Sobre a “Educação Domiciliar/Familiar/em casa”, por Camila Mugnai Vieira

Camila Mugnai Vieira

Sou psicóloga, Doutora em Educação e adoro educar minha filha… cumprindo meu papel de MÃE. Em nenhum momento, mesmo com a minha titulação, suposta competência profissional e disponibilidade, estarei à altura de substituir a função da ESCOLA e dos PROFESSORES na vida dela.
Os professores são profissionais que se formaram para isso e dedicam-se arduamente, com métodos pedagógicos diversos, para mediar a relação dos alunos com o conhecimento construído ao longo da história de nossa cultura. Conhecimento científico, diga-se de passagem, porque de ordem espiritual, ela terá acesso em casa ou em alguma instituição religiosa, se desejarmos.
Nada substitui a socialização com outras crianças, com a diversidade de jeitos de ser, valores e costumes, brincando, jogando, ganhando, perdendo, dialogando e aprendendo todos os dias a conviver com o outro! É nesse espaço longe dos pais que as crianças vão se conhecer, desenvolver seu vínculo com outros círculos sociais, sua autonomia e independência, fundamentais para vida adulta saudável. É a instituição escolar que promove esta vivência diária.
E as crianças com deficiências???Vão voltar para o local onde estiveram por séculos, restritas a suas casas e isoladas em instituições segregadas?
Estes argumentos são para tentar clarear a gravidade da proposta para uma parcela da população extremamente privilegiada como eu (que em parte, vive numa bolha).
Mas, o problema é beeeem mais sério. Estamos falando em Brasil, país no qual muitas crianças ainda tem na escola a melhor ou única refeição do dia, cujos pais e mães são analfabetos, com pouca instrução, tem muitos filhos e trabalham dia e noite em condições cada vez mais precárias sem ter quase tempo nem para descansarem e verem seus filhos.
A proposta abre espaço para desreponsabilização do Estado em garantir um dos direitos básicos previstos na Constituição que é a Educação de todos os cidadãos. Enquanto nos enganam que isso é “liberdade de escolha”, modelo de países desenvolvidos, cortam financiamento de pesquisas, de verbas pra área, atacam e caluniam professores com fakenews, desqualificam o conhecimento científico, distorcem a história, propagam que jovens não devem se interessar por política ou filosofia, denigrem importantes educadores como Paulo Freire, desvalorizam o Enem e políticas afirmativas, não discutem o Fundeb, fazem acordos com empresas privadas e de Ead, privatizam o ensino superior, banalizam e dificultam a participação popular nos espaços públicos e decisórios, extinguindo conselhos sociais, modificam as políticas de educação, propondo a volta de classes e escolas especiais com força total.
ACORDEM!!!É o país do futuro dos nossos filhos que está em jogo! Se hoje a terra é plana, o aquecimento global, os agrotóxicos e a vacinação são criações comunistas ou mimimi, será um futuro no qual doenças erradicadas terão voltado com força total, o impacto ambiental será catastrófico, novas doenças inimaginåveis e mutações terão surgido, os pobres não terão SUS nem escola, a violência crescerá, a banalização da violência como solução para lidar com conflitos será a regra, nós seremos idosos sem previdência…
Eu não sei vocês, mas vou querer recorrer aos… Cientistas!Não poderemos!Aos professores?Não! Aos movimentos sociais?Não! Terão sido extintos, tamanha desvalorização, falta de investimento e descrédito.
Espero que a galera da “arminha com a mão” continue se contentando com o que exaltam hoje. Certamente terão um youtuber, um comediante, um astrólogo, um ator pornô, um falso pastor ou um militar para prometerem salvar sua pátria.
A minha pátria e das companheiras do #elenão já está em luto há um tempo e morre de novo dia após dia com este desgoverno.
Boa sorte pra nós.

Ministra da Familia, Damaris, quem está impulsionando o projeto da escola domiciliar no país. Foto-Ilustração para o artigo – Responsabilidade da Redação –

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