“Não vamos abandonar a nossa terra”, diz embaixador palestino  

“A violência não resolve, ela só gera mais violência, vítimas, sofrimento e rancores.

Nós vamos abandonar o nosso direito. Eles podem esperar sentados.

A Palestina já teve 56 invasores antes.

Todos eles tiveram que sair”, afirmou o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzebem ao serentrevisatdo por Marco Weissheimer, do Sul21.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 Ibrahim Alzeben: “Os que cometeram crimes contra o povo palestino serão levados a tribunais internacionais”.

Ibrahim Alzeben: “Os que cometeram crimes contra o povo palestino serão levados a tribunais internacionais”.
A morte de 59 pessoas na véspera da Nakba, data em que os palestinos lembram o dia em que foram expulsos de suas terras após a criação do Estado de Israel em 1948, representou um fato corriqueiro na vida do povo palestino nas últimas décadas. “Trata-se de uma renovação, de um testemunho vivo do que o povo palestino vem vivendo nestes 70 anos, desde 1948 até o dia de hoje”, disse o embaixador do Estado da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, ao comentar o resultado trágico de mais um dia de protestos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel.

Em entrevista ao Sul21, Ibrahim Alzeben falou sobre essa realidade e sobre o significado da decisão dos Estados Unidos de transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém. Segundo ele, com essa medida, os Estados Unidos deixam “cair a máscara” e assumem sua posição de apoiadores da ocupação militar da Palestina. “Os Estados Unidos sempre quiseram aparentar uma postura de mediador e de um parceiro para a paz. Com a transferência de sua embaixada para Jerusalém demonstra que é um aliado indiscutível dos israelenses, aliado e apoiador da ocupação militar”. Ao lamentar a morte de 59 palestinos na segunda-feira e “dos outros milhares de palestinos que caíram ao longo desta caminhada pela libertação”, ele assegurou: “Seguiremos resistindo. É um momento para reafirmar a nossa resistência. Nós nos negamos a desaparecer. Essa terra é nossa. Vivemos nela há mais de 10 mil anos e não vamos abandoná-la”.

Sul21: A passagem dos 70 anos da Nakba, neste dia 15 de maio, foi precedida por um massacre que deixou mais de 50 palestinos mortos e centenas de feridos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. Como o senhor descreveria o presente vivido pela população palestina e como a decisão dos Estados Unidos de transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém pode impactar essa realidade?

Ibrahim Alzeben: Em primeiro lugar, o fato de que o povo palestino saia em massa às ruas e às fronteiras mostra que ele não esquece de seus direitos ao retorno e à criação do Estado palestino independente. O fato disso resultar em tantas pessoas assassinadas e feridas é um reflexo da natureza do inimigo que estamos enfrentando ao longo de 70 anos. Trata-se de uma renovação, de um testemunho vivo do que o povo palestino vem vivendo nestes 70 anos, desde 1948 até o dia de hoje. Massacres como este são episódios que se repetem. Nunca cessaram em nenhum momento. No passado, não existia meios de comunicação como hoje, o que não permitiu relatar e mostrar tudo o que aconteceu de 1948 até hoje. Para mim, esse é um dia normal na vida do povo palestino ao longo dos últimos 70 anos de confronto contra os usurpadores do nosso direito.

Esse novo massacre coincidiu também com uma atitude descarada dos Estados Unidos que sempre quis aparentar uma postura de mediador e de um parceiro para a paz. Com a transferência de sua embaixada para Jerusalém demonstra que é um aliado indiscutível dos israelenses, aliado e apoiador da ocupação militar. Com essa decisão caíram as máscaras desta superpotência que decidiu sair de sua condição de mediador para se aliar à ocupação, instalando, dentro do território palestino ocupado a sede de sua embaixada. Já não bastava a ocupação israelense, agora temos também o início de uma colonização americana do território palestino.

Para nós é um momento muito triste. Lamentamos a morte destes 59 palestinos e dos outros milhares de palestinos que caíram ao longo desta caminhada pela libertação, mas seguiremos resistindo. É um momento para reafirmar a nossa resistência. Nós nos negamos a desaparecer. Essa terra é nossa. Vivemos nela há mais de 10 mil anos e não vamos abandoná-la. É esse o sentimento que vemos em Gaza, na Cisjordânia e também em Jerusalém. É uma demonstração de que não mudamos de opinião, seguimos resistindo. Lamentavelmente, o outro lado não muda de estratégia nem de método e segue massacrando, assassinando e cometendo crimes.

Com decisões como esta da transferência da embaixada norte-americana para Jerusalém, resta ainda algum espaço de negociação, em nível governamental, entre palestinos e israelenses?

Nós consideramos que a negociação é o único caminho para resolver esse conflito que se arrasta desde 1947 até os dias de hoje. O mundo decidiu, em 1947, dividir o território em dois estados, para dois povos. Ainda acreditamos que esta é a solução. O fato de que exista hoje, na cúpula governamental israelense, uma casta política que não acredita na paz e na negociação, não quer dizer que vamos seguir essa mesma postura. Vamos seguir trabalhando. Obviamente, esse trabalho vai alcançar agora outros níveis, especialmente o das agências internacionais. Os que cometeram crimes contra o povo palestino serão levados a tribunais internacionais.

Na sua avaliação, esses acontecimentos dos últimos dias podem levar a um agravamento ainda maior da situação de violência na região?

“Queremos Israel como bom vizinho e não como ocupante”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Ibrahim Alzeben: Esperamos que não, mas não abrimos não da nossa resistência pacífica popular. Temos direito a nos manifestar pacificamente e dizer não à ocupação. Queremos Israel como bom vizinho e não como ocupante. Essa resistência vai prosseguir e aumentar. Não sabemos qual será a resposta do outro lado. Conhecendo nosso vizinho, acredito que reagirá com mais violência, pretendendo, com isso, calar as nossas vozes.

Eles não aprenderam com a história. A violência não acaba com o direito. Ela pode acabar com um ser humano, dois, cem ou cem mil. A Segunda Guerra Mundial custou a vida de mais de 40 milhões de seres humanos. A humanidade, o direito e a democracia, porém, não acabaram. As reivindicações não acabaram. A violência não resolve, ela só gera mais violência, vítimas, sofrimento e rancores. Nós vamos abandonar o nosso direito. Eles podem esperar sentados. A Palestina já teve 56 invasores antes. Todos eles tiveram que sair. No resto do mundo, o colonialismo já não é mais uma forma de tratamento entre nações. Isso já acabou na África e na Ásia. O último caso de colonialismo é na Palestina. E vai acabar também.

Qual é a realidade da vida econômica dos palestinos hoje nos territórios ocupados? As autoridades palestinas vêm denunciando a implementação de vários mecanismos, por parte de Israel, de asfixia da economia palestina. Qual é a situação, hoje?

Somos um país agrícola, por excelência, e também de serviços. Perdemos, anualmente, cerca de 74 do nosso Produto Interno Bruto por causa da ocupação. Não conseguimos enviar nossos produtos para o exterior livremente, porque precisamos passar por controles israelenses. Também não conseguimos importar mercadorias sem que elas passem também por controles israelenses. Além disso, o bloqueio à Faixa de Gaza compromete todos os aspectos da vida. Temos altos níveis de desemprego. Em Gaza, chega a 64% das forças laborais. Na Cisjordânia, chega à casa dos 32%. Como país agrícola, não temos controle sobre as nossas terras para poder produzir.

Quais as conseqüências práticas disso? Poderia citar um exemplo?

“Não controlamos absolutamente nada de nossas fontes de água”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Ibrahim Alzeben: Em outubro, por exemplo, nós temos a safra das oliveiras, que representam uma de nossas fontes de riqueza. Em muitas ocasiões, não conseguimos fazer a colheita no momento certo, o que significa perder a safra. Há assentamentos de colonos israelenses em território palestino, apoiados pelo exército, que atacam os camponeses no momento em que estão fazendo a colheita e acabam roubando-a ou queimando os cultivos de oliveiras. Isso já aconteceu muitas vezes.

Outra de nossas fontes de riqueza é o turismo, que está comprometido pela quantidade de check-points e barreiras que impedem a livre circulação de turistas. Além disso, há uma sabotagem dos israelenses que procuram levar os turistas para o seu território e impedir que fiquem alojados em território palestino ou que comprem dos palestinos. Na prática, eles consideram, lamentavelmente, que não somos gente.

E como está a disputa pelo controle das fontes de água?

Não controlamos absolutamente nada das nossas fontes de água. Nós denunciamos essa situação no 8° Fórum Mundial da Água, realizado recentemente em Brasília. Os israelenses controlam os nossos aquíferos, roubam a nossa água e nos vendem ela de volta. E mesmo pagando temos uma cesso limitado à água. Nós vivemos em um país ocupado militarmente e nossos direitos vêm sendo negados ao longo destes 70 anos.

Há dois fatos que andam juntos: ocupação e resistência. Não abrimos mão dos nossos direitos. A teoria deles é que, com o passar do tempo, iríamos deixar a resistência de lado e esquecer tudo o que aconteceu. Mas não é isso o que ocorreu. Nos negamos a aceitar essa situação de injustiça e essa vida de refugiados. Quem está resistindo à ocupação agora são jovens que já nasceram sob ocupação militar.

Qual o estágio atual das relações entre a Palestina e o Brasil?

Essas relações hoje se dão mais no plano político que econômico. Nós ainda não somos um país independente, embora no âmbito político exista um reconhecimento pleno do Estado palestino. Temos uma embaixada no território brasileiro com plenos direitos diplomáticos. E o Brasil tem um escritório em nível de embaixada, na Palestina. Nos últimos anos houve uma troca importante de terrenos. O Brasil ofereceu um terreno para construir a embaixada da Palestina e nós oferecemos um terreno para o Brasil. Houve uma troca baseada na reciprocidade. Além disso, o Brasil apoia alguns projetos nossos nas áreas de saúde, esporte e educação. Já assinamos sete acordos em sete esferas importantes envolvendo as áreas da educação, turismo e cultura, entre outras.

Fonte; Sul21

Comente

Seu email não será publicado. Campos marcados são obrigatórios *

*