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Raiva e rebeldia no coração do Império

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Um ato de racismo extremo destampa a panela de pressão, reúne milhões contra Trump e põe em xeque a ultradireita

Nunca houve um fim de semana, nos Estados Unidos, como estes que acabamos de viver. Muitas comparações com o momento atual foram feitas – com a fúria que emergiu em 1968, após o assassinato de Martin Luther King Jr e com os Dias de Raiva, o levante civil contra a guerra do Vietnã que tomou Chicago em 1969.

Alguns lembram que o “Verão Vermelho” de 1919 é uma possível comparação, pois uma onda de violência racista varreu o país, que se debatia com a devastação da pandemia de gripe “espanhola”. Porém, nada na História corresponde com exatidão aos eventos dos últimos dias.

Uma epidemia letal que ainda começa destroçou as ilusões de força que este país nutriu, durante décadas, para encobrir suas misérias evidentes. Estas mesmas misérias permitiram a emergência de um pretendente a tirano, um governante que se enfurece contra a extinção de sua frágil luz, enquanto se esconde, no bunker da Casa Branca, das consequências de sua própria negligência.

Graças ao advento da era das mídias sociais, quase tudo isso foi gravado e difundido amplamente. A violência de um Estado policial do supremacismo branco, uma verdade construída por séculos, foi explosiva novamente. Desta vez, não houve uma volta ao antigo normal – como era sempre comum –, nem um desaparecimento progressivo dos fatos, no oceano de notícias banais. Desta vez, tudo está nas ruas, com punhos e vozes erguidas, e sem conclusão à vista.

George Floyd morreu sob o joelho de um policial cujo histórico de violência era notório. Uma garota de 17 anos registrou o assassinato em vídeo e, em seguida, o mundo todo assistia. Como disse o ator Will Smith num programa de TV, em 2016, “o racismo não está piorando – ele está sendo filmado”.

Em Minneapolis, Louisville, Washington, Nova York, Boston, Chicago, Atlanta, Birminghan, Sioux Falls, Sacramento, Oklahora, Cleveland, Murfresboro, Longo Beach, Detroit, Denver, Philadelphia, Seattle, Dallas, Milwaukee e muitas, muitas outras cidades dos EUA, a população se leventou. Mais de 40 cidades assistiram a protestos pacíficos e a levantes selvagens, em igual medida.

As vitrines despedaças e o fogo atraem, é claro, a maior parte da atenção da mídia, o que despertou a ira daqueles que querem nos distrair das razões pelas quais os levantes começaram. Há evidências crescentes de que certos grupos, na extrema direita, estão tentando usar um pouco do caos em favor de seus próprios fins, assim como buscam atingir comunidades negras e atiçar uma guerra civil racial.

Muito da atenção da mídia está sendo desviado para os “saques”. Imagens de cidadãos de todas as origens raciais levando comida, produtos de beleza e outros bens das lojas, em meio ao caos, dominam os círculos da mídia, ameaçando enterrar o tema central em debate. Mas a cobertura nos acontecimentos é incapaz de compreender o verdadeiro contexto: milhões de pessoas enfrentando enorme devastação econômica, estão, em meio à Covid-19, sem trabalho e sem dinheiro.

Falo de milhões de pessoas que passaram a vida sob ameaça da polícia e cujo desespero atual não é capaz de sensibilizar a consciência de homens como o senador Mitch McConnell, que reluta em oferecer-lhes alívio, porque não vê o gesto como ideologicamente são. O alívio oferecido veio sob a forma de um cheque de US$ 1,2 mil, oferecido agora há muito tempo e jamais recebido por muitos dos que dele necessitavam – enquanto trilhões de dólares foram embolsados por corporações poderosas e por amigos de Donald Trump.

Quem, então, são os verdadeiros saqueadores?

Há sempre outro forno de micro-ondas, ou outra TV, para colocar na prateleira de uma loja. Mas não haverá jamais outro George Floyd, outra Breonna Taylor, Eric Garner, Atatiana Jefferson, Botham Jean, Sandra Bland, Tamir Rice, Philando Castile, Tanisha Anderson, Michael Brown ou Freddie Gray – para citar alguns nomes das vítimas da violência policial racista.

Os mortos foram saqueados de nosso mundo por um Estado policial racista que agora reage com violência sem limites contra o povo que jurou proteger. Em Minneapolis, uma mulher, que estava pacificamente em seu terraço, é alvejada por policiais vestidos para a guerra. Em Nova York, um policial arranca a máscara de um jovem negro que está com as mãos erguidas, para borrifar spray de pimenta sobre sua face.

Em Grand Rapids, um manifestante desarmado e sozinho é agredido a cassetete e golpeado no rosto, com um cilindro de gás lacrimogênio, pela polícia. Em Atlanta, a polícia arrebenta as janelas de um carro onde estava um casal negro, arranca-os do veículo e os agride.

Também em Minneapolis, o repórter Michael Adams, da Vice News, recebe um jato de gás da polícia, quando está deitado ao chão, em obediência ao que lhe determinaram. A violência contra esse repórter ecoou em todo o país, enquanto os jornalistas eram agredidos violentamente pela polícia.

O registro em vídeo de cenas com esta está se multiplicando como os fardos de tijolos que aparecem misteriosamente em locais distantes de qualquer área de construção civil. Ou estes policiais violentos fora de controle não sabem que os telefones vêm agora com câmeras, ou eles simplesmente não se importam. Esta última possibilidade – ou, melhor, probabilidade – é o elemento mais inquietante.

Muitíssimas pessoas estão se debruçando sobre a brecha para grandes mudanças que explodiu diante de nós, devido a uma confluência letal de razões. Mais de 100 mil mortos e de 40 milhões de desempregados, numa pandemia descontrolada, dirigida por um presidente monstruoso mesmo quando negros são massacrados por policiais em nome do Estado de poder branco. A grande revolta, vale lembrar, já está se formando

A polícia, em muitas cidades, está reagindo com um arsenal de atos violentos. A ferocidade extrema da reação policial é evidência, em prima facie, do desejo de cometer virtualmente qualquer atrocidade, em defesa do status quo racista.

Em resposta, precisamos continuar agindo. Se você puder, saia às ruas com os manifestantes, ou comece sua própria ação, ainda que pequena, onde mora. Se as ruas não são possíveis, faço o que puder, em apoio, porque tudo conta. Há muitas maneiras de se colocar e lutar, neste momento de verdade.

Este é um momento crucial para o país, que pode ter dois desfechos opostos. Ou garantimos um grau de justiça superior, por meio de esforço muito persistente, ou, se nos enfraquecermos ou vacilarmos, a reação autoritária que já começou irá nos afundar em escuridão desconhecida.

Não podemos. “Algum dia” é agora. Só poderemos escrever um futuro decente se formos fiéis a nós mesmos, uns aos outros, e à legião de vítimas que exigem justiça além deste vale de tristeza insuperável

Por William River Pitt, no Truthout| Tradução: Antonio Martins (Outras Palavras)


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