Marília tem 2º maior índice de suicídio no estado. Mas, de cada 10 em risco, 9 se salvam, diz psicóloga

Suicídio é crescente, mas só atinge
10% das vítimas sob risco iminente

Fonte : Jornal Cidade

Ana Gláucia Lima/foto©jornal cidade

O suicídio deve sim ser um tema a ser falado livremente, mas não da forma que é mais explorada pela mídia e pela Internet, diz psicóloga mariliense

Ana Gláucia Lima, psicóloga mariliense, destaca que falar sobre suicídio e estar alerta para os pequenos sinais da pessoa ao lado que podem indicar uma situação de vítima sob risco iminente ou de estado potencial de risco de se deixar levar por ideários suicidas ou ideias reducionistas, que podem conduzir a atos de autolesão ou ações intencionais de matar a si mesmo.
“Não existe sinais claros, fórmulas ou prescrições para se saber quem é um ou quem não é um suicida, mas a infelicidade pode ser percebida por qualquer um e estar próximo da pessoa amada ou querida é a principal e primeira medida que qualquer um pode fazer para se evitar o suicídio, é ouvir, olhar, conviver, um ato simples mas que vem se tornando cada vez mais caro na sociedade estressante, globalizada e interligada pela Internet e redes sociais”, enfatizou a psicóloga.
O suicídio cresce em todo o mundo, inclusive na região de Marília, na qual o município e suas cidades vizinhas apresentam o segundo maior índice do Estado de São Paulo, de 8,6 mortes por suicídio para cada 100 mil habitantes, perdendo apenas para a região Central, de Araraquara, com 8,7/100 mil.
Um dado aferido no biênio de 2013/2014 através de uma pesquisa inédita da Fundação Seade, que analisou o aumento crescente deste tipo de morte, classificada como um problema de saúde pública, que promove a redução da expectativa de vida da população vinculada a meios externos, no caso psicológicos.

ESTUDO INÉDITO – O Estudo da Seade, entretanto, contextualiza que o interior paulista como um todo apresenta maior incidência do que no litoral, mas que o Estado de São Paulo não é o mais grave, sendo Santa Catarina o Estado com mais mortes no Brasil. Já o Brasil é um dos países com menor índice de suicídio. Países europeus apresentam índices de 20 a 40 mortes por suicídio para cada 100 mil habitantes.
Para a psicóloga, a quantidade de mortes por suicídio em uma região não é parâmetro adequado para se aferir o problema.
“Se for para colocar em números, estamos vencendo a luta contra as ideias reducionistas e suicidas como alternativa para se por fim ao sofrimento.
De cada 10 suicidas, nove conseguem se salvar, nem chegar ao ato e ou se curar ou controlar. Destes, nove possuem uma psicopatologia associada, quando não um comportamento prejudicial vinculado junto, como álcool ou drogas, todos passíveis de serem tratados pela ciência, medicina e psicologia. Apenas 10% não conseguimos curar a tempo”, declarou.
Para ela, o crescimento atípico do suicídio é fruto do uso de novas tecnologias para disseminar as ideias e apologias sobre a morte, criadas por pessoas com psicopatologias ou com intenções filosóficas ou políticas extremistas. “Existe uma verdadeira indústria da morte, que se aproveitam dos que sofrem, dos que não sabem lidar com suas emoções e seus sofrimentos, e incentivam ou disseminam ideias que por si só podem sugerir a automutilação e o suicídio. O combate é o tratamento, é o médico, o psicólogo, mas é primeiro a relação humana. As pessoas não podem ficar sozinhas e estão cada vez mais sozinhas. Elas precisam do outro e nesta relação
qualquer distúrbio, tristeza que não passa por semanas, serve de indicativo para se analisar.
Só um profissional da área de saúde saberá dizer o que é uma melancolia ou tristeza passageira
de um estado crônico de tristeza, depressão que pode levar a ideias de morte e suicídio.”

DOENÇA VERSUS ESPETÁCULO – Para ela, a mídia precisa inverter a forma, o como trata o suicídio. Quando uma pessoa é encontrada morta, com indícios de suicídio, é preciso relembrar a todos que outras nove conseguiram se livrar, se curar ou estão lutando para evitar este ato incontrolável de querer por fim à vida.
“É um problema de saúde, não de caráter ou de personalidade, onde todos podem ser vítimas e todos podem ser curados, mas a sociedade não consegue oferecer esta cura a todos e a Internet e as relações humanas, bem como a tecnologia que leva informação a todos, ajuda a atrapalhar tudo isso. ”
Quem quiser conhecer mais sobre o inédito senso demográfico sobre a morte por suicídio no Estado de São Paulo, que busca apenas oferecer subsídios para políticas públicas de combate ao problema social paulista, deve buscar na Web a resenha Mortalidade Por Suicídio No Estado De São Paulo, de setembro de 2016, da Fundação Seade. Além de descrever o perfil demográfico do suicídio no Estado aponta ações necessárias para ajudar quem está com ideias reducionistas a
aprender a lidar com as emoções negativas e até as psicopatologias mais associadas, como a depressão, a ansiedade, bipolaridade e o uso de drogas e álcool.
“Marília conta com ótimos profissionais especializados no suicídio, grupos de pacientes e até grupos de familiares que tiveram parentes vitimados pelo suicídio mas o tema deve ser amplamente discutido de forma correta, como a própria Organização Mundial de Saúde preconiza, mas como saúde pública e não como espetáculo midiático da tragédia humana. É uma doença e não um desvio de conduta.”

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