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Polarização faz pessoas adotar narrativa por gostar, não pela verdade

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Em tempos de autoritarismo, o consultor estratégico percebe o jornalismo se reinventando. As redes sociais, por sua vez, mostraram sua face maldita e merecem ser reguladas. Para ele, a comunicação da extrema direita é mais eficiente em chegar ao receptor.

Renata, Denicoli, Attuch e Rovai

O diretor da AP Exata – Inteligência em Comunicação Digital, Sergio Denicoli, participou do debate do Observatório da Democracia, destacando o momento perigoso que o Brasil vive, sem monotonia, e de flerte com o autoritarismo. Morando em Portugal, ele diz que vem acompanhando a movimentação do governo Bolsonaro diariamente, e observa um momento muito rico, também, porque o jornalismo está se reinventando, se redescobrindo, entendendo sua importância.

“Tivemos uma fase de autoestima muito baixa com o crescimento das redes sem saber qual seu papel. Vemos que o jornalismo tem um papel importantíssimo ao fazer o jornalismo correto, imparcial, ouvir todos os lados envolvidos numa notícia. O jornalismo nunca teve tanta audiência.”

Sergio faz a mea culpa de admitir que já chegou a concordar, como muitos, que a internet e as redes democratizariam e dariam liberdade de expressão. Dan Gillmor chegou a cunhar a expressão “jornalismo cidadão” ao olhar para o fenômeno dourado das redes sociais. Pois, todo cidadão teria condições de ser um repórter. “Passamos grande parte da nossa formação criticando os meios de comunicação de massa, a crítica da Escola de Frankfurt, e depois a coisa ganhou um outro contorno”, lembra ele.

Ele ainda considera que a internet propiciou a ideia “interessantíssima” da biblioteca mundial na internet, em que se vai clicando e ampliando o conhecimento sobre um assunto. É o caso da Wikipedia que promove a interação de uma forma adequada e que funciona, na opinião dele. “Mas temos também as redes sociais com um sistema que distorce as coisas”, atacou.

“Somos transformados em produtos, classificados em caixas, por religião, preferência de consumo, pelo que falamos. E nos tornamos alvo”, alerta ele. É só tentar fazer anúncio no Facebook, sugere Denicoli, para ver que somos direcionados a escolher nosso público alvo por nossas opções políticas, como pessoas que gostam do Bolsonaro, pessoas que gostam do Lula, até questões mais restritas, como pessoas que gostam de animais, pais e filhos de adolescentes etc. “Passamos a estabelecer relações dentro de bolhas, porque o algoritmo vai segmentando as pessoas por interesses”, resume. “É tanta informação, que hoje temos a economia da atenção. Conseguiram precificar a atenção”, diz ele, sobre os inúmeros vloggers que disputam likes nas redes.

Outro aspecto assustador é que a internet vai sendo dominada por poucas empresas. O Facebook com seus dois bilhões de clientes (perfis que utilizam a rede), por exemplo. A regulação dessas empresas, em sua opinião, é quase impossível de se fazer. “Órgãos como a ONU tentam fazer isso, mas como todo organismo democrático envolve todos os interessados, e as empresas também estão lá para tumultuar e evitar uma regulação mais firme”.

Quando a internet surgiu falou-se em autorregulação. Hoje, até Donald Trump fala em regulação, porque realmente as coisas perderam o sentido de liberdade que havia. A internet foi capturada por essas empresas. “Elas não querem acabar com os robôs, perfis fakes que atuam nas redes. Dizem que sim, mas não fazem nada de efetivo a respeito”.

Outra observação dramática para o campo progressista, é que Denicoli defende que as forças de direita entenderam muito mais rápido o funcionamento das redes. Sem entrar no mérito do conteúdo, a comunicação deles é muito mais eficiente porque chega ao público. “Se a forma como fazem isso é usando robôs é crime, se comunicam fake news é crime. Mas chegam no receptor com mais eficiência”.

Para ele, como profissional de análise das redes, não há santos. Perfis fakes operam de todos os lados. Ele relata que quando avaliou pela primeira vez, em outubro de 2017, a pedido da revista Veja, perfis fakes de interferência política, verificaram que 70% trabalhavam para Bolsonaro e 20% para Lula. As duas forças políticas que foram ao segundo turno.

Denicoli explica que o que sua equipe avalia, mais que a veracidade jornalística, é a narrativa imposta e adquirida pelos perfis orgânicos. Analisam se ela foi absorvida e se vira algo que passa a se falar a respeito na sociedade.

Um caso interessante é o de Marina Silva, “que desaparece durante quatro anos e só aparece na eleição”, uma narrativa que se tornou verdade para pessoas de todas as classes sociais e perfis. “Isso nos interessa. Como uma narrativa dessa se torna verdade, mesmo não sendo? Num  momento de acirramento político, as pessoas adotam uma narrativa porque gostam dela, não porque é verdade”, alerta.

Dentro desta lógica, a narrativa de que “estão investigando fake news para calar a minha voz, para censurar minha liberdade de expressão” é muito fácil de ser absorvida, mesmo que as instituições estejam sendo atacadas por investigarem difusão de notícias falsas, o que é muito diferente.

De acordo com ele, o acirramento político no Brasil tem prejudicado o debate democrático para a configuração de uma força política mais adequada às necessidades do país. O brasileiro quer ver as coisas resolvidas de imediato, diz ele, não entende que existe uma legislação que precisa ser respeitada. É preciso que os ritos sumários das leis sejam cumpridos, defende Denicoli, para que tenhamos justiça e segurança jurídica. “Nesse ambiente de muito fluxo de informações, quem consegue dominar as redes acaba por impor uma narrativa”.

Tivemos o Brasil mergulhado numa eleição que funcionou na base das redes sociais e elegeu um grupo político. Ele salienta que esse grupo levou para o governo a mesma prática, que não está funcionando mais. “O Bolsonaro está há mais de 60 dias negativo na internet. As menções negativas superam as positivas, há muito tempo”.

Ele acredita que essa queda do presidente em seu território de domínio, as redes sociais, se deve ao fato da democracia “clamar por diplomacia”. As pessoas precisam conversar, porque o Brasil elege diferentes grupos políticos. Quando o presidente não dialoga, tumultua o processo e deixa de governar para todos. “O Brasil que elegeu o Lula, é o mesmo país que elegeu o Bolsonaro. As pessoas não são de esquerda ou direita, elas mudam conforme a conveniência para suas vidas. Manter uma comunicação de campanha durante o governo tem se mostrado ineficiente”, analisa o especialista.

No vídeo da reunião ministerial exposto pela Justiça, o que intrigou Denicoli foi, durante toda a reunião, não discutirem um projeto para o país. Quando um ou outro colocaram projetos, foram ignorados. “Aquilo não chamou a atenção, pelo acirramento do debate. Na oposição também ocorre isso. Ninguém está pensando no Brasil. A esquerda precisa sair desse sufoco em que está mergulhada todos os dias para propor alternativa”, defende ele.

“Temos hoje uma rede muito negativa para o Bolsonaro, mas que a Oposição não consegue capitalizar para uma proposta de Brasil diferente. A gente acorda e dorme sempre no mesmo dia”, lamentou.

Sobre a regulação das redes sociais e da internet, ele comenta que a Europa saiu na frente no respeito ao indivíduo, ao aprovar a Lei do Esquecimento. A lei espanhola prevê que o indivíduo tem o direito de não estar anexado ao Google e pode ser apagado das redes sociais.

No Brasil, no entanto, ele critica a aprovação do Marco Civil da Internet. Para ele, o debate sobre o assunto foi importante, mas “a aprovação a toque de caixa deixou um resultado pífio”. Se conseguimos a neutralidade da rede, não conseguimos manter um banco de dados de brasileiros nos data centers do Brasil. Isso nos expõe à regulação internacional para se defender. “Era o momento para rediscutirmos isso, se não estivesse tudo tão tumultuado”.

Os comentários de Denicoli fazem parte do debate ocorrido, nesta quinta-feira (28), promovido pelo Observatório da Democracia, sob o ciclo Diálogos, Vida e Democracia, com o tema Jornalismo, Comunicação e Política nas Redes Sociais. O Observatório da Democracia reúne as fundações Maurício Grabois, Perseu Abramo, Leonel Brizola-Alberto Paschoalini, João Mangabeira, Lauro Campos e Marielle Franco, Claudio Campos, Ordem Social e Astrojildo Pereira.

O debate teve a mediação da jornalista Renata Mielli, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, acompanhado dos convidados Leonardo Attuch, jornalista e diretor do portal Brasil 247 e Renato Rovai, jornalista e diretor de redação da Revista Forum.


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