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O CUIDADO ESQUECIDO COM NOSSOS IDOSOS E A FRAGILIZAÇÃO DA VIDA DURANTE A PANDEMIA, por Aline Marcela de Moraes e Camila Hoeppner Toledo

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Ilustração de Andrea Tolaini.


 

O imaginário social da velhice.

No imaginário social, o envelhecimento está associado à incapacidade e à proximidade da morte. No entanto, envelhecer é um processo inerente ao desenvolvimento humano. Como bem diz o ditado popular: “para morrer basta estar vivo”, ou seja, o envelhecimento faz parte do curso natural da vida e não da morte.

A velhice é uma variação da vida, isto é, podemos ou não alcançar uma idade avançada em nossa existência. Sendo assim, as perdas, a fragilidade e a dependência não são particularidades da terceira idade.

No decorrer da história o envelhecimento e a velhice tiveram diferentes representações, como: honroso, sábio, bondoso e o contrário: feio, triste, frágil, não desejante. Estudiosos como Martins e Rodrigues (2004) afirmam que os estereótipos existentes sobre a velhice promovem uma representação social gerontofóbica, principalmente por essas pessoas não estarem mais em idade produtiva e, por isso, serem consideradas “inúteis” socialmente e um peso para os mais próximos. Contudo, é possível observar que há uma interpretação positiva dessa fase da vida, associada, frequentemente, com: maturidade, sabedoria, amabilidade, generosidade, solidariedade, bondade, entre outros.

Castro (2007) explica que a concepção negativa da velhice pode ocorrer devido à falta de compreensão e desconhecimento por parte da população sobre esta etapa do ciclo vital humano. Ainda segundo esse pesquisador, a visão da sociedade que traz uma ideia de incapacidade e a maneira como os próprios idosos se veem podem gerar sentimentos de desamparo, vulnerabilidade, rejeição, abandono e tristeza. Dessa forma, os indivíduos de idade avançada são vistos como meros coadjuvantes de suas vidas, sendo ignorados como pessoas precursoras de suas próprias histórias, não considerados no seu poder de decisão, liberdade de escolha e autonomia.

Com o fim do período produtivo da vida e o advento da aposentadoria, os idosos são conhecidos, comumente, como infelizes por demandarem maior atenção e cuidados. São isolados da sociedade e relegados a um restrito círculo familiar e social.

Para Lima (2013), o idoso não é mais visto como o detentor da experiência de vida e de sabedoria, onde suas histórias e conselhos devem ser escutados. Tudo isso perdeu seu valor diante das informações contidas em jornais, livros e internet. É como se o passado perdesse o valor e a importância frente ao novo e moderno.

O processo do envelhecer.

Há características comuns a todos, mas cada um envelhece à sua maneira.  Cada idoso tem suas potencialidades, desejos e frustrações, assim como em outras faixas etárias.

A pior tentativa social é aquela que tenta “rejuvenescer” o idoso. Harari e Lopes (2016) escrevem sobre o novo padrão para a terceira idade: a velhice ativa. Agora, os idosos precisam ser atléticos, sensuais, atualizados e quem se vê fora dessa normativa sente culpa, vergonha e desconforto. Tais estados emocionais estão presentes na fala dos idosos que são dependentes e precisam de auxílio para o cuidado de si. A recusa à velhice como uma tentativa de escapar dessa fase tem sua origem, principalmente, no culto exacerbado da autoimagem e da boa performance, sendo o corpo ideal imposto como uma nova e exclusiva forma de viver e morrer.

Em relação aos cuidados para essa população, é preciso ressaltar que nem sempre os idosos que tiveram filhos serão cuidados por eles e, às vezes, seus descendentes não têm capacidade e disposição para assumir essa responsabilidade. Surge, nesses casos, a institucionalização em clínicas e asilos como uma alternativa.

Muitas famílias se afastam de seus idosos, em algumas, há a perda total de contato entre o idoso e seus familiares. Apesar disso, sabe-se que os vínculos afetivos mais íntimos são de suma importância na vida do ser humano, ao mesmo tempo em que o convívio familiar pode causar grandes conflitos. Portanto, é necessário que a família entenda o processo pelo qual o seu idoso vem passando para poder melhor compreendê-lo.

Há idosos que moram sozinhos por opção, com grupo de amigos, cônjuges ou parentes. Os que viajam, frequentam bailes da terceira idade e possuem diversas atividades de socialização presenciais e virtuais, como o acesso à internet, compras online e redes sociais: whatsapp, instagram, facebook e twitter. Sabe-se que na conjuntura atual, as redes sociais online são muito úteis, pois facilitam a comunicação e promovem o acolhimento, a segurança em não estar só e o apoio emocional.

 

Como ficam os idosos durante a pandemia?

 

Em meio à pandemia do coronavírus, a terceira idade foi identificada como um grupo de risco para o contágio da doença Covid-19 e o consequente aumento da mortalidade. Um grupo de pessoas que já é amplamente restringido da vida comunitária devido ao fardo social com que é associado e às dificuldades de acesso que a organização urbana impõe, passa então a sofrer duplamente pela reclusão.

De acordo com Veras (2003), as diferenças da velhice existem e, além da subjetividade, existem fatores, como: condições de vida, acesso aos bens de consumo e serviços, as redes de proteção e vínculos afetivos. Entretanto, uma pandemia não escolhe contextos socioeconômicos e todos passam a ser classificados da mesma forma: o grupo de risco para a doença do novo coronavírus.

Nos últimos tempos, temos presenciado nas redes sociais muitos “memes”, tirinhas, vídeos e piadas que utilizam de sátiras e humor como uma tentativa de aliviar o momento de tensão constante. Muitos, inclusive, referenciam como os idosos estão vivenciando a pandemia, com dificuldade de permanecer em casa, teimosia e irritabilidade. Atentamo-nos para essa modalidade de humor que pode acabar desconsiderando as dores emocionais específicas dessa população que também foi obrigada à abstenção de uma rotina. Vejam bem, não estamos criticando, apenas levantando uma questão a ser pensada. Pois para muitos jovens e adultos, a situação problemática de privação e medo do contágio está sendo menos pesarosa do que para os idosos.

Nesse período de quarentena, dado o pouco contato com os vizinhos, amigos e com a comunidade em geral, acrescentado à difícil convivência familiar, pode resultar no sentimento de solidão, afetando também a saúde do idoso de vários modos. Isto se deve porque o idoso vive um isolamento estrutural em nossa sociedade, por serem concebidos como velhos, aposentados e dependentes de cuidados. Melhor dizendo, havia um isolamento social prévio ao isolamento pelo coronavírus no tocante à negligência e abandono socias.

Nesse discurso, nos esquecemos que um dia esses mesmos idosos foram jovens e também viveram a vida como nós a vivemos: batalharam, trabalharam, auxiliaram na contribuição social, movimentaram a economia do país, constituíram famílias e criaram seus filhos, povoaram as ruas e hoje ficam numa posição de reclusão. Um dia também envelheceremos, futuro que pode parecer uma realidade distante e, por isso, a dificuldade em pensar as circunstâncias presentes sob outras perspectivas e validar as múltiplas formas de sofrimento.

Nós só estamos vivos hoje porque os ditos velhos fizeram – muito bem – o seu papel social. Por isso, o momento clama pela empatia e evidencia a realidade dolorosa pela qual nossos idosos suportam: a falta de visibilidade, comunicação, diálogo e escuta. Esse acolhimento e cuidado são essenciais, pois possibilitam a compreensão dos sentimentos e emoções, proporcionam laços mais fortes e diminuem a sensação de desamparo.

Como cuidamos dos nossos idosos hoje é um reflexo de como iremos ser cuidados no amanhã. Logo, cuidar dessas pessoas é também semear a sensibilidade e humanidade a longo prazo. Como queremos ser tratados? Será que paramos para pensar nisso? A tal ilusão da “eterna juventude” nos desvia dessas problematizações.

Desde o nascer, ou porque não dizer desde a nossa gestação, vamos tecendo nossa história no livro da vida, história essa que não pode e nem deve ser desvalorizada ou esquecida por estarmos idosos. A velhice dever ser encarada como mais um estágio vital que possui seus desejos, valores, nostalgias, aprendizados, crescimento, perdas e ganhos. Desamparar e subestimar os idosos é menosprezar a vida.

Enquanto vivos temos que celebrar a vida: algo que não se deve retirar da velhice!

  • Aline Marcela de Moraes,

Psicóloga – CRP: 06/130716, técnica em Segurança do Trabalho

Facebook: /ammpsicologa

E-mail: alinemarcela_moraes@hotmail.com

Fone: (14) 99679-2161.

  • Camila Hoeppner Toledo,

Psicóloga graduada pela UNESP-Assis (CRP: 06/126981), psicoterapeuta especialista em Saúde Mental pela FAMEMA, atua no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas  e na Enfermaria Psiquiátrica do Hospital das Clínicas de Marília – HC I

Facebook e Instagram: @psicologacamilahoeppner

E-mail: camilahoeppner@gmail.com

Fone: (14) 98178-6140

Bibliografia

CASTRO, C.M.V. (2007). Representações Sociais dos Enfermeiros face ao Idoso Em contexto de prestação de cuidados. Dissertação de Mestrado em Comunicação em Saúde. Universidade Aberta: Lisboa.

HARARI, K.; LOPES, R.G.C. Envelhecer com as mãos no barro. Narrativas sobre um viver criativo. In FONSECA, S.C. (Org.) O envelhecimento ativo e seus fundamentos. São Paulo: Portal Edições, 2016

LIMA, P. M. R. de. Tempus fugit… carpe diem : poiesis, velhice e psicanálise. 2013. 254 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica e Cultura)—Universidade de Brasília, Brasília, 2013.

MARTINS, R. L. M.; RODRIGUES, M. L. M. (2004) Estereótipos sobre os Idosos: uma representação social gerontofóbica. Revista do Instituto Superior Politécnico de Viseu. Viseu, 29, 249-254.

VERAS, R. A novidade da agenda social contemporânea: a inclusão do cidadão de mais idade. A Terceira Idade, v.14, n.28, p.6-29, 2003.


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