TEXTO DE NATAL, por MARCILIO FELIPPE

MARCILIO  FELIPPE, colunista do portalmariliense.com

Eu já me sinto gratificado por ter passado tantos Natais, por estar sempre rodeado de familiares e pessoas queridas, por poder abraçar e desejar boas coisas com o coração. A vida é um sopro, é curta e passa como qualquer coisa perecível.

Ao longo dos anos vamos amadurecendo e seremos sábios se soubermos aprender com o tempo vivido.

Minha vista já não lê as letras miúdas sem o auxílio dos óculos e uma artrose no quadril já sinaliza que meu futebol das terças e das quintas-feiras deve ser abandonado. Isso não me entristece.

Afinal, joguei todas as partidas que quis desde o meu tempo de garoto. Já fui craque, artilheiro, beque e perna de pau. Não faço um balanço das queixas, mas sim das coisas boas que aconteceram ou que ainda estão por vir.

Imaginem se nos afundássemos somente nas maledicências do dia a dia, nas pautas perniciosas da nossa imprensa e nas catástrofes anunciadas? Não haveria espaço para a esperança, para a alegria de poder ter um local de trabalho, um direito cerceado a milhares de brasileiros. Não podemos perder a nossa capacidade de nos indignarmos com desmandos, mas também não podemos perder o rumo e correr o risco de ficarmos neuróticos.

Vivemos tempos difíceis sim, mas ninguém duvidava que seriam fáceis.  Outrora, havia um esforço para que nossas conquistas, pessoais ou em nossa sociedade fossem preservadas e que nossa cultura, costurada em séculos de História, com pensadores, filósofos e gênios em todas as áreas, servissem de exemplo e alicerce para se construir uma sociedade no futuro, ainda mais justa e bela.

Mas justamente aqueles que deveriam preservar a cultura, as artes e os valores da nossa cultura ocidental, são os primeiros a subverte-la. Hoje, desconstruir valores e quebrar paradigmas é a nova ordem impostas pelos intelectuais da atualidade. Isso causa um efeito catastrófico a médio prazo, onde estudos, pesquisas e a cultura são relegados a um plano inferior.

As universidades brasileiras caíram no ranking do Times Higher Education, que reúne as melhores instituições entre 42 países emergentes de 4 continentes. A Universidade de São Paulo já chegou a ocupar o 61º lugar no ranking e agora não parece nem entre as 100 melhores universidades, avaliadas por essa instituição.

“Dados do IBGE mostram que, em 2005, 80% dos graduandos das universidades públicas estavam entre os 40% de maior renda no país. Medidas como a instituição da política de cotas reduziram esse percentual, mas esses alunos continuam sendo a maioria – eram 61% do total em 2015. Já a participação da base da pirâmide (40% mais pobres) passou de 8% para 22% no período.

Somos um país de desigualdades e essa desigualdade foi alimentada nas últimas décadas. “Nosso país é incrivelmente desigual. Cobrar (pelo ensino superior) pode ser um instrumento bastante eficaz de distribuição de renda”, acredita o economista Sergio Firpo, professor do Insper.

A professora Cristina Helena Carvalho, numa discussão sobre a cobrança ou não de mensalidades na universidade pública, apresentou dados que reforçam a afirmação de que aumentou o número de alunos de baixa renda nas universidades públicas a partir de 2004. Ela apresentou resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que dividiu a população em cinco faixas de renda: o número de alunos das três faixas mais pobres nas instituições públicas subiu de 18,6% em 2004 para 38,3% em 2014.

Mas o acesso facilitado à universidade pública ou seu financiamento ou não pelo estado, não resolve um drama que vivenciamos agora: a péssima qualidade do ensino.  É por demais evidente o fraco desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio. A preocupação deveria ser qual o nível de qualidade do estudante que sai do ensino médio, rumo à universidade.

Há todo um contexto que contribui para esse estado de coisas: a degradação de valores, ausência de parâmetros morais, desagregação das famílias, uma mídia que não está comprometida com a verdade ou com uma cultura qualitativa de massa.  As redes sociais se tornaram uma ferramenta preciosa, mas que mal utilizada, torna-se uma fábrica de imbecilizar pessoas.

A instrumentalização dos meios de comunicação convencionais produziram toneladas notícias falsas, confundindo ainda mais a informação e a cabeça das pessoas. É assustador como isso está se tornando um hábito pernicioso.

A “riquíssima história cultural brasileira” está reduzida a “uma autobiografia da nossa esquerda política”. Sob o domínio da “confusão” e da “ausência de parâmetros”, a linguagem já não serve para referir a realidade, escreve o antropólogo Flávio Gordon.  A grande parte da nossa imprensa tem se utilizado de uma forma enviesada de relatar fatos, onde criminosos são tratados como “suspeitos” e policiais tratados como “criminosos”.

Tudo isso, essa ausência de padrões morais e preservação dos bons costumes e da escolaridade de nível, nos levam às gestões incompetentes, misturadas a altas doses de corrupção, desvios de finalidade e políticos ineptos, o pais padece, abandonado aos maiores descalabros e sem perspectivas. Há décadas seus governantes optaram por ignorar os problemas crônicos, ao mesmo tempo que não investiram em nada para uma evolução positiva. Além disso, os desvios de verbas milionárias foram responsáveis pela nossa falência econômica e cultural.

Essa semana, conversando com uma amiga de trabalho muito querida, falando da grande carga de tarefas típica de épocas de censo, lembrei de uma passagem bíblica, onde São Paulo escreve a Timóteo:

“Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor sua aparição” (2Timóteo 4,6-8).

O combate de Paulo não é literalmente uma batalha, uma guerra, mas uma imagem que descreve a vida do cristão, o seu comportamento sobretudo em relação ao perseverar na fé. A vida do cristão é feita de escolhas e a liberdade que nos foi dada faz com que cada vez tenhamos que decidir qual estrada tomar; o bom cristão deve seguir fiel ao ensinamento divino. Esse processo é chamado por Paulo de “combate”. O êxito final vai defini-lo como “bom” ou “mau”.

Quantos bons combates nós já fizemos? Nossa vida é pontilhada de combates diários, de vitórias e derrotas, de escolhas, certas ou erradas, de encontros e desencontros, amores e desamores, por que somos humanos e nunca estamos totalmente livres das nossas tendências mais sombrias, contra as quais, devemos lutar.

E estamos aqui, de pé, no centro do fogo, fazendo o que deve ser feito seguindo nossas intuições e presságios. Estamos na labuta diária, na percepção constante da vida, ora vigiando, ora sendo disperso, cada dia mais temerosos pelo dia de amanhã

Não sou Paulo nem Timóteo, mas a vida me trouxe bons combates que carrego comigo e me lembro deles, quando tenho a minha companhia nas horas solitárias. Minha esperança é que um dia, talvez, eu ganhe consciência e força para aceitar o inevitável, se algo inevitável acontecer – sem me retorcer de impotência, pensando que aquilo poderia ter sido evitado.

Mas, ao mesmo tempo, ter a plena consciência da real situação que estamos vivenciando, nos traz alento e alimenta nossas esperanças por tempos melhores, por perspectivas mais alvissareiras, onde o novo pode ser o remédio para curar feridas velhas e não fechadas.

Na vida, a maioria das coisas ocorrem sem aviso prévio. Não há alegrias nem tragédias anunciadas. Elas simplesmente acontecem. Sofrer antecipadamente ou ter expectativas em demasia, nunca foram coisas boas. Hoje penso que viver a vida simplesmente por deixa-la viva. Isso traz o Natal para dentro da nossa alma todos os dias. Entre a Graça do nascimento de Jesus e nossa conduta diária, é que reside o verdadeiro espírito natalino. É a luz carregada de esperança que nos faz vivos.

Feliz Natal e que ele permaneça.

FONTE DA CITAÇÃO:

https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/2018/reputation-ranking#!/page/4/length/25/sort_by/rank/sort_order/asc/cols/stats

MARCILIO PASCOAL FELIPPE-*

NATURAL DE SÃO PAULO – RESIDE EM TUPÃ SP-

Bacharel em Jornalismo, pela Faculdade FACCAT de Tupã. Jornalista Profissional devidamente registrado no Ministério do Trabalho  sob numero 0085309/SP

É Técnico de Planejamento e Gestão de Informações, na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, tendo ingressado na instituição em 1980.

Desenvolveu trabalhos na área de coleta de dados, tendo participado ativamente em nove campanhas censitárias, como supervisor e Coordenador de Área.

Trabalhou na Base Territorial do IBGE de São Paulo, na atualização de mapas e acertos de limites territoriais municipais e distritais, em convênio com o IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).

Participa ativamente de execução de projetos de pesquisas sociais, demográficas e econômicas, ministrando treinamentos e acompanhando os trabalhos de coleta de campo como supervisor.

Atualmente ocupa cargo de chefe da unidade em Tupã/SP .

Formação do Ensino Médio: Técnico em Administração, tendo trabalhado na iniciativa privada no setor de contabilidade, de recursos humanos e de marketing, antes do ingresso no serviço público.

Escreve um artigo semanalmente no jornal Destaque de Osvaldo Cruz. Palestrante em escolas públicas estaduais, para estudantes de ensino médio, abordando temas como a cartografia, geografia, pesquisas e mapas.

 

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