O Ciclo Vital Humano e a Recusa ao Envelhecimento, por Camila Hoeppner Toledo

O Ciclo Vital Humano e a Recusa ao Envelhecimento

Camila Hoeppner Toledo

A vida é composta de um ciclo com começo, meio e fim: infância, adolescência, adultez e velhice. Cada fase da vida tem seus conflitos específicos e suas conquistas pertinentes àquele período. A infância é o descobrimento de tudo, base na qual a personalidade se molda de acordo com as experiências vividas. A adolescência é a transição entre a identidade infantil para a de adulto, por isso, é experimentada com confusão, mudança de papéis, maturação orgânica e consiste na elaboração dos lutos pelo corpo infantil, pelos pais da infância e pela nova expressão da sexualidade. A adultez traz consigo as marcas das experiências anteriores, vem consolidar a forma de ser e estar no mundo, isto é, de funcionar psiquicamente em busca por soluções e modo de se relacionar segundo características predominantes da personalidade do indivíduo. A velhice chega para darmos sentido à nossa história, poder ensinar os outros com ela, compartilhar aprendizagens e fazer tudo o que não pudemos fazer nas épocas anteriores.

A velhice e a aproximação da morte constituem um evento significativo e deve ser vivido com toda intensidade como todos os outros momentos da vida.
Atualmente, a sociedade supervaloriza a juventude e denigre a terceira idade, sendo considerada a época dos fracassos e perdas: das próprias capacidades, da autonomia e saúde principalmente. Os idosos são vistos como seres esquecidos, que não possuem mais produtividade, utilidade, vitalidade e funcionalidade social. Além disso, é um período em que o sentimento de solidão e finitude são vivenciados muito fortemente através de acontecimentos simbólicos como: a aposentadoria, a viuvez, doenças e familiares morando longe.

A negação da morte e a fantasia de sermos seres infinitos, eternos jovens, é reflexo de uma sociedade que superestima a aparência e a noção de produtividade baseada no trabalho. A não aceitação do processo de envelhecimento gera a dificuldade de vivenciar um processo natural da vida: o envelhecer, que de um percurso normal acaba sendo experenciado como anormal, ou seja, uma problemática a ser evitada ou resolvida.

A população idosa vem aumentando e, paralelo à transformação da pirâmide etária, as cirurgias plásticas e procedimentos estéticos invasivos vem sendo cada vez mais procurados, com a finalidade desesperada de interromper a expressão corpórea do envelhecimento daqueles que não se conformam com a transformação inevitável de si mesmos.

Popularmente, ouvimos a expressão: o “fenômeno da adolescência eterna”, onde há uma valorização excessiva da juventude e a “síndrome de Peter Pan”, que consiste na recusa ao envelhecimento apesar do avançar da idade, onde o indivíduo tem dificuldades de assumir responsabilidades profissionais e pessoais da vida adulta e vive predominantemente na “Terra no Nunca”. Logo, vemos que a dificuldade de encarar a vida adulta e a terceira idade é tanto do ponto de vista emocional (não conseguir lidar com essa realidade que exige outros cuidados, compromissos e responsabilidades) como do ponto de vista físico (não aceitar a aparência do idoso, que é tida como o oposto da beleza).

A velhice é mais do que um corpo velho, é mais do que a ideia de invalidez. Se você foi apegado a vida toda na sua estética, na sua “casca” e não conseguiu dar sentido à sua maturidade ou atribuiu um sentido secundário às suas vivências emocionais, apenas enalteceu a sua aparência e vigor físico, provavelmente você terá dificuldades para crescer e envelhecer. Mas, se você consegue enxergar que a vida é um processo, que cada etapa evolutiva vivida é a aquisição de uma conquista e uma página virada com novos desafios, a velhice chegará para você como mais uma folha em branco de um livro cheio de memórias afetivas, de uma vida com suas tristezas, cicatrizes, esperanças e alegrias, sabendo que tudo um dia acaba e ainda bem!

O psicanalista Winnicott (1988), coloca que: “O desenvolvimento prossegue com o passar do tempo, e gradualmente a criança se transforma no homem ou na mulher nem cedo demais nem tarde demais. A meia-idade chega na época certa, com outras mudanças igualmente adequadas, e finalmente a velhice vem desacelerar os vários funcionamentos, até que a morte natural surge como a derradeira marca da saúde”.
Temos que finalmente amadurecer, envelhecer e descansar… isso é ter SAÚDE!

Finalizo este artigo com um poema escrito por mim sobre a trajetória da vida:

Poema de aniversário

 

Avançam os anos.
Avança o tempo.
Nessa trajetória como foi seu temperamento?

Sorriu, gritou, chorou.
Um abraço amigo ganhou.
Você andou contando o tempo que já passou?

Tudo acaba e se renova.
Os ciclos compõem a vida.
E quando foi que ela ficou tão descabida?

Como é corrida!
Não cabe mais em nenhum relógio de cuco, de pulso ou ampulheta.
A existência percorre realmente despercebida.

A maturidade chega quando a vaidade mudou de qualidade.
A beleza já não é prioridade.
E o bonito mesmo é interno e se aprimora com o passar da idade.

De uma coisa eu entendo bem…
Mesmo um rosto enrugado, pode ter o coração de novato.
Vida boa é aquela que deixa a alma límpida e transparente e o corpo velho marcado.

E afinal o que importa?
Se por fora estamos predestinados, mas, por dentro somos amados?
Basta sempre deixar aberta a porta.

Camila Hoeppner Toledo,

Psicóloga graduada pela UNESP, Especialista em Saúde Mental pela FAMEMA.

Psicóloga Clínica – CRP: 06/126981.

Psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas.

Facebook e Instagram: @psicologacamilahoeppner

E-mail: camilahoeppner@gmail.com

Fone: (14) 98178-6140

 

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