O salário do medo (e do Armagedom)  

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A evo­lução dos sa­lá­rios mun­diais no de­correr dos ci­clos econô­micos mais re­centes mostra me­lhor a na­tu­reza de­pre­da­dora da eco­nomia do im­pe­ri­a­lismo. Não como um mero pro­blema de de­si­gual­dade de ren­di­mentos, como é cos­tu­mei­ra­mente sa­li­en­tado pelos re­for­ma­dores so­ciais de di­reita ou de es­querda, mas como uma questão de cres­cente ex­plo­ração das di­fe­rentes classes ca­pi­ta­listas na­ci­o­nais sobre a classe ope­rária in­ter­na­ci­onal.

Nos úl­timos dois ci­clos econô­micos de su­per­pro­dução, o mundo do ca­pital de­sen­freado mudou de forma sur­pre­en­dente as pers­pec­tivas po­lí­ticas e so­ciais em todas as na­ções do globo. Sem ex­ceção.

A mi­séria se po­ten­ci­a­liza na es­teira da ex­plo­ração. Au­mento de pro­du­ti­vi­dade da força de tra­balho as­sa­la­riado e di­mi­nuição dos sa­lá­rios torna-se uma te­ne­brosa uni­dade que con­vive har­mo­ni­o­sa­mente na to­ta­li­dade do mundo pro­dutor de ca­pital. Ni­tro­gli­ce­rina pura.

Em 2017, por exemplo, o cres­ci­mento do sa­lário real global foi não apenas menor que em 2016, mas caiu para sua mais baixa taxa de cres­ci­mento desde 2008, man­tendo abaixo dos ní­veis ob­tidos em 2006/7, ime­di­a­ta­mente antes da úl­tima crise cí­clica global. Uma sorte de con­ge­la­mento re­la­tivo dos sa­lá­rios reais.

Quem dá o re­cado é a pró­pria Or­ga­ni­zação In­ter­na­ci­onal do Tra­balho (OIT), se­diada em Ge­nebra, Suíça, em seu mais re­cente re­la­tório anual Global Wage Re­port 2018/19.

De acordo com o re­la­tório, existe no mundo cerca de 3.3 bi­lhões de pes­soas no mer­cado de tra­balho. É a cha­mada po­pu­lação eco­no­mi­ca­mente ativa. Deste total, apro­xi­ma­da­mente 54%, quer dizer, 1.8 bi­lhão de pes­soas são tra­ba­lha­doras as­sa­la­ri­adas. Há vinte e cinco anos eram 1.04 bi­lhão. Houve um acrés­cimo de 760 mi­lhões de tra­ba­lha­dores as­sa­la­ri­ados. Apro­xi­ma­da­mente 42% de acrés­cimo da massa de tra­ba­lha­dores as­sa­la­ri­ados em um quarto de sé­culo.

Não há mais o que ex­plorar

Al­guém já ouviu falar de algum outro pe­ríodo his­tó­rico mais dis­rup­tivo do que este? Nem as grandes guerras re­a­li­zaram ta­manha fa­çanha.

Os úl­timos vinte e cinco anos foram o pe­ríodo mais in­tenso de glo­ba­li­zação do ca­pital na his­tória do re­gime ca­pi­ta­lista de pro­dução. Com­pletou-se a glo­ba­li­zação do exér­cito in­dus­trial de re­serva.

A lei geral da acu­mu­lação ca­pi­ta­lista nunca foi tão livre para ser pra­ti­cada. E isso mudou dra­ma­ti­ca­mente todas as cir­cuns­tân­cias tra­di­ci­o­nais de fun­ci­o­na­mento do mer­cado mun­dial.

Não existe mais es­paço ter­ri­to­rial virgem no globo ter­restre. Es­tupro ca­pi­ta­lista pla­ne­tário. Agora, em todos os cantos do globo o que existe é tra­ba­lhador livre de qual­quer pro­pri­e­dade de meio de pro­dução a vender sua força de tra­balho no mer­cado em troca de um sa­lário (uma quan­ti­dade de moeda) para, no final do pro­cesso, ser ex­plo­rado nas li­nhas de pro­dução de valor e de mais-valia (ca­pital).

A prin­cipal mu­dança pro­vo­cada pela plena re­a­li­zação do exér­cito in­dus­trial de re­serva foi um novo de­sen­vol­vi­mento de­si­gual e com­bi­nado dos di­fe­rentes sa­lá­rios entre as na­ções. Veja no grá­fico abaixo essa evo­lução no longo prazo.

No longo prazo, entre 1999 e 2017, a OIT cal­cula que a média dos sa­lá­rios no, grupo das vinte mai­ores eco­no­mias do mundo (G-20), cresceu 55%. En­tre­tanto, nesta média global existem grandes dis­pa­ri­dades entre, de um lado, as eco­no­mias do­mi­nadas (“emer­gings” no grá­fico), onde a média dos sa­lá­rios reais tri­plicou, no pe­ríodo, e, de outro lado, as eco­no­mias do­mi­nantes (“ad­vanced”, no grá­fico) onde essa média cresceu apenas 9%.

A des­peito de um cres­ci­mento re­la­ti­va­mente mais rá­pido dos sa­lá­rios nas eco­no­mias do­mi­nadas, eles con­ti­nuam mais baixos do que nas eco­no­mias do­mi­nantes do G20.

E o sa­lário?

Não se pode ima­ginar que esse cres­ci­mento re­la­ti­va­mente mais rá­pido dos sa­lá­rios nas eco­no­mias do­mi­nadas quer dizer que os tra­ba­lha­dores nestes países te­nham al­can­çado altos sa­lá­rios nos úl­timos dez anos.

A du­pli­cação do sa­lário real de um tra­ba­lhador me­ta­lúr­gico na China, no pe­ríodo 2008/2017, por exemplo, fez apenas apro­ximá-lo do que já existia no Brasil, Ar­gen­tina, Mé­xico, Tur­quia, e ou­tras mi­se­rá­veis na­ções do­mi­nadas, mas o mantém ainda a uma longa dis­tância dos sa­lá­rios in­dus­triais nas eco­no­mias do­mi­nantes.

A dis­pa­ri­dade entre os sa­lá­rios reais men­sais entre os dois blocos de eco­no­mias do­mi­nantes e do­mi­nadas con­tinua muito ele­vada. Con­ver­tendo todas as mé­dias sa­la­riais das eco­no­mias do G20 em dólar e apli­cando a pa­ri­dade do poder de compra (PPC) das taxas de câmbio na­ci­o­nais, a OIT re­gistra uma média sa­la­rial de US$ 3,250 por mês nas eco­no­mias do­mi­nantes e de US$ 1,550 por mês nas eco­no­mias do­mi­nadas.

É claro que se o cál­culo da OIT não apli­casse a PPC às taxas de câmbio cor­rentes, a di­fe­rença sa­la­rial entre os dois blocos seria muito maior.

En­tre­tanto, mesmo com essa grande di­fe­rença, a ele­vação re­la­ti­va­mente mais rá­pida dos sa­lá­rios reais nas eco­no­mias do­mi­nadas causou um im­pacto ful­mi­nante na sua já tra­vada taxa de ex­plo­ração (pro­du­ti­vi­dade) e, con­se­quen­te­mente, em sua com­pe­ti­ti­vi­dade frente às eco­no­mias do­mi­nantes no mer­cado mun­dial.

E não se trata aqui apenas de uma perda de com­pe­ti­ti­vi­dade no co­mércio ex­terno (ex­por­tação de mer­ca­do­rias-ca­pital), mas prin­ci­pal­mente de perda de atra­ti­vi­dade ter­ri­to­rial pela re­par­tição e alo­cação global das gi­gantes em­presas mun­diais. Grande quan­ti­dade destas úl­timas já re­tor­naram para sua terra natal, prin­ci­pal­mente os EUA de Do­nald Trump.

Os li­mites (e crise) atuais das eco­no­mias do­mi­nadas en­con­tram-se exa­ta­mente nesta sua ri­gidez ge­né­tica de au­mentar a pro­du­ti­vi­dade do tra­balho, ao con­trário do que se ob­serva nas eco­no­mias do­mi­nantes, onde pre­do­mina a mais-valia re­la­tiva.

Ex­plo­ração do tra­balho

Nas eco­no­mias do­mi­nadas, onde pre­do­mina a mais-valia ab­so­luta, como Brasil, China etc., a única forma de au­mentar a “pro­du­ti­vi­dade” é re­du­zindo ainda mais o sa­lário real abaixo do seu valor. O tra­va­mento do cres­ci­mento econô­mico é ime­diato. O atual pe­ríodo de ex­pansão global foi a era da es­tag­nação da pro­dução (a era dos “pi­bi­nhos”) para Amé­rica La­tina, África e Ásia.

Neste sen­tido, as di­fe­rentes va­ri­a­ções do nível dos sa­lá­rios entre do­mi­nadas e do­mi­nantes, no de­correr dos ci­clos econô­micos, tornam-se de­ci­sivos fa­tores de de­si­gual­dade na atual ex­pansão cí­clica 2009/2018 entre estes dois blocos da eco­nomia do im­pe­ri­a­lismo.

Por falar em di­fe­rentes tipos de sa­lá­rios na­ci­o­nais que apa­recem na con­ta­bi­li­dade dos ca­pi­ta­listas, é im­por­tante sa­li­entar que o re­la­tivo con­ge­la­mento dos sa­lá­rios reais no de­correr dos ci­clos mais re­centes da eco­nomia global, prin­ci­pal­mente nas eco­no­mias do­mi­nantes, é con­fir­mado e apa­rece mais for­te­mente quando se con­si­dera o sa­lário por hora nas ma­nu­fa­turas.

A OIT não leva em conta no seu re­la­tório o sa­lário por hora e jus­ti­fica: “O sa­lario real é cal­cu­lado usando o sa­lário bruto mensal, em lugar das taxas de sa­lá­rios ho­rá­rios, que são menos fre­quen­te­mente dis­po­ní­veis, onde suas flu­tu­a­ções re­fletem mais os sa­lá­rios ho­rá­rios e a média das horas tra­ba­lhadas”.

Re­pe­timos que, di­fe­ren­te­mente do sa­lário no­minal (ou real), o sa­lário por hora é uma ca­te­goria de custo in­dus­trial. Da es­fera da pro­dução. Esse pro­ce­di­mento da OIT de mis­turar alhos com bu­ga­lhos não con­si­dera o fato muito im­por­tante de que na pro­dução ca­pi­ta­lista o sa­lário por hora só é apli­cado para tra­ba­lha­dores ho­ristas (pro­du­tivos) e ja­mais para as­sa­la­ri­ados men­sa­listas (im­pro­du­tivos).

Quem ima­ginar que isso é “muito abs­trato” basta vi­sitar qual­quer ma­nu­fa­tura em qual­quer lugar do mundo e ver como isso se passa in actu.
Nas es­feras im­pro­du­tivas de mais-valia, como co­mércio, ser­viços, bancos, etc., os sa­lá­rios são sempre men­sais. Por isso não passa de mis­ti­fi­cação da eco­nomia vulgar querer cal­cular pro­du­ti­vi­dade do tra­balho (ou mesmo a “mul­ti­fa­to­rial”) nos ser­viços pres­tados nestas es­feras.

Questão ines­ca­pável para qual­quer aná­lise mais ri­go­rosa da di­nâ­mica ca­pi­ta­lista: só le­vando em conta essas im­por­tantes di­fe­renças de sa­lá­rios que ou­tros fenô­menos im­por­tantes ma­ni­fes­tados no ciclo econô­mico podem ser de­vi­da­mente ava­li­ados.

Veja-se, por exemplo, im­por­tante pa­ra­doxo (pelo menos para a eco­nomia vulgar) ocor­rendo no pe­ríodo atual: as taxas re­cordes de baixo de­sem­prego coin­cidem com inex­pres­sivos in­cre­mentos do sa­lário real.

Nas eco­no­mias do­mi­nantes, de ma­neira muito mais clara que nas do­mi­nadas, o con­ge­la­mento re­la­tivo dos sa­lá­rios no atual pe­ríodo de ex­pansão con­verge com forte cres­ci­mento da pro­dução, taxas de quase pleno em­prego da força de tra­balho e, para com­plicar ainda mais o en­ten­di­mento vulgar, pres­sões de­fla­ci­o­ná­rias nos preços ao con­su­midor (baixa in­flação).

Mis­te­rioso (e imo­bi­li­zante) pa­ra­doxo também para o co­mitê de po­lí­tica mo­ne­tária do Fe­deral Re­serve Bank (Fed, banco cen­tral dos EUA), que não con­segue mais de­cidir se a taxa bá­sica de juros deve ser ele­vada ou di­mi­nuída.

Este fenô­meno ocor­rido des­ta­ca­da­mente nas três prin­ci­pais eco­no­mias do­mi­nantes (EUA, Ale­manha e Japão) é tra­tado no re­la­tório da OIT como “sur­pre­en­dente em todos os sen­tidos”. Veja como seus eco­no­mistas ob­servam o fenô­meno:

Nú­meros

“Nas eco­no­mias do­mi­nantes [higt-in­come eco­no­mies] o baixo in­cre­mento nos sa­lá­rios reais em um con­texto de forte cres­ci­mento econô­mico é ainda mais sur­pre­en­dente com a queda ge­ne­ra­li­zada da taxa de de­sem­prego. A taxa de de­sem­prego na União Eu­ro­peia (EU28) en­con­trava-se em 6.5% em abril 2018, a mais baixa taxa ocor­rida desde de­zembro 2008. Nos Es­tados Unidos, o de­sem­prego está pró­ximo do seu nível mais baixo desde os anos 1960, caindo para 3.8% em maio 2018. Con­si­dera-se, em geral, que existe uma re­lação in­versa entre taxa de de­sem­prego e cres­ci­mento do sa­lário. Assim, quando as taxas de de­sem­prego caem ace­lera-se o cres­ci­mento dos sa­lá­rios e, in­ver­sa­mente, quando as taxas de de­sem­prego au­mentam o cres­ci­mento dos sa­lá­rios di­minui. Em 2016 e 2017 essa re­lação não apa­receu de ma­neira muito forte [sic]”

Nas es­ta­tís­ticas econô­micas ofi­ciais dos EUA essa es­tra­té­gica va­riável dos sa­lá­rios por hora, que, é bom re­petir, só existe nas es­feras pro­du­tivas da eco­nomia, é far­ta­mente dis­po­nível. Veja no grá­fico abaixo sua evo­lução nas ma­nu­fa­turas do país.


Di­fe­ren­te­mente das es­ta­tís­ticas do sa­lário real mensal, que mis­tura tra­balho as­sa­la­riado pro­du­tivo e im­pro­du­tivo, o sa­lário por hora nas ma­nu­fa­turas é im­por­tante e ri­go­rosa va­riável para se de­ter­minar o custo uni­tário do tra­balho e, con­se­quen­te­mente, a taxa de pro­du­ti­vi­dade (ou de mais-valia) na to­ta­li­dade da eco­nomia.

Nunca es­quecer que na to­ta­li­dade da eco­nomia mun­dial pre­do­mina a mais-valia re­la­tiva. Por isso pode-se falar em pro­du­ti­vi­dade média global. Sem fazer con­fusão: Aris­tó­teles, Hegel, Marx e ou­tras ca­beças pen­santes já de­mons­traram pa­ci­en­te­mente ao dis­tinto pú­blico que a to­ta­li­dade é maior que a soma das partes.

As partes do­mi­nadas dentro desta to­ta­li­dade (Brasil, Ar­gen­tina etc.), onde pre­do­mina a mais-valia ab­so­luta, são pá­rias no sis­tema im­pe­ri­a­lista. Não pos­suem moeda forte (con­ver­sível); nem forte sis­tema fi­nan­ceiro na­ci­onal pri­vado e autô­nomo; nem pos­si­bi­li­dade de po­lí­tica econô­mica ou mo­ne­tária re­gu­la­tória an­ti­cí­clica – que o es­cla­re­cido eco­no­mista Guido Man­tega tentou no Brasil, virou o sa­tanás para os eco­no­mistas do im­pe­ri­a­lismo e pa­ra­sitas em geral, está pró­ximo de ser en­car­ce­rado por “cor­rupção”; nem pro­dução agrí­cola de ali­mento de base in­te­grada ao mer­cado in­terno com es­to­ques re­gu­la­dores, mo­dernas redes de silos e ar­ma­zéns, trans­porte mul­ti­modal e lo­gís­tica ter­ri­to­rial etc.

Nesta dura re­a­li­dade da eco­nomia do im­pe­ri­a­lismo a taxa de ex­plo­ração (ou de pro­du­ti­vi­dade) varia in­ver­sa­mente ao custo uni­tário do tra­balho. Essa re­lação so­cial é a mais pro­funda e de­ter­mi­nante da acu­mu­lação global do ca­pital e, por­tanto, da di­nâ­mica das suas prin­ci­pais va­riá­veis no de­correr do ciclo pe­rió­dico. Tanto na ex­pansão quanto nos seus li­mites.

Nota-se uma coisa muito im­por­tante: em todo o re­la­tório da OIT são apre­sen­tados em abun­dância dados sobre a ele­vação maior ou menor da pro­du­ti­vi­dade nas eco­no­mias do­mi­nantes e ne­nhuma vír­gula a res­peito para as eco­no­mias do­mi­nadas.

Isso é de­vido às con­si­de­ra­ções teó­ricas que fi­zemos acima sobre as trans­for­ma­ções re­centes do de­sen­vol­vi­mento de­si­gual e com­bi­nado entre as do­mi­nantes e do­mi­nadas na eco­nomia do im­pe­ri­a­lismo. E sobre a perda de ca­pa­ci­dade de cres­ci­mento do pro­duto nas do­mi­nadas no atual pe­ríodo de ex­pansão 2009/2018.

Além da su­per­pro­dução global de ca­pital existem seus li­mites. O atual con­ge­la­mento re­la­tivo dos sa­lá­rios reais nas eco­no­mias do­mi­nantes é co­man­dado prin­ci­pal­mente por uma regra geral das on­du­la­ções da acu­mu­lação do ca­pital global. Que nada mais é do que a apli­cação prá­tica da já men­ci­o­nada lei geral da acu­mu­lação do ca­pital (Marx, livro 1 de “O Ca­pital”).

Esta lei de ex­plo­ração da força de tra­balho global es­ta­be­lece que a pos­sível su­pe­ração das crises pe­rió­dicas de su­per­pro­dução só pode ser efe­ti­vada com a in­ter­rupção da ele­vação do custo uni­tário do tra­balho. Essa ele­vação ocorre or­ga­ni­ca­mente à su­per­pro­dução, como um fenô­meno que ten­ciona e ameaça pro­gres­si­va­mente os cál­culos ca­pi­ta­listas no de­correr do pe­ríodo de ex­pansão.

Isso também apa­rece na forma mais po­pular e su­per­fi­cial do pro­cesso – no ter­ri­tório da Ma­cro­e­co­nomia e do ca­pital fi­nan­ceiro, mer­cado de ca­pi­tais, etc. – com as inó­cuas ten­ta­tivas de ad­mi­nis­tração da va­ri­ação dos preços de mer­cado (“in­flação”) e das taxas de juros pelos bancos cen­trais, como se ve­ri­fica quo­ti­di­a­na­mente, que já abor­damos acima, com o Fed dos EUA.

Essa lei geral de fun­ci­o­na­mento dos ci­clos econô­micos apa­rece de ma­neira muito clara no grá­fico acima. É al­ta­mente re­le­vante que o custo uni­tário do tra­balho no 2º tri­mestre de 2018 na in­dús­tria de ma­nu­fa­turas dos EUA tenha sido ri­go­ro­sa­mente igual ao apu­rado no 2º tri­mestre de 2009, que des­ta­camos no grá­fico. Este úl­timo era o exato tri­mestre que a eco­nomia ca­pi­ta­lista mun­dial ainda lu­tava contra o mais pe­sado choque cí­clico do pós-guerra (1945) e pro­cu­rava su­perá-lo.

Como se pode ob­servar, essa in­ter­rupção da ele­vação do sa­lário por hora nas ma­nu­fa­turas es­ta­du­ni­denses para evitar a fa­lência do sis­tema pro­dutor de ca­pital e re­tomar um novo pe­ríodo de ex­pansão apa­rece efe­ti­va­mente como um con­ge­la­mento do valor da massa sa­la­rial con­ta­bi­li­zada na for­mação do custo uni­tário das mer­ca­do­rias-ca­pital pro­du­zidas.

É jus­ta­mente essa ne­ces­si­dade da acu­mu­lação ca­pi­ta­lista que se ma­ni­festa nas su­pe­res­tru­turas po­lí­ticas, nas ações po­lí­ticas dos go­vernos na­ci­o­nais com suas po­pu­lares “re­formas” fis­cais, tra­ba­lhistas, da Pre­vi­dência So­cial, acha­tando ou eli­mi­nando re­gu­la­ções so­ciais e ou­tras fontes do sa­lário in­di­reto da classe tra­ba­lha­dora, vi­tais para sua re­pro­dução fí­sica.

Uma der­ra­deira ob­ser­vação

Re­su­mi­da­mente, a glo­ba­li­zação do exér­cito in­dus­trial de re­serva acima des­ta­cada per­mitiu a com­bi­nação global da mi­séria (pa­ga­mento do sa­lário abaixo do seu valor), tanto no centro quanto na pe­ri­feria, sem ali­viar as chi­co­tadas para o au­mento da pro­du­ti­vi­dade da classe ope­rária mun­dial.

Com­bi­nação ma­te­rial de ex­plo­ração e mi­séria na to­ta­li­dade do sis­tema. O sa­lário do medo do­mina todo o sis­tema. Mas nada é neutro e muito menos na­tural na eco­nomia po­lí­tica. A ação dos ca­pi­ta­listas de­tonou um pro­cesso de des­fa­le­ci­mento po­lí­tico no pró­prio co­ração do sis­tema.

A tensão so­cial da luta de classes dentro das mai­ores eco­no­mias do mundo (França, EUA, Ale­manha…) se eleva a ní­veis iné­ditos no pe­ríodo pós-guerra (1945). A in­go­ver­na­bi­li­dade e o es­pectro da guerra civil em­purram as di­fe­rentes bur­gue­sias na­ci­o­nais para o Es­tado or­ga­ni­zado. De­mo­crá­tico, mas or­ga­ni­zado.

No centro do sis­tema, prin­ci­pal­mente, a pa­lavra de ordem da bur­guesia é se pre­parar para a crise e para evitar a con­se­quente guerra civil no in­te­rior de seus ter­ri­tó­rios na­ci­o­nais.

O que era im­pen­sável até re­cen­te­mente, agora é nova e ir­re­ver­sível re­a­li­dade para o grande pú­blico: pro­te­ci­o­nismo e na­ci­o­na­lismo econô­mico do go­verno es­ta­du­ni­dense; veloz frag­men­tação das ins­ti­tui­ções de re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais e de acordos mul­ti­la­te­rais; di­fi­cul­dades para a for­ma­tação da nova ordem (ou de­sordem) ge­o­po­lí­tica do im­pe­ri­a­lismo, re­ar­ma­mento eu­ropeu, ja­ponês etc.

Os go­vernos na­ci­o­na­listas e ar­ma­men­tistas, mais pre­pa­rados para a or­ga­ni­zação do Es­tado na­ci­onal, estão pró­ximos do poder na Ale­manha, Itália, França, In­gla­terra, Japão… Esses novos go­vernos serão os exe­cu­tores da nova guerra mun­dial.

Essa atu­a­li­dade do Ar­ma­gedom, da ine­vi­ta­bi­li­dade de nova guerra im­pe­ri­a­lista, brota das pro­fun­dezas da base ma­te­rial do re­gime, da forma como se or­ga­nizou re­cen­te­mente a pro­dução de ca­pital e que ameaça de morte a classe pro­le­tária in­ter­na­ci­onal.

José Mar­tins é eco­no­mista e editor de Crí­tica da Eco­nomia, onde o texto foi ori­gi­nal­mente pu­bli­cado.

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