Mulheres em fuga da Arábia Saudita  

Imagem relacionada
Rahaf al-Qunun

A ca­minho da Aus­trália, a jovem sau­dita Rahaf al-Qunun foi de­tida pela po­lícia do ae­ro­porto de Bangkok, Tai­lândia, sendo seu pas­sa­porte con­fis­cado por um membro da em­bai­xada do seu país. Ela de­clarou estar fu­gindo das vi­o­lên­cias bru­tais pra­ti­cados por sua fa­mília de­pois de ter cor­tado seu ca­belo bem curto, o que é um pe­cado mortal para o Islã ra­dical.

Criou-se um caso in­ter­na­ci­onal e, apesar dos es­forços do go­verno sau­dita, Rahaf acabou ga­nhando status de re­fu­giada pelo go­verno do Ca­nadá e pôde con­ti­nuar sua vi­agem.

O chefe da So­ci­e­dade Na­ci­onal por Di­reitos Hu­manos, criada pelo go­verno sau­dita, mos­trou-se “sur­preso porque al­gumas na­ções in­ci­tavam al­guma ‘mu­lheres de­lin­quentes sau­ditas’ a se re­belar contra os va­lores da fa­mília”.

Pa­rece que esses va­lores são ques­ti­o­nados pelas mu­lheres que aquela ho­no­ra­bile so­cietá chama de de­lin­quentes.

Apenas al­guns dias de­pois, outra jovem sau­dita, Njoub al-Man­deel, também fugiu de casa, es­con­dendo-se na casa de amigos.

Num vídeo, que logo vi­ra­lizou nas mí­dias so­ciais, ela re­velou: “estou so­frendo de abusos fí­sico e se­xual nas mãos do meu pai. Hoje ele me ame­açou de me jogar no fogo”.

O pro­cu­rador-geral as­sumiu a questão e afirmou que iria in­ves­tigar e agir rá­pido (acre­dite quem quiser).

Foi uma pos­tura que con­tradiz os an­te­ri­ores pro­ce­di­mentos sau­ditas em casos si­mi­lares.

Fugas são co­muns

Em abril de 2017, em Ma­nila, Fi­li­pinas, três ci­da­dãos sau­ditas, sob olhares com­pla­centes das au­to­ri­dades lo­cais, for­çaram a jovem Dina Ali Las­loon a em­barcar num avião de volta a Riad, de onde ela fu­gira por so­frer bar­ba­ri­dades nas mãos de fa­mi­li­ares.

No mês se­guinte, a his­tória se re­petiu. As gê­meas Ashwaq e Arij Ha­moud vi­a­jaram para a Tur­quia em busca de asilo. Fu­giam de abusos fí­sicos e por serem tra­tadas como es­cravas. Aten­dendo a so­li­ci­tação fa­mi­liar, en­dos­sado pelo em­bai­xador sau­dita, os turcos as de­vol­veram a seu não pro­pri­a­mente doce lar.

Estas são apenas as fugas mais re­centes. Es­tima-se que, até hoje, já acon­te­ceram mais de mil (Middle East Eye de 14-1-2019).

As pro­ta­go­nistas de­mons­traram grande co­ragem, pois fugir de lares, onde vi­o­lência e abusos são pra­ti­cados por fa­mi­li­ares, é crime na Arábia Sau­dita. Pu­nido com de­tenção, de acordo com in­ter­pre­tação es­trita da Sharia (có­digo de leis is­lâ­micas, de 1400 anos atrás) hoje só é ob­ser­vada pelas seitas mais ex­tre­mistas.

Esta pena não destoa do que so­frem as mu­lheres da Arábia Sau­dita, pois lá elas são con­si­de­radas ci­dadãs de se­gunda classe.

O re­la­tório De­si­gual­dade de Sexos Global, de 2016, do Fórum Econô­mico Mun­dial, clas­si­ficou o reino do de­serto num des­con­for­tável 141º, em um total de 145 países.

Um dos mo­tivos desta per­for­mance é cer­ta­mente o Sis­tema de Guar­diães.
Esse sis­tema mi­lenar es­ta­be­lece que, para uma série de de­ci­sões do dia a dia, como casar, es­tudar, obter um em­prego, re­ceber tra­ta­mento mé­dico e vi­ajar, a mu­lher pre­cisa ser au­to­ri­zada por seu guar­dião, o qual pode ser o pai, irmão, o ma­rido ou até mesmo um filho (The Guar­dian, 22-5-2018).

A mu­lher é con­si­de­rada uma pessoa re­la­ti­va­mente in­capaz, como se fosse um menor de idade. Al­guém sem di­reito de levar uma vida autô­noma, pois tem de se sub­meter ao ar­bí­trio do seu guar­dião, que dispõe de au­to­ri­dade ab­so­luta sobre ela. Caso de­so­be­deça a ele, a mu­lher sau­dita está su­jeita a de­tenção.

De­pois de presa por esta ou outra razão, ela só pode ser li­ber­tada de­pois da au­to­ri­zação do seu pai ou do guar­dião.

Diz o New York Times que a mu­lher sau­dita não tem ga­ran­tido um jul­ga­mento justo. As suas tes­te­mu­nhas tem me­tade do valor das tes­te­mu­nhas de um homem.

A se­gre­gação é regra no trans­porte pú­blico, par­ques, pis­cinas, praias e par­ques de di­versão, na maior parte do país. Con­si­dera-se ilegal a mis­tura de sexos, tanto o homem quanto a mu­lher in­fra­tores podem ser pro­ces­sados, mas as penas mais duras cos­tumam ser apli­cadas no cha­mado sexo fraco.

Nos di­vór­cios, elas, são, em geral, pre­ju­di­cadas por juízes que aqui cha­ma­ríamos de ma­chistas, mas lá apenas estão res­pei­tando mi­le­nares tra­di­ções.

Em 2013, o go­verno lem­brou-se de que mu­lheres também são suas sú­ditas e pro­mulgou leis cri­mi­na­li­zando a vi­o­lência se­xual. Ma­ra­vilha!

Claro, havia ex­ce­ções: a vi­o­lência tinha de ser exa­ge­rada e in­jus­ti­fi­cada. Ou seja, o homem pode dar uns tapas na mu­lher, desde que não a ma­chuque… Muito. No en­tanto, não se fala em crime se a es­posa tiver me­re­cido o cor­re­tivo, ainda que mais se­vero.

Seja como for, foi um avanço.

In­fe­liz­mente, os juízes, muito ape­gados a prin­cí­pios pa­tri­ar­cais an­te­ri­ores à Idade Média, quase sempre aplicam penas pouco se­veras nos in­fra­tores. Em geral, apenas pe­cu­niá­rias.

Essa par­ci­a­li­dade fre­quente no jul­ga­mento de atritos entre homem e mu­lher, causou um pro­blema in­ter­na­ci­onal para o reino sau­dita.

O go­verno in­do­nésio fez um pro­testo ofi­cial pela exe­cução, em 29 de ou­tubro de 2018, de Tuti Tur­si­lawati, uma tra­ba­lha­dora mi­grante ci­dadã da In­do­nésia.

Ela foi con­de­nada por ter as­sas­si­nado seu pa­trão, em au­to­de­fesa, con­forme alegou, já que es­tava sendo abu­sada se­xu­al­mente por ele. (Fe­mi­nist Newswire, 5-11-2018)

Falsas con­ces­sões do dés­pota

En­fren­tando os cos­tumes e re­gras tra­di­ci­o­nais de uma so­ci­e­dade re­tró­grada e to­tal­mente sub­me­tida ao poder real, as fe­mi­nistas sau­ditas fazem o que podem em de­fesa da sua causa.

Quando o prín­cipe Mohamed bin-Salman, go­ver­nante efe­tivo do reino, anun­ciou um plano de mo­der­ni­zação e hu­ma­ni­zação da Arábia Sau­dita, as coisas pa­re­ciam que iam mudar.

De fato, ele não de­morou muito para re­vogar a proi­bição de mu­lheres di­ri­girem carros.

Era uma luta an­tiga das fe­mi­nistas sau­ditas, a de­cisão prin­ci­pesca foi sau­dada com enorme en­tu­si­asmo pelas in­te­grantes do mo­vi­mento. Mas o prín­cipe in­siste em ter o papel prin­cipal, aliás único, nos avanços re­for­mistas.

Como não quer com­par­ti­lhar seu pa­lanque, Mohamed bin Salman (MBS, para os amigos) passou a tratar as fe­mi­nistas como ini­migas. Ainda mais porque essas re­beldes ousam atacar o Sis­tema de Guar­diães, tão caro à fa­mília real.

Em maio de 2018, pouco antes do anúncio ofi­cial do fim da proi­bição das mu­lheres di­ri­girem, as forças de se­gu­rança sau­ditas pren­deram 10 das mais co­nhe­cidas ati­vistas. A ex­pli­cação po­li­cial é que, não con­tentes em manter con­tatos com en­ti­dades es­tran­geiras sus­peitas, ainda ofe­re­ciam apoio fi­nan­ceiro a ini­migos d’além mar. De­pois da pri­meira onda, as pri­sões pros­se­guiram.

Diz o Human Rights Watch que atin­giram 17 fe­mi­nistas, todas com grande par­ti­ci­pação em cam­pa­nhas pelos di­reitos hu­manos em seu pron­tuário. Al­gumas fi­caram atrás das grades por 100 dias, ou­tras ali per­ma­ne­ceram por tempo in­de­fi­nido.

Num re­la­tório de no­vembro de 2018, a Anistia In­ter­na­ci­onal de­nun­ciou que vá­rias ati­vistas de­tidas na prisão Dhaban so­freram es­tu­pros, tor­turas e ou­tras ações vi­o­lentas, du­rante in­ter­ro­ga­tó­rios a que foram sub­me­tidas.

Três dessas mu­lheres tes­te­mu­nharam à Anistia que seus al­gozes as açoi­taram e lhes apli­caram ele­tro­cho­ques, dei­xando al­gumas in­ca­pazes de an­darem ou fi­carem de pé. Uma outra foi pen­du­rada do teto pelo pes­coço.

Houve quem ten­tasse o sui­cídio, em de­ses­pero di­ante dos bru­tais so­fri­mentos que lhe eram in­fli­gidos.

O que, talvez, pro­vocou o maior choque na opi­nião pú­blica, foi a pena de morte, pe­dida pela pro­cu­ra­doria de jus­tiça, para a jovem fe­mi­nista Israa al-Ghonghan, cul­pada (ima­gine!) de ati­vismo pa­ci­fista.

Se­gundo o pe­dido, par­ti­cipar de pro­testos, cantar slo­gans hostis ao re­gime, tentar in­flu­en­ciar a opi­nião pú­blica, filmar ma­ni­fes­ta­ções de pro­testo e pu­blicar na mídia so­cial se­riam crimes gra­vís­simos, cla­mando pela morte da au­tora (The Guar­dian, 22-8-2018).

As pers­pec­tivas de con­de­nação da jovem sau­dita à pena ca­pital eram bas­tante som­brias. No en­tanto, pos­si­vel­mente di­ante do as­sas­si­nato do jor­na­lista Kashoggi ter jo­gado no es­goto a já baixa imagem in­ter­na­ci­onal sau­dita, Issa al-Ghomgham es­capou do ca­da­falso.

Con­si­dera-se que, por in­fluência desse brutal evento, o reino do de­serto tende a ame­nizar o modo com que suas mu­lheres são tra­tadas.

Graças à in­ternet, elas estão cada vez mais co­nhe­cendo e in­ve­jando o status das mu­lheres no mundo mo­derno.

A com­pa­ração com as vi­o­lên­cias e dis­cri­mi­na­ções, que al­gumas têm de amargar até em casa, es­ti­mula sua co­ragem para buscar uma vida me­lhor fora do seu país.

Comente

Seu email não será publicado. Campos marcados são obrigatórios *

*