Nova direita é chucra, mas não é burra, afirmam Kelli Maffort e Esther Solano

Na moda, a aliança entre uma agressiva agenda neoliberal e um fundamentalismo moralista aposta em um discurso chucro. Foi assim que Jair Bolsonaro, equipado com uma verdadeira usina virtual de fake news, emplacou sua mensagem e terminou 2018 eleito presidente do Brasil. Mas atenção: o modus operandi é chucro, mas não é burro.

Foto: Cecília Luedemann

 

Este é o alerta feito por Esther Solano (professora da Universidade Federal de São Paulo) e por Kelli Maffort, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em debate realizado nesta quarta-feira, 28 de novembro, no Centro de Estudos do Barão de Itararé, em São Paulo. A mediação ficou por conta de Renata Mielli, Secretária-Geral do Barão de Itararé e coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Com a missão de discutir o livro A nova direita – Aparelhos de ação política e ideológica no Brasil contemporâneo (Expressão Popular), de autoria do professor Flávio Casimiro, Solano exortou a esquerda brasileira a não subestimar esse processo de “memetização da política”. “A nova direita é anti-intelectual. É um processo de ‘memetização da política’, com um pensamento infantilizado, empobrecido, mas ao mesmo tempo mais brutal”, opina Solano. “Para essa nova direita, o pensamento intelectual e a pesquisa científica não têm validade. O que vale é o meme, as fake news”.

Autora do livro O ódio como política (Ed. Boitempo), Solano avalia que a nova etapa de lutas no Brasil exigirá a compreensão da complexidade deste esquema que tornou tão palatável o “pacote” da extrema-direita, inclusive, para as classes populares. “A organização poderosa entre neoliberais e fundamentalistas não é formada por burros. Eles têm uma estratégia muito eficaz de colonização de mentes, corações e sentimentos. O discurso dessa aliança entre neoliberais e fundamentalistas não aposta no debate econômico ou social, mas no convencimento emocional, restrito ao campo simbólico”, diz. “Com a ajuda das igrejas evangélicas neopentecostais, essa ideologia conservadora nos costumes e liberal na economia tem atingido as classes populares. A fundamentação tem a ver com uma espécie de ‘guerra moral’, que justificaria a destruição do Estado de bem estar”.

A engenhosidade desse tipo de consórcio, conforme explica a pesquisadora, está no fato de que a crise de representatividade vivida pelo sistema democrático é causada, em boa parte, pelos mesmos atores que estão por trás de candidaturas como a de Bolsonaro. “É uma crise provocada pela crise do capital, sistema feroz, predatório e violento, que abre espaço para esse voto de frustração, de cansaço, de desabafo e desencantamento, que é o voto em Bolsonaro”, pontua. “O voto na nova direita é a opção apresentada pelos mesmos agentes que provocam essa crise. E a alternativa são figuras como Bolsonaro, com um discurso antissistema, mas fomentado justamente por quem é responsável por esse estado das coisas”.

Segundo Solano, os defensores de políticas neoliberais, empresários e agentes do poder econômico, encontraram no fundamentalismo a roupagem adequada para se apresentarem como alternativa. “Há um conjunto de terminologias, conceitos e argumentos que estão sendo emplacados no discurso público. Eles conseguem fazer com que a discussão de uma falaciosa ‘sexualização’ de crianças na escola esteja mais em evidência que a reforma da Previdência. A quem isso interessa, afinal?”, questiona.

Representante do movimento social, Kelli Maffort diz que o livro de Flavio Casimiro e a presença de duas mulheres, uma do movimento popular e uma da academia, são bom exemplo de sinergia de forças para enfrentar o período que se anuncia. Para ela, “é preciso compreender essa nova direita e, para isso, compreender como ela se articula no ponto de vista internacional. Bolsonaro é a personificação do capital, mas não em seu próprio projeto, e sim em um projeto bem maior que sua empreitada presidencial”.

A atual crise do capital não é uma crise própria, cíclica do sistema, argumenta Maffort. É, sim, uma crise que deve atingir as bases civilizatórias, provocando fraturas muito mais graves na organização da sociedade, aposta. “Nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos sendo convocados pela história para nos apresentarmos enquanto classe. Seja movimento popular, partido, academia. Temos que ter em mente que o processo não é de normalidade. Precisamos, com projeto, travar o bom combate”.

A disputa institucional é importante e não pode ser deixada de lado. Mas a conjuntura impõe outros desafios, de acordo com a militante. “É preciso reinventar o processo de organização popular. Ao mesmo tempo que devemos nos re-organizar e apostar no trabalho de base, temos a tarefa de escancarar as contradições inúmeras de Bolsonaro e seu governo, ultraneoliberal e entreguista, dando continuidade aos retrocessos impostos pelo golpe de 2016”, conclama.

A política de impor o medo e disseminar o ódio não vai mascarar os problemas latentes que o Brasil enfrenta e que deverão se ampliar, afirma Maffort. “A luta precisa de articulação política maior. Não pode ser uma luta individual ou setorizada. É nosso desafio organizar esta resistência ativa”.

A nova direita

Panorama completo dos aparelhos organizativos das classes dominantes no Brasil da década de 1980 até os dias atuais, o livro “A nova direita – Aparelhos de ação política e ideológica no Brasil contemporâneo” (Expressão Popular), de autoria do professor Flávio Casimiro, pode ser adquirido na loja virtual da Expressão Popular.

Fonte: Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé
Texto por Felipe Bianchi

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