivo da sabedoria, pelo respeito à vida e pela assistência aos inaptos e necessitados, cedo degenera a sociedade em uma criatura débil, histérica e rancorosa, cada vez mais vulnerável ao paroxismo das revoluções.
Ainda há aqueles que em nada acreditam e afirmam que a existência de Deus é indemonstrável, sabem dizer que as religiões baseiam-se todas em critérios subjetivos de fé, sabem o que é a moralidade, sobre que fundamentos se assenta, se é importante ou não, tudo isso sem sequer se dar o trabalho de estudar seriamente qualquer um desses assuntos.
Ainda há o ideal laicista que afastar todo tipo de defesa racional, manifestação social ou reinvindicação de interferir na ordem pública – lembrando que sem interferência na ordem pública as religiões são, com todo o rigor, estéreis – por parte dos grupos religiosos, e taxam todos àqueles que o fazem imediatamente de fanáticos.
Fala-se muito que não há necessidade da religião para a moralidade, que a própria natureza (veja só, esta mesma natureza que age totalmente às cegas, ao acaso, e que de forma não menos definida nos dota dos instintos mais destrutivos) “aconteceu” de nos dar sentimentos morais, que devem ser nosso único guia em nossas mais graves decisões. A religião nos dá o norte ético.
De qualquer modo, um fato histórico básico é que, antes do advento do Cristianismo, o que havia mais próximo de uma moral que abarcava universalmente a espécie humana eram a moral estoica e a admissão de povos conquistados como cidadãos romanos. Antes do Cristianismo, não há direitos humanos universais e invioláveis. Não há sequer uma noção de liberdade individual que deva ser preservada, embora os gregos já tateassem, conceitualmente, nessa área.
Uma observação sobre o nosso sistema jurídico: já reparou que no proêmio à nossa Constituição é invocada a proteção de Deus? Isso não é uma violação da laicidade do Estado, mas tão-somente a indicação de que a República brasileira tem, em seu fundamento, essa abertura para o absoluto, que se funda sobre princípios sólidos e firmes.
Não é à toa que os pensadores cristãos, seguindo nisso São Paulo, afirmam que Deus pode ser conhecido neste mundo, através das suas criaturas, não diretamente face a face, mas através do mero exercício da razão – e não se engane: é a mesma razão que justifica a nossa confiança na Ciência – ou em sua possibilidade – mas no entanto, não se identifica com ela, é mais geral e abrangente do que ela, de forma absolutamente independente.
E mesmo os pensadores laicistas do século XVIII, para falar em princípios morais (os mesmos que fundamentam os Estados modernos), referem-se à necessidade da “religião natural”. No entanto, ela conseguiu de fato estruturar a ordem social e cultural de âmbito internacional que veio se chamar “Cristandade”.
E essa Cristandade que foi a mais extraordinária, próspera, culta, moralizada e espiritualizada que já fincou raízes sobre a Terra, além de ter divulgado a caridade, preservado e enriquecido a cultura clássica, inspirado e ajudado a consolidar todas as instituições que hoje tomamos como parte integrante dos regimes democráticos, proclamado o primeiro conjunto coerente de leis, precipitado o fim do feudalismo, espalhado escolas, hospitais, joias da arquitetura, da literatura, da música e das artes plásticas por toda a Europa.
Foi a Igreja e não outra instituição que criou os primeiros centros de ensino superior, fornecido desde dentro de seus próprios quadros gênios do pensamento filosófico, os pais do direito internacional, os pioneiros da Ciência Empírica, grandes nomes em todas as áreas da ciência, inclusive inaugurando algumas delas, como a economia e a geologia.
Tudo isso sobre um quadro de caos generalizado que tomou conta da Europa com a dominação bárbara. A Igreja pegou alguns bandos de bárbaros sanguinários e transformou-os nas maiores nações do mundo. Quem deveria preservar esse legado, são justamente os que hoje, estão queimando Igrejas pelo mundo. É a volta dos bárbaros, destruindo a Religião, o Estado e a Cultura.


MARCILIO PASCOAL FELIPPE-*

NATURAL DE SÃO PAULO – RESIDE EM TUPÃ SP-

IDADE 65 ANOS.

Bacharel em Jornalismo, pela Faculdade FACCAT de Tupã.

Jornalista Profissional devidamente registrado no Ministério do Trabalho sob número 0085309/SP

É Técnico de Planejamento e Gestão de Informações, na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, tendo ingressado na instituição em 1980.

Desenvolveu trabalhos na área de coleta de dados, tendo participado ativamente em nove campanhas censitárias, como supervisor e Coordenador de Área.

Trabalhou na Base Territorial do IBGE de São Paulo, na atualização de mapas e acertos de limites territoriais municipais e distritais, em convênio com o IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).

Participa ativamente de execução de projetos de pesquisas sociais, demográficas e econômicas, ministrando treinamentos e acompanhando os trabalhos de coleta de campo como supervisor.

Palestrante em escolas públicas estaduais, para estudantes de ensino médio, abordando temas como a cartografia, geografia, pesquisas e mapas.

 


Compartilhe

Comente

Seu email não será publicado. Campos marcados são obrigatórios *

*