“Pequena crônica de Domingo de Carnaval”, por Paloma Amado

 

Pequena crônica de Domingo de Carnaval, 11 de fevereiro de 2018

Pequenas diferenças e um grande amor

 

Por Paloma Amado

Zé morria de frio, vivia com um xalezinho no pescoço, a friagem a fazia tossir. Foi se apaixonar logo por um homem que não cobria o pé! E o que é um homem que não cobre o pé? Ora, o que o nome diz: puxa o lençol, mas deixa o pé para fora. Tem muita gente que é assim, não usa meia, gosta de sandálias, enfrenta as baixas temperaturas sem o pé por baixo do cobertor. Jó era desses, escancarava as janelas recém-fechadas por Zé.
— Olha a corrente de ar, Jó, vamos pegar uma pneumonia…
— Que nada, meu bem, a gente estava sufocando com tudo fechado…
Jó era peludo feito um urso, Zé era pelada feito uma índia. O engraçado da história é que quem tinha sangue índio era ele!
Janela semi-aberta, a fresca da manhã entrando, e ela se aquecia no corpo do amado, melhor que o melhor dos cobertores de cashemere. E tudo se transformava no amor mais cúmplice, mais doido, mais verdadeiro. Cadê o frio? Cadê o calor? A temperatura era menida na paixão, foi sempre ela o termômetro, por mais de meia década.

Zé era doida por carnaval. Dançar e cantar era com ela mesma, dona de uma voz afinada e linda, de cadeiras largas que gingavam no ritmo do samba. Jó era incapaz de dar um passo ao som da música que fosse, provavelmente pela falta de ouvido, que o impedia de cantar qualquer coisa, nem o Hino Nacional, ele nunca cantou!
Ainda nos primeiros anos de vida juntos, o amigo Procópio Ferreira resolveu montar um grupo de palhaços para irem a um baile. Qual seria? Municipal? Bola Preta? Jó não teve como recusar, inclusive cedeu sua casa para ponto de encontro. Zé nadava em felicidade, sestrosa como era, sabia que levaria seu amado para o meio do salão, mesmo que fosse para circularem com os amigos, num trenzinho de palhaços. Procópio e Hamilta providenciaram fantasias e maquiagens, os palhaços ficaram lindo e irreconhecíveis. Muito divertimento.
— Jó, não me diga que você não gostou. Foi ótimo, não foi?
— Gostei, meu amor, mas dizer que foi ótimo… Fico sem jeito todo fantasiado… E você, sua peste, me levou para dançar… Quase morri de vergonha…
E riam a caminho da cama, que os esperava para deixar a vergonha de lado, vestir novas fantasias ao som da marchinha que vinha da rua.

Com os meninos crescidos, Jó sugeriu que Zé os acompanhasse aos bailes de carnaval.
— Vai, meu bem. Você toma conta da menina e dá os seu passinhos. Te espero acordado. Se divirta.
Ela se divertia, fotografava e piscava um olhinho para a menina, dizendo:
— Vá dançar, se divertir, não precisa ficar grudada em mim.
A menina ia com o namorado, para seus primeiros embates amorosos.

O leão e o caranguejo. O fogo e a água. Fogo aquecendo a água, água arrefecendo o fogo. Como é que dava certo? Duas palavrinhas simples explicam tudo: respeito e amor. Melhor dizendo: Muito respeito e muito amor.

Bom domingo de carnaval a todos, com respeito e amor.

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